Negligência: a saúde laboral das marisqueiras da Lagoa Mundaú

Condições subumanas e exploração de mão de obra expõem catadoras a riscos invisíveis

 

Ana Paula Omena / Andrezza Tavares
Repórteres

 

Falar em sururu traz logo à mente pratos deliciosos à base do marisco, porém muitas vezes quem trabalha na linha de frente de produção do molusco, não é lembrado nem por quem compra o produto, e nem tampouco pelos órgãos de saúde e fiscalização. Este fruto do mar ofertado pela natureza em um dos mais belos cartões postais de Alagoas, a Lagoa Mundaú, chega à mesa do consumidor pelas mãos das marisqueiras, também conhecidas como catadoras de sururu. Elas, que trabalham de forma artesanal e totalmente sem proteção, convivem em condições insalubres e de exploração de mão de obra por atravessadores, correndo riscos graves de saúde.

Em toda a extensão da Lagoa Mundaú as marisqueiras podem ser vistas. Estima-se que são mais de cinco mil espalhadas trabalhando na atividade com o sururu, e que, por conta da desinformação e esquecimento de quem pode ajudar, nem se dão conta do tamanho dos perigos invisíveis do cotidiano.

A reportagem do Tribuna Hoje esteve no Dique Estrada, como é mais conhecida a Avenida Senador Rui Palmeira – rua principal que margeia a lagoa, e conversou com algumas das marisqueiras, todas com o mesmo sentimento: o abandono. Elas são unânimes quando apontam as principais dores sentidas no decorrer das mais de 10 horas de serviço laboral sem pausa muitas vezes nem para comer.

“O máximo que conseguimos é tomar água ou ir ao banheiro quando dá. Temos que vender, precisamos do ganha-pão”, frisou Luciene Salustiano, de 32 anos, que trabalha desde criança despinicando o marisco na beira da lagoa.

Uma das dores mais relatadas entre as catadoras é aquela resultante dos movimentos repetitivos. São horas a fio em pé, o que acaba lesionando mãos e dedos. Elas contam que têm também, e principalmente, problemas pulmonares pela queima do sururu em latas de tinta e a fumaça que atinge os olhos.

 

(Foto: Sandro Lima)

 

As péssimas condições de higiene e sanitárias, sem nenhum tipo de proteção, são visíveis, trazendo para as catadoras todo o tipo de exposição e vulnerabilidade. Para as trabalhadoras o maior complicador é quando precisam se afastar por algum problema de saúde, porque não contribuem com o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), e não há como receber o benefício. “A gente trabalha doente mesmo, faz porque precisa e não tem quem dê, então tem que vir de qualquer jeito, às vezes a gente toma um comprimido que indicam na farmácia e vem mesmo assim”, revelou.

Em meio à falta de atenção do poder público, as catadoras de sururu passam o dia convivendo com muito lixo e esgoto, lançados na Lagoa Mundaú. Mesmo assim, o ofício continua porque elas dizem ser esta a única forma de sustento na sobrevivência de centenas de famílias na região.

As marisqueiras contam que o trabalho cotidiano tem muitas dificuldades, mas não podem parar porque os entes queridos dependem delas para manterem-se vivos. Elas evidenciam que o ciclo é esse: “comer para viver e trabalhar para comer”.

A reportagem constatou durante toda a entrevista que a cena se repete entre as marisqueiras. Elas não param, são horas com o corpo encurvado despinicando o sururu, o que resulta ao fim do dia em fortes dores nas costas, segundo elas. O trabalho manual, que também exige bastante habilidade no serviço, passa de geração em geração, da vovó até a netinha.

Algumas delas está há tanto tempo na atividade que os calos não cuidados nos dedos fizeram-nas perder a digital, sem falar nos inúmeros cortes causados pela casca dura do sururu, na retirada da lama antes da fervura e durante a despinicagem.

 

Dores intensas nas costas, tosses e ardência nos olhos pela fumaça

 

(Foto: Sandro Lima)

 

O trabalho começa cedo. Antes mesmo do amanhecer, elas rumam para as barraquinhas improvisadas à beira da lagoa. O serviço artesanal e um tanto primitivo que dura horas ininterruptas garante algum trocado por uma lata de sururu despinicado, um valor irrisório de até R$ 5 pagos por atravessadores.

“Donos de bares, restaurantes e comerciantes nos ‘contratam’ e a gente que precisa faz e agradece por ter quem compre”, salientou dona Liete dos Santos, de 52 anos.

As catadoras falam que o processo de fervura do sururu é rápido por conta da alta temperatura do fogo a lenha que é feito com o pó de serra e que, de acordo com elas, aumenta mais rapidamente o tempo de cozimento; porém relatam que pagam um preço alto pela fumaça inalada e a combustão tóxica nos olhos. “A vida aqui na beira da lagoa é trabalhosa demais, acaba com a gente. Tem noite que não conseguimos dormir de tanta dor nas costas, a gente carrega muito peso nessas latas com o sururu de um lado para o outro, sem falar na casca que levamos até a beira da pista para o carro do lixo quando resolve passar, levar”, lembrou. “A gente tosse muito e a vista [olhos] queima como brasa e tem dia que é insuportável, mas a gente não pode desistir, só quando morrer”, contou dona Liete, que se diz esperançosa e acredita que um dia sua vida possa mudar.

(Foto: Sandro Lima)

 

ATRAVESSADORES

As trabalhadoras revelam que a dependência financeira das marisqueiras é submetida aos atravessadores, que pagam uma mixaria pelo quilo do sururu. “Não temos apoio dos políticos, eles só aparecem no tempo de eleição com promessas de que vão melhorar a vida da gente, mas nada acontece. Eu mesma vivo toda dormente da luta diária catando sururu, tenho muitos cortes nos dedos, mas não posso parar, saio de madrugada de casa e fico por aqui horas e horas”, mencionou Maria do Socorro Oliveira, de 49 anos, que começou com 9 anos de idade na despinicagem do marisco e criou seus três filhos com a atividade.

Maria José de Oliveira, de 40 anos, também revela que criou seus sete filhos do sururu que cata. “A gente faz o impossível para sobreviver, não é fácil, saímos de madrugada de casa contando com a sorte de que os canoeiros tragam o sururu para podermos trabalhar. Mesmo com muita dormência na mão e principalmente nos dedos não desistimos, até porque precisamos de dinheiro para comprar o alimento e sustentar a família”, salienta a marisqueira, destacando que dois dos sete filhos dela também a ajudam no serviço árduo.

(Foto: Sandro Lima)

 

Problemas de coluna: tratar das causas é mais eficaz que das consequências

A má postura na execução do trabalho de cozinhar e despinicar o sururu, associada ao peso excessivo, ambos a longo prazo, podem causar sérios problemas de coluna nas marisqueiras, e não é à toa que elas já se queixam de dores nas costas. O ortopedista Enderson Balin conta que em muitas situações, acaba-se tratando mais as consequências que a causa do problema, porém, o ideal, seria justamente o contrário, o que resultaria numa melhor condição de trabalho pra elas, com melhores posturas, materiais mais adequados e menos esforço físico.

“Ai estaríamos tratando muito mais pensando no futuro, mas a gente acaba tratando mais as consequências que esse trabalho traz, e esse tratamento muitas vezes acaba pegando o paciente numa condição muito pior que se tivesse acesso mais cedo aos cuidados que poderiam amenizar os reflexos da atividade exaustiva, possibilitando uma vida futura melhor”, destacou o ortopedista.

Enderson Balin defende educação postural e a redução de peso (Foto: Andrezza Tavares)

Os problemas de coluna, ainda na fase aguda, acometem mais pessoas na faixa etária de 30 a 60 anos. Segundo Enderson Balin, no geral, 90% das pessoas tiveram ou terão problema de coluna ao longo da vida. “É justamente nessa faixa etária mais produtiva que ela se torna uma causa de problema social e de trabalho, podendo até causar restrições laborais”, pontuou o médico, salientando que no caso específico das marisqueiras, a situação que elas se encontram e o esforço repetitivo, acometem a coluna causando ainda mais dor.

O ortopedista especialista em coluna falou sobre a importância de tratar os problemas ainda na fase aguda, para que estes não se cronifiquem, o que agravaria ainda mais a situação. O médico explica que a coluna é um dos atendimentos de maior frequência dentro da ortopedia e que a dor lombar é desencadeada por uma série de fatores, estando entre os principais às más posturas e o excesso de peso.

“É preciso dividir o problema de coluna em agudo e crônico. O agudo, que muitas vezes pode cronificar em função do mau uso constante que se faz em posições indevidas ao longo da vida, são sintomas que ocorrem mais repentinamente, antes de três meses. São sintomas muitas vezes devido a traumas, mas, principalmente, ao esforço e movimento repetitivo, ou posições inadequadas na região. É o que acontece muito com as marisqueiras, elas estão ali a mercê de um tipo de atividade onde as posturas são totalmente erradas, e às vezes, as condições de tempo de trabalho, onde elas passam horas a fio em posições indevidas, causam um desgaste na coluna”, enfatizou Balin.

Na fase crônica, pode haver o rompimento do disco intervertebral e causar a hérnia que, na grande maioria dos casos não é cirúrgico, porém, em outros é necessário à intervenção cirúrgica, o que pode limitar um pouco mais o paciente. Além disso, outros problemas como os desgastes naturais ósseos, a exemplo das artroses de colunas e amaulamentos, podem surgir decorrentes ainda do envelhecimento da estrutura óssea, aliado ao sedentarismo.

“Algumas inflamações e infecções, e alguns desvios de coluna passam a ser um problema crônico. Se não houver uma diminuição do peso, bem como uma educação postural, a coluna poderá sofrer outras consequências”, alertou o médico.

TRATAMENTO

Mesmo com o problema crônico, existe tratamento para dar uma melhor condição de vida às marisqueiras da Lagoa Mundaú. Em muitos casos, esse tratamento passa por uma ergonomia, ou seja, um adequado posicionamento de trabalho no sentar-se, movimentar-se, além da fisioterapia. O tratamento é dividido em três pontos básicos: medicação, educação postural e fisioterapia.

“A medicação é à base de analgésico e anti-inflamatório, com ressalvas apenas de alergia ou pacientes mais idosos. A educação postural passa pelo cuidado ao sentar e ao levantar por exemplo. A gente tem mania de curvar a coluna para pegar alguma coisa no chão, e na realidade, a gente devia sempre fazer o movimento de agachar e deixar a coluna ereta. Já a fisioterapia, RPG, pilates, natação, hidroginástica e a própria musculação – desde que seja bem orientada -, também são fundamentais para o fortalecimento da coluna”, esclareceu o ortopedista, lembrando que nunca é tarde para pensar em um tratamento.

 

(Foto: Sandro Lima)

 

Segundo o médico, chega um momento em que a coluna sofre o desgaste e não tem mais como retroceder sendo o tratamento observando as condições dali pra frente. No caso das marisqueiras, o que pode ser feito para tentar melhorar as condições físicas e minimizar as consequências do esforço laboral é um trabalho de fisioterapia e alongamento, porém, pelasituação econômica que se encontram, seria importante que alguma instituição abraçasse a causa para fazer um trabalho de fisioterapia com essas marisqueiras, para assim, evitar as dores na coluna e em outras regiões no corpo relacionadas ao movimento repetitivo.

“Em alguns casos não tem mais cura, tem que tratar no momento que o paciente está com dor e evitar que a situação piore em função do trabalho que ela exerce. Existe uma melhora quando se tem condições de fazer um tratamento, pois não adianta só medicar o paciente é preciso fazer um tratamento a médio e longo prazo. É preciso pensar em dar uma qualidade de vida melhor ao paciente, para que ele tenha uma qualidade de vida melhor no futuro. Seria muito bom que todas as marisqueiras tivessem acesso a medicação, a fisioterapia e a uma orientação profissional”, pontuou Balin.

 

(Foto: Sandro Lima)

 

Mãos como importantes ferramentas de trabalho

Quando as marisqueiras chegam ao ambulatório de atendimento especializado em cirurgia da mão no SUS (Sistema Único de Saúde), no Posto João Paulo II, no bairro do Jacintinho, suas principais queixas são dores dos mais variados tipos, dormência e presença de dedos enganchados. A informação é do ortopedista especialista em cirurgia da mão, Givaldo Rios.

Segundo o médico, no geral, essas pacientes chegam ao ambulatório com problemas diversos nas mãos, muitos deles relacionados e agravados pela atividade laboral, mas não são causados especificamente pela profissão. Porém, as marisqueiras sentem os problemas de forma mais intensa por conta da atividade manual que elas exercem.

“Os problemas mais frequentes nesse público específico é a Síndrome do Túnel do Carpo, o dedo em gatilho e a presença de corpo estranho na mão. São problemas diferentes: os dois primeiros não têm nada a ver com a atividade que as marisqueiras exercem especificamente, o terceiro sim”, esclareceu.

Segundo Givaldo Rios, problemas mais frequentes são Síndrome do Túnel do Carpo, dedo em gatilho e presença de corpo estranho nas mãos (Foto: Andrezza Tavares)

O cirurgião de mão explicou que a Síndrome do Túnel do Carpo é uma lesão muito frequente em qualquer atividade podendo acometer homens e mulheres, trabalhadores braçais ou intelectuais, e se caracteriza por dor e dormência na mão, causado pela compressão de um nervo no punho chamado mediano. Esse nervo nasce na coluna cervical, no pescoço, desce por todo membro superior chegando até a palma da mão, e é o responsável pela sensibilidade, pelo tato, que a pessoa tem em grande parte da mão.

“Esse nervinho que vem da região cervical quando chega ao punho passa por dentro de um pequeno canal, um túnel, que em algumas pessoas – ninguém sabe o porquê -, com o passar do tempo, esse túnel começa a estreitar e a ficar apertado por diversos motivos, o que ainda é alvo de estudo. O fato é que esse túnel estreita e começa a apertar esse nervinho e a pessoa começa a ter dormência na mão. Isso é a Síndrome do Túnel do Carpo”, explicou o ortopedista, informando ainda que as pessoas que exercem atividades de forçar muito o punho em extensão, como as marisqueiras, começam a sentir mais esse problema. “Os sintomas são agravados pela atividade, nesse caso o tratamento é cirúrgico. É uma cirurgia rápida, eficaz, onde o paciente entra e sai do hospital no mesmo dia, abrindo e fechando a mão, e depois do período de cicatrização e de fisioterapia, que dura entorno de 30 dias, o paciente pode exercer a sua atividade sem problema e com um ganho de qualidade de vida e de produtividade espetacular. Essa cirurgia também é realizada no Hospital Geral do Estado, pelo SUS”, acrescentou.

Outro problema recorrente é o dedo em gatilho, que é quando o dedo fica enganchando toda vez que abre e fecha a mão. De acordo com o médico, muitas vezes é necessário a pessoa usar a outra mão para destravar o dedo que ficou enganchado, é o chamado dedo em gatilho – pela semelhança com um gatilho de revólver -, causado basicamente pelo fato do tendão flexor que vai em direção ao dedo, passar por dentro de um pequeno túnel que também pode se estreitar e obstruir o deslizamento normal dessa estrutura.

“O tratamento pra isso na fase inicial é conservador, com fisioterapia e às vezes com infiltração de corticoide no local, mas quando isso não der resultado a cirurgia resolve e a pessoa volta a fazer tudo o que fazia antes e não terá grandes dificuldades no trabalho.

 

Fragmentos da casca do sururu entram na pele das mãos

O terceiro caso mais comum entre as marisqueiras é a presença de corpo estranho nas mãos. Durante a manipulação do sururu entram pequenos fragmentos na articulação o que pode ocasionar infecções graves, neste caso, segundo o médico, o tratamento é remover esse corpo estranho o mais rápido possível. Porém, Givaldo Rios contou que, por incrível que pareça, muitas vezes a retirada do fragmento da casca do sururu não é feita e se acumula na mão que é uma região muito nobre e tem estruturas muito delicadas e se um pequeno corpúsculo, um grão, encostar numa estrutura nobre pode lesar aquela estrutura dando dor ou uma disfunção importante. “Além de infeccionar, pode também ocasionar lesões permanentes”, alertou.

 

(Foto: Sandro Lima)

 

Givaldo Rios lembra que,no geral, o tratamento básico é buscar orientação médica assim que os sintomas surgirem e não deixar que o problema se torne crônico. O ortopedista acredita que se as marisqueiras tivessem uma jornada de trabalho que permitisse a elas a ida regular ao médico, elas poderiam observar os cuidados pessoais de uma maneira geral. “As mãos das marisqueiras são os instrumentos mais importantes de trabalho que elas podem ter e por isso, necessitam de maior atenção.”

Segundo relatos das próprias marisqueiras, não existe nenhuma luva ou outro equipamento que possa proteger as mãossem atrapalhar a execução do trabalho de despinicar sururu.

Uma alternativa que poderia facilitar o trabalho das marisqueiras sem trazer grandes danos à sua saúde seria a industrialização do marisco, passando da lida artesanal para um trabalho industrializado. “Ao menos se elas se juntassem em cooperativa e pudessem adquirir algum equipamento, pelo menos, para dar o primeiro tratamento no produto seria muito bom”, sugeriu Rios.

CALOSIDADE

Os calos nas mãos, decorrentes do esforço diário na lida com o sururu, até são uma proteção que o organismo cria para se defender de uma agressão constante àquela região. A calosidade nada mais é que o espessamento das camadas mais superficiais da pele na tentativa de proteger essas mãos tão habilidosas no despinicar do sururu.

“O calo em si não é o problema, o problema é o esforço que é feito e disso resulta em calosidade, porém, a tentativa de retirá-lo pode criar uma ferida no local, deixando a região mais sensível e mais sujeita ao traumatismo, sendo uma porta de entrada para uma bactéria ou fungoque causará um dano importante na mãos”, ressaltou o ortopedista.

TÚNEL DO CARPO

A marisqueira Rosinei Maria de Lima, de 52 anos de idade, sofria muito com dores fortes nas mãos, além de dormência, dedo enganchando e inchaço. No último dia 14 de março, ela fez a cirurgia com o ortopedista Givaldo Rios para tratar a Síndrome do Túnel do Carpo na mão esquerda.

Em agosto do ano passado, a moradora de Santa Luzia do Norte, região metropolitana de Maceió, e que trabalha como marisqueira desde menina, foi submetida a cirurgia para tratar o mesmo problema, só que na mão direita. Hoje, ela conta com alegria que não sente mais dores e nem dormência na mão direita. “Esse problema dificulta muito o trabalho, antes as coisas caiam da minha mão e eu nem sentia. Hoje estou melhor das dores e também não deixo as coisas caírem”, contou dona Rosinei.

Apesar das dores terem passado, a marisqueira tem consciência de que o trabalho repetitivo que envolve o lavar, ferver e despinicar o sururu, pode continuar afetando suas mãos e o problema voltar. “Não tem como fugir, tenho que enfrentar e seja o que Deus quiser, preciso do trabalho para me sustentar”, enfatizou.

Afastar-se da fumaça é o primeiro passo para o tratamento respiratório

A exposição à fumaça pode ocasionar alergias, infecções respiratórias até o câncer de pulmão, revela Tadeu Lopes (Foto: Andrezza Tavares)

A falta de condições dignas de trabalho e a necessidade de permanecer horas e horas na lida árdua do cozinhar e despinicar o sururu, pouco resta as marisqueiras uma opção de tratamento eficaz, que não seja necessária a interrupção da atividade por pelo menos alguns dias.

O pneumologista Tadeu Lopes, que é presidente da Sociedade Alagoana de Pneumologia e Cirurgia Torácica, alertou para os riscos que a exposição constante à fumaça, proveniente da queima da biomassa (lenha), pode trazer à saúde das marisqueiras que vão desde alergias, asma, renite, infecções respiratórias até o câncer de pulmão.

“Existem produtos cancerígenos na queima da biomassa e isso pode causar câncer de pulmão a longo prazo se essa exposição ocorrer durante muitos anos. Outro problema que essa fumaça pode ocasionar é o enfisema pulmonar. As pessoas relacionam muito o enfisema com o cigarro (o tabagismo) que é a causa mais comum de enfisema, mas a segunda maior causa mais comum é realmente a queima de biomassa”, explicou o médico.

Tadeu Lopes disse ainda que a exposição à fumaça agrava a situação de quem já tem asma e renite, por exemplo. “As pessoas do interior, que vivem a vida toda cozinhando em fogão a lenha, como no caso da marisqueiras, podem vir a desenvolver enfisema pulmonar”.

Afastar-se do trabalho é o primeiro passo para o início do tratamento das doenças pulmonares e incômodos respiratórios causados pela exposição das marisqueiras ao vapor, durante a queima da lenha usada no cozimento do sururu, o que é bastante complicado por ser essa atividade, a única fonte de sustento dessas mulheres batalhadoras.

MÁSCARAS E FOGO À GÁS

O pneumologista reforça que o ideal seria se afastar, mas não sendo possível, as marisqueiras teriam, pelo menos, que usar uma máscara durante o trabalho. “Seria um paliativo, minimizaria um pouco a exposição à fumaça, mas não iria resolver 100%. Um paciente asmático, por exemplo, mesmo com a máscara, vai sentir o cheiro da fumaça, portanto, o ideal seria se afastar completamente, infelizmente nem sempre isso é possível”, constatou Tadeu Lopes acrescentando que o tratamento depende da doença, porém, o ponto em comum entre eles é se afastar da fumaça. “Se for asma teria que se afastar da fumaça, iniciar um corticoide inalatório e observar a evolução. O mesmo deve ocorrer em caso de enfisema”, explicou.

Se a queima da lenha por si só já traz riscos à saúde das marisqueiras, ela se agrava ainda com o cozimento do sururu feito nas latas de tinta, uma vez que elas também podem estar inalando um derivado de produto químico que não se sabe qual é.

Já que se afastar da exposição da fumaça é uma possibilidade remota para as marisqueiras, o pneumologista garante que se o fogo à lenha fosse substituído pelo fogão a gás, os problemas respiratórios reduziriam consideravelmente. “Depois do advento do fogão a gás os enfisemas por queima de biomassa diminuíram bastante. Com o fogão a gás as marisqueiras não inalariam a queima da biomassa e com ela, a fuligem e a fumaça da queima da madeira. O problema é o subproduto da queima da madeira que faz essa alteração pulmonar, diminuindo o fluxo e destruindo o pulmão. Tudo isso faz mal”, enfatizou o médico.

 

No trato do sururu, olhos vermelhos, irritados e com ardência

Mário Jorge Santos afirma que não há registros de que a exposição à fumaça tenha causado problemas como cegueira ou déficit visual (Foto: Andrezza Tavares)

Em meio a tantos problemas causados pelas condições precárias e a exaustiva da jornada de trabalho, uma notícia que “ameniza” a preocupação das marisqueiras é a de que a fumaça do fogo à lenha, em contato com os olhos, causam irritações passageiras, segundo informa o médico oftalmologista Mário Jorge Santos.

De acordo com ele, a princípio, não existe na biografia médica nenhuma referência que leve ou que fale sobre uma possível repercussão dos olhos na exposição a longo prazo dessa fumaça. “A não ser que o latão de tinta utilizado no cozimento do sururu, antes dele ser despincado, contenha algum produto químico não removido na lavagem do recipiente que, em evaporação, pode causar uma irritação que será menor ou maior de acordo com o período de exposição”, enfatizou o médico.

O especialista acredita que para as marisqueiras utilizarem as latas de tinta, elas realizaram uma limpeza muito bem feita nos resíduos químicos, pois, caso contrário, essa fumaça pode vir contaminada com o produto químico desse latão, o qual não é o recipiente apropriado para fazer o cozimento de alimento.

“De qualquer forma, o que pode trazer com relação aos olhos seria essa fumaça contaminada com gases do produto químico que eventualmente pudesse ter no latão. Quanto à exposição da fumaça a lenha, o que ela vai causar, como causaria no nariz ou na boca se tiver aberta – por suas estruturas sensíveis e revestidas por mucosas -, é uma irritação. O olho fica mais ardido e mais vermelho porque essa fumaça vai fazer com que haja um ressecamento maior dessas estruturas que precisam estar sempre umedecidas e, especificamente, os olhos são umedecidos por nossas lágrima”, explicou o oftalmologista, informando ainda que existem dois tipos de lágrima: a que vem uma emoção, choro, etc; e a que mantém o olho continuamente lubrificado, esta, na exposição continuada com a fumaça, pode ficar comprometida e a consequência disso é um olho vermelho, mais irritado, com ardência e sonolência mais cedo.

CONJUNTIVITE QUÍMICA

Além disso, o olho em contato com a fumaça química pode causar ainda o que os médicos chamam de conjuntivite química, que eventualmente acometem pessoas que trabalham com gazes, que em temperatura alta podem desprender e evaporar com a fumaça. “Essa irritação e ardência costuma ser passageira e controlada com o uso da lágrima artificial ou o soro fisiológico”, recomendou Mário Jorge acrescentando ainda que não se tem registros de que essa exposição tenha levado a uma cegueira ou déficit visual.

Mesmo a fumaça não ocasionando problemas mais graves a saúde dos olhos, o especialista alerta para alguns cuidados que as marisqueiras devem ter, como o uso de óculos de proteção frontal e periférica, semelhantes aos que os mergulhadores usam, que na opinião do médico poderiam minimizar o desconforto após o dia de intenso trabalho. Desconforto esse que também pode ser minimizado pelo uso do soro fisiológico ou da lágrima artificial para lavar os olhos. O médico lembra que os óculos de grau, para quem os usam, podem ser um ligeiro anteparo para a fumaça, porém, é sabido que sua proteção é apenas frontal e a lateral livre para o contato da fumaça com os olhos.

Além dos óculos de proteção, o oftalmologista recomenda ainda que no dia a dia do trabalho, as marisqueiras observem a posição do vento e procurem ficar contra ele, evitando ao máximo, o contato dos olhos com a fumaça da queima da lenha.

Projeto para trabalho decente para catadoras

Na tentativa de mudar de uma vez por todas essa realidade, um projeto intitulado “Qualificação da Cadeia Produtiva do Sururu – na Lagoa Mundaú – em Maceió”, elaborado pela ONG Visão Mundial e Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS), com apoio do Ministério Público do Trabalho (MPT) em Alagoas, representa a primeira fase de intervenção voltada para a promoção do trabalho decente das catadoras, que tem o marisco, como principal fonte de alimento e sustento da população local. O projeto também é voltado para o combate ao trabalho infantil na região – uma das mais afetadas pela exploração de crianças e adolescentes na capital.

A procuradora do MPT/AL, Virginia Ferreira, informou que atualmente são aproximadamente 800 marisqueiras trabalhando na Lagoa Mundaú, segundo consta o levantamento feito por meio do IABS, contratado pelo Município de Maceió, com o objetivo de melhorar as condições de trabalho da cadeia do sururu.

 

(Foto: Sandro Lima)

 

Segundo Virginia Ferreira, a Wolksvagem custeou um recurso na ordem de pouco mais de R$ 40 mil para trabalhar junto à marisqueiras da Lagoa Mundaú. “O primeiro passo é estruturar um local digno para manuseio do produto. O MPT conseguiu um recurso também por meio de uma Ação Civil Pública no valor de R$ 170 mil. No momento não tem como ser com as 800 marisqueiras em Maceió, mas estão sendo capacitadas 50 delas através do Projeto Manda Ver”, explicou a procuradora.

Virginia Ferreira disse também que com a estruturação do galpão, as 50 marisqueiras serão beneficiadas neste espaço com uma ergonomia adequada para uma melhor condição de trabalho e consequentemente uma maior valorização do produto, patrimônio imaterial de Alagoas.

Galpão será feito em PVC (Foto: Reprodução)

A Braskem também mergulhou na ideia e pretende fazer o galpão com o Sistema Construtivo Concreto PVC modulares preenchido com concreto e aço. Seu principal benefício é a velocidade de construção: fácil execução, simples encaixe sem que haja necessidade de equipamentos especiais.

Há ainda um incentivo à criação de uma cooperativa de marisqueiras. “A condição primitiva do manuseio do marisco dá dó”. “É muita falta de higiene elas não têm noção de nada, se for observar como elas manejam, não compramos o produto… Não existe estrutura, e o espaço adequado certamenteirá afastar os atravessadores e melhorar o trabalho delas”, ressaltou.

“A gente torce muito para que dê certo, já é uma certeza por estar sendo executado com o recurso da Wolksvagem, agora é capacitar as marisqueiras no sentido da cooperativa, bem como a respeito do conhecimento em si do produto. É um longo caminho a ser percorrido, mas que é importante já ter sido começado”, destacou Virginia Ferreira.

ONG

Júlio César Lima, assessor de Educação Financeira e Sustentabilidade da ONG Visão Mundial, informou que duas turmas de marisqueiras iniciaram a capacitação no dia 21 de novembro do ano passado, com previsão e término no fim de 2018.

 

(Foto: Sandro Lima)

 

Ele detalhou que as atividades acontecem com duas turmas com 25 catadoras em cada, sendo uma na praça da comunidade, na favela Mundaú, e na capelinha da igreja, na favela Sururu de Capote, ambas às margens da lagoa. “Elas afirmam que a salvação delas é o sururu, concordo, mas é possível fazer o trabalho de outro jeito, inclusive reduzindo o tempo de trabalho delas”, considerou o educador.

Ele explicou que o intuito da primeira fase da capacitação é aproximá-las dando empoderamento e elevando a auto-estima, além de promover a auto-gestão até maio. Conforme Júlio César, após esse período entram as aulas sobre cooperativismo e manejo do crustáceo em condição adequada, ministradas por Ana Lúcia do Instituto São Bartolomeu, que também apoia o projeto. A capacitação acontece nas segundas-feiras e sábado no turno da tarde.

Trabalho também envolve crianças

De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social, grande parte das crianças que trabalham na cata do sururu ou estão nos semáforos de trânsito pedindo esmola é oriunda da Orla Lagunar, por esta razão, o Ministério Público do Trabalho (MPT), por meio da procuradora Virginia Ferreira, iniciou uma investigação naquela comunidade e constatou a realidade.

Por meio de um acordo homologado junto à 2ª Vara do Trabalho de Maceió, no dia 2 de março último, o MPT conseguiu destinar para o projeto o total de R$ 162.135,91 – valor pago pelo município de Maceió em uma ação civil pública para coibir a exploração infantil em Maceió. Durante a audiência judicial, a procuradora do MPT Virgínia Ferreira e integrantes das instituições envolvidas apresentaram à juíza Verônica Andrade a importância de destinar os recursos.

Virgínia Ferreira, que é titular da Coordenadoria Regional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente (Coordinfância), destacou a importância da valorização do trabalho das marisqueiras e afirmou que a estruturação das famílias na região da Orla Lagunar será um grande passo para erradicar a exploração infantil na região.

“O projeto tem como foco capacitar e estruturar as marisqueiras para que elas exerçam seu labor de forma adequada e organizada. Será agregado valor ao sururu e, ao mesmo tempo, com a melhoria da condição de vida das famílias, suas crianças ficarão longe do trabalho infantil”, disse Virgínia.

O projeto ainda contará com oficinas de capacitação, seções educativas com crianças e adolescentes no contra turno escolar, consultoria para o correto processamento do sururu e aproveitamento dos resíduos, além de seminários de encerramento e entrega da condução do processo para a comunidade beneficiada. Uma campanha publicitária também será criada para estimular o consumo do molusco.

Visita de membros da Braskem e MPT para conhecer espaço que vai dá lugar a galpão (Foto: Assessoria)

LIBERAÇÃO DE RECURSOS

Conforme o acordo judicial firmado, os valores serão liberados trimestralmente, a partir do início deste mês até dezembro deste ano, para o custeio de serviços de execução do projeto e formação de capacitação das marisqueiras. As parcelas serão liberadas em nome da Visão Mundial e a prestação de contas deverá ser feita ao Ministério Público do Trabalho, ao final de cada trimestre.

A previsão é que a construção do novo espaço físico para o projeto seja iniciado pela ONG Visão Mundial e parceiros até o primeiro semestre deste ano. A ação também tem a parceria do Instituto São Bartolomeu.

Publicação: 25/03/2018