rivisonbatista

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1 de novembro de 2017

Ensaio sobre a superficialidade humana (ou 'O despertar da ilusão')

Era uma tarde amena, sem muitas nuvens e com o sol já se encaminhando para o oeste. Por volta das 16 horas, uma brisa leve tocou o rosto de Isabel, que olhava aquele campo esverdeado atentamente. A adolescente era a única presença humana em um raio de uns cem metros. Era só ela, alguns pássaros e a vegetação local. Pensava na mãe doente, porém feliz, tentando aproveitar os últimos dias de vida com dignidade naquela fazenda. Uma lágrima escorria pelo rosto da garota ao saber que logo ficaria solitária no mundo. A falta de irmãos, antes do câncer da mãe, era algo que a divertia. Tinha a casa toda para ela. Tinha todos os abraços maternos para ela. Agora, o que teria? A ausência de laços sanguíneos significava a condenação ao isolamento, já que também não tinha tios. Isabel observava o sol se pôr quando um clarão que surgiu ao leste chamou a atenção da moça. “Não pode ser um raio de sol”, pensou. A luz estranha apareceu por dentro de uma espessa nuvem.

Longe da fazenda onde estava a garota, no centro da cidade, o pedreiro Sebastião e centenas de pessoas estão com os olhos voltados ao céu. Todos observavam, com rostos incrédulos, uma pirâmide descer lentamente por entre as nuvens. “Tem o tamanho de dez campos de futebol”, pensava o pedreiro, boquiaberto. O objeto interrompeu a descida e parou em pleno ar a uma altura um pouco maior do que a do prédio mais alto. Sebastião, homem religioso desde criança, ajoelhou-se na calçada e orou para todos ouvirem, enquanto olhava para o objeto descomunal. Uma voz adentrou na cabeça do homem e ele sentiu a presença de deus, mas talvez não o dele. “Homem de muita fé ou homem de fé cega? Mataria por seu deus? Perderia a própria vida por seu deus? E se eu lhe disser que sou teu deus? Assim como sou o deus dos islâmicos, dos budistas e de todos os outros. Sou todos num só. Um para todas as crenças. Já posso ver seu rosto cheio de interrogações. Levanta-se, homem de fé fantasiosa. Levanta-se, pois tu mesmo és superior, embora iludido. Todo ser consciente é superior. Tua espécie está contaminada pela cobiça e só vê aqueles que estão rodeados pelo ouro. Levanta-se e não se ajoelhe diante dos vampiros da cobiça, pois eles só sugam o pouco que você tem. Não pague para ser abençoado nunca mais”. A voz silenciou na cabeça de Sebastião e na cabeça de tantos outros que se ajoelharam e receberam mensagens diferentes. Um ano depois, Sebastião parou de dar metade do seu salário à igreja que frequentava. Ele não deixou a fé de lado, mas soube reconhecer falsos profetas.

Um pouco antes de a pirâmide descer, naquele pôr do sol de setembro, uma jovem, a alguns quilômetros de distância de Sebastião, maquiava-se detalhadamente. Era perfeccionista e queria que seus milhares de seguidores no Instagram admirassem sua beleza (pois a beleza vale mais do que palavras na era da imagem). Quando posou para a selfie ao lado da janela, naquele apartamento no décimo andar, a intenção da moça era ter como visual o céu crepuscular e os altos prédios à frente. Já tinha em mente a legenda que colocaria na foto: um versículo bíblico, que ilustraria uma pose sensual. Mas o que viu na tela do smartphone quando mirou a câmera no rosto foi algo bem inesperado. Virou-se para a paisagem de prédios e viu aquele monumento flutuando por cima dos edifícios. Surpresa, colocou a mão na boca e esboçou um grito (que não saiu). “Como pode não cair?”, pensava ao olhar a coisa com atenção. No rosto tenso, a maquiagem desfazia-se aos poucos. Começou a ouvir muitas vozes vindo do nada e uma foi ficando mais alta. “Vocês atingiram o ápice da tecnologia e o que fazem é compartilhar momentos vazios. Compartilham para milhões a própria face ou o próprio corpo. São hipócritas o bastante para chamarem a si mesmos de influenciadores. Humana fútil. O que influencias a não ser essa histeria coletiva da tua espécie para valorizar essa casca que envelhece e morre? O que influencias senão a morte do debate crítico e o crescimento dessa vitrine tecnológica de sorrisos forçados? E o que falar sobre os que se deixam influenciar pela superficialidade? Por que não compartilham sabedoria? Uns são munidos de fé enganadora, outros, de vaidades sem limites”. E a voz silenciou. Um ano depois, Natália, a jovem ‘influenciadora’, fazia vídeos dissertando sobre os mais variados assuntos, de literatura à biologia. Ela ficou mais bonita sem maquiagem e com mais conhecimento.

Naquele fatídico fim de tarde de setembro em que a pirâmide gigante rasgou os céus e pegou o mundo de surpresa, Isabel pensava sobre a morte e o desapego. Como perder quem se ama? Como desapegar da presença física? Como lidar com o fato de ser só? Da nuvem espessa, descia, devagar, a pirâmide, clareando parte do campo em que se encontrava Isabel e que já estava quase escuro. Muitas coisas passam pela cabeça de uma jovem em um momento desses: “Deus veio curar Aura, minha mãe? Ouviu minhas preces? Vou ser abduzida?”. Totalmente paralisada, indecisa se o objeto era divino ou não, apenas o acompanhando com olhos fixos, a menina pensou em correr, mas não tinha mais controle sobre o corpo. Estava em estado de choque e imaginava que podia ser sonho ou delírio. Um largo feixe de luz vindo do objeto envolveu a jovem. Ela sentiu paz e não estava mais assustada. De repente, sentia uma mistura de desespero e alegria. “Deus, é você?”, gritou para o céu. O objeto emitia um zumbido cada vez mais alto, como o barulho de um ar-condicionado, e a jovem deu-se conta que não era divino. Talvez aquilo fosse uma máquina. E o zumbido foi transformando-se em vozes que falaram ao mesmo tempo dentro da cabeça da jovem: “Não interfiro no livre arbítrio. Dessa mesma maneira, também não posso curar Aura, tua mãe. Mas posso garantir que a consciência dos seres não acaba após a morte do corpo. Tua espécie ainda é muito nova e não sabe de tudo. Acha que sabe. Fazem guerras para sustentar essa cobiça que sentem. Destroem para garantir territórios, e depois, no leito de morte, o homem mais poderoso se dá conta de que o próprio corpo virará território para vermes. Não fique triste por causa de sua mãe, ela não deixará você, embora esteja deixando o corpo que a sustentou. Celebre, pois terás a eternidade ao lado de quem você ama”. Depois disso, o objeto desapareceu e restou o vento sacudindo a vegetação.

Juventude

Após 70 anos, Isabel está respirando com ajuda de aparelhos em um hospital. Netos revezam-se dia e noite para ficar com ela. Os familiares recordam que o episódio da pirâmide dividiu a humanidade há 70 anos. Nenhum radar e nenhum satélite detectou o objeto, então muitos cientistas falaram sobre uma ‘misteriosa histeria coletiva’ que contagiou o mundo. “Todos viram, mas não é algo palpável. Pode ter sido algo apenas fruto da nossa imaginação. É preciso fé para acreditar no que foi visto. Seria como provar a existência da alma”, declarava um cientista após o grande evento sobrenatural. A memória falha da idosa vai à juventude, no momento em que a mãe partiu. Sentiu solidão ao olhar a casa vazia. Envelheceu e a vida continuou com olhares, beijos e gravidez. Teve esperança. Agora, respira devagar e ofegante. Em determinado momento, o aparelho hospitalar sinaliza que as funções vitais sumiram. Então ela se levanta da cama. Ela olha para o próprio corpo na porta do quarto e parte numa corrida pelo corredor do hospital. Sente os cabelos da juventude baterem nos ombros de novo, em contraste com os cabelos ralos e brancos do corpo que deixou. Ao chegar na rua, olha para o céu e vê as estrelas de perto. De repente, olha para baixo e agora vê a Terra se distanciando. Está no espaço. Perto do sol, surge a velha pirâmide, indo ao seu encontro. “Bem-vinda de volta”, disse o objeto.

 

*Rívison Batista é jornalista (obs.: os personagens citados no texto são totalmente ficcionais)

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