Gerônimo Vicente

4 de janeiro de 2018

Em 2018 as datas redondas dos tempos sombrios estão de volta

Percebi isso ao revirar,nos dias que antecederam ao final de 2017, meus armários de livros, recortes, revistas e outras publicações com o objetivo de  doar ou mandar para a lixeira,  coisas que já não me interessavam.Eram documentos, catálogos, manuais e periódicos com mais de 30 anos de armazenamento. Poucos deles conservados devido a batalha contra o tempo. Para minha surpresa, fatos que eu já não lembrava, dos quais participei efetivamente, ressurgiram como, por exemplo,o reencontro com uma placa recebida do  Governo do Estado e das federações esportivas pelo incentivo ao esporte amador em parceria com o colega jornalista Francisco José no Jornal de Alagoas, uma aposta do jornal que deu certo por cinco anos.

Entretanto o “bota-fora” pessoal de final do ano ficou marcado como  uma análise,  sobre o quanto o tempo de hoje se assemelha  com o passado. As notícias parecem ser repetidas, os personagens de três ou quatro décadas ressuscitaram (Sarney, Collor, Roberto Jefferson, Temer e tanto outros). Memoráveis publicações guardadas comigo, levou-me a uns tempos sombrios, de uma sociedade retraída, tal qual estamos vivemos atualmente. Nesta viagem ao tempo,  notei uma abrupta mudança de  comportamento dos tradicionais veículos impressos do país no que tange ao conteúdo informativo ao se associar a um projeto que desmonta o Estado e estimula  a profundeza do  fosso social entre entre a riqueza e a miséria.

O fato é que 2018 será um ano de datas redondas para momentos que  simbolizam períodos mais cruéis já enfrentado pela população brasileira, especialmente, para aqueles que lutaram pelo resgate do processo democrático no país. Entre eles estão:

50 anos do AI-5

Decreto do Regime Militar que fechou o Congresso e estabeleceu a tortura, censura e desaparecimento de presos políticos completa 50 anos em outubro

Faz sentido desconfiar de 2018, ao perceber que fatos escabrosos completarão datas redondas neste ano, como, por exemplo,  o Decreto do Ato Institucional nº 5,  baixado pela Ditadura Militar no dia 14 de dezembro de 1968 e que resultou em um regime de exceção  que promoveu o fechamento do Congresso Nacional e os casos de torturas. Encomendou assassinatos e desaparecimentos de milhares de  políticos e de  opositores ao regime militar. No final deste ano, esse massacre sócio-político que durou dez anos fará 50 anos de triste lembrança. O AI-5, como era chamado, acabou em 31 de dezembro de 1978, ou seja  fará 40 anos. Ao contrário do que apregoa hoje,  os veículos de comunicação componentes da grande mídia, todos se ajoelharam a decisão do regime militar.

Regime Militar acaba com o AI-5 no reveillon de 31 de dezembro de 1978

30 anos da Constituição de 1988

Comemoração da promulgação da Constituição em 1988, hoje remexida até com proposta sobre rinhas de galo.

Celebrada como a Carta Magna mais importante da história do país, a  Constituição promulgada  pelo Congresso Nacional em 5 de outubro de 1988 fará 30 anos neste ano mas já coleciona mais de 100 emendas. Revirar a qualquer momento nossa lei maior já virou  lazer para presidentes, parlamentares, magistrados e lobistas representantes  das carreiras de Estado. Da reforma trabalhista, passando pela da previdência até  a legalização de rinhas de briga de galo tiveram seus parágrafos, artigos e alíneas remexidas.

50 anos da invasão militar ao Congresso da UNE –

Milhares de estudantes são presos no Congresso da UNE, em Ibiúna-SP.Fato completará 50 anos em outubro.

 Em 13 de outubro de 1968, o governador de São Paulo Roberto Abreu Sodré manda a Polícia de Sorocaba e o Dpos (Departamento de Polícia e Ordem Social) invadir o Congresso da UNE que  ocorria, de forma clandestina, em Ibiúna, interior de São Pedro. Entre os presos,  o então estudante e hoje ex-ministro do governo Lula, José Dirceu, então presidente da União Estadual dos Estudantes,Luís Travassos, presidente da UNE, e Vladimir Ribas, presidente da União Paulista de Estudantes Secundários.

Veja e Isto é

Revista Isto É, bem diferente do comportamento de hoje exaltava Lula como liderança dos trabalhadores.

E o que dizer, da revista Veja destacando Lula e o PT na capa?

Descobri ainda o quanto mudou o comportamento editorial da chamada mais importante revista semanal do país: a Veja que, se não era dócil com o então líder do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Ignácio da Silva, também não destilava veneno mortal  contra o petista como na atualidade. Por exemplo, no Natal de 1988, a capa da revista trouxe uma foto de Lula e o título  O PT Cresce e Agita ao se referir à organização do partido nos preparativos para disputar as eleições presidenciais de 1989. Dez anos antes, 1978,  o periódico dos Civita  trazia na capa o título  à  Volta das Esquerdas numa referência ao crescimento da oposição no Congresso Nacional, mesmo com o Colégio Eleitoral elegendo o general João Batista Figueiredo à Presidência da República.

Em 1974, a Veja saudava a volta das esquerda ao parlamento, apesar de a ditadura militar ocupar o poder.

A concorrente da revista da Editora Abril, a Isto É nem de longe se compara  ao panfleto representante da ala reacionária e conservadora que se mostra na atualidade. Tanto que em 1º de fevereiro de 1978, a revista  estampa e antecipa a  liderança de Lula junto aos  metalúrgicos. Editada por Mino Carta faz aliança com os movimentos sociais para ganhar a credibilidade e visibilidade conquistada até  se  render  aos setores mercantilistas do país. Essa mesma revista trouxe reportagem, em 1978 denominada  Dossiê da Repressão, atribuindo aos militares a mortes de  dezenas de militantes de esquerda no país.

E para finalizar se há uma semelhança com a realidade atual quando se discute direitos trabalhistas hoje e há  40 anos é uma reportagem publicada em uma coletânea chamada Retrato do Brasil, editada também por Mino Carta e que aponta que  meio século depois de conquistar as oito horas de trabalho, os brasileiros ainda não dispunha de tempo para o lazer nem tinha uma vida social saudável, tal qual como hoje, depois que todos os direitos foram retirados pelos artífices  do golpe de 2016.

Reportagem da coletanea Retrato do Brasil sobre direitos trabalhistas que coincide com a realidade de hoje.

O que se conclui é que  voltamos aos tempos das trevas, basta ver o personagem que comanda o país e a uma fase hostil  que chegou a me assombrar apenas  na leitura dos livros  e no “ouvi dizer”, mas  parece que o vem mais a frente, desta vez é  “à vera”, expressão que significava no passado, “está valendo”.

 

19 de dezembro de 2017

A violência política que nos envergonha a cada dia

Quando o jornal O Globo completou 80 anos, em 2015, lançou seu acervo digital que contém grande parte das edições produzidas pelos jornalistas do periódico fundado por Irineu Marinho, em 1925 e que foram disponibilizadas no sistema Issu, aquele em que o leitor pode folhear de modo eletrônico, jornais, livros ou revistas. Como bom, apreciador […]

8 de dezembro de 2017

O “marketing forçado” que mascarou a origem do tráfico de drogas em Alagoas

Dois fatos policiais chamaram-me, nesta  semana, atenção para perceber o quanto o mundo do crime ganhou espaço em Alagoas nos últimos vinte anos, a ponto de dominar desde os becos das comunidades mais pobres aos mais luxuosos condomínios. Na quarta-feira, um vídeo postado nas redes sociais mostrou a execução de um homem por uma suposta […]

6 de agosto de 2017

A classe média e o legado deprimente das “Micaretas Verde-Amarelas”

O Brasil é, efetivamente, o país onde tudo vira moda e se transforma em samba, carnaval, folclore ou corrupção. As manifestações ocorridas país afora em 2015 e 2016 são as mais evidentes provas. Eram atos públicos que mais pareciam micaretas (aqueles carnavais fora de época) que ocorrem nas principais cidades e que são puxados por […]

11 de julho de 2017

O dia em que Freitas Neto se despediu de mim

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25 de junho de 2017

Morte de PC: a maioridade de uma cobertura jornalística envolvente

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15 de junho de 2017

A falta de prevenção e o uso indevido da tragédia das enchentes

  Depois de um período envolvido em projetos profissionais, volto a postar neste espaço e o assunto em foco vem de um fato que convivi em boa parte da vida; enchentes em Maceió e na região metropolitana, que foram embora, mas os problemas que elas causaram à população, bem como o uso criminoso e eleitoreiro […]

29 de abril de 2017

Seriedade na informação? A gente vê na imprensa estrangeira

Quer obter uma informação isenta e  séria  sobre política e economia no Brasil? Vá a um site da imprensa internacional. A afirmação não  é exagero de minha parte e  foi confirmada durante a cobertura da greve geral desta sexta-feira (28), bem diferente do comportamento da grande mídia brasileira  que resumiu  a grande mobilização  popular e […]

15 de abril de 2017

A encenação do cinismo

 Causa-me espanto, o espanto demonstrado por jornalistas políticos quanto à revelação pelo Supremo Tribunal Federal do festival de propinas, envolvendo até então desbravadores da ética e da limpeza na política como pregaram nas ruas os partidos opositores do governo de Dilma Rousseff, como PSDB, DEM, Solidariedade, PPS e outros, cujos correlegionários orgulhavam-se de vestir a […]