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Blog | Rívison Batista

18/04/2017 04:15

Clichê

Era madrugada. Pelo menos, naquele sonho, era madrugada. Um silêncio doce brincava pela sala e o convidou a abrir a janela para ver as estrelas. Ele devia estar sozinho em casa. Ao abri-la, viu a rua deserta e sentiu a brisa fria que só aquela hora do dia podia proporcionar. Ao olhar para cima, viu mais do que estrelas. Parecia loucura, mas uma "minigaláxia" pairava sobre a cabeça dele. Quando a tocou, era como uma "fumaça sólida", com tons de vermelho e roxo. A lua brilhava cheia no céu e a humanidade parecia não existir, tamanha era a paz. Um carro buzinou lá fora e o acordou. Jamais esqueceu do sonho. Teria sido um contato com outra realidade? Teria sido um contato com Deus? Ele tinha uns 12 anos e já se passaram 20 desde então, mas até hoje é capaz de sentir aquela paz de espírito. No sonho, ele não sabia que casa era aquela, não observou muito bem a sala para saber ao certo se era a casa em que morava. Talvez não fosse. 

Talvez isso pouco importasse. A "arquitetura onírica" talvez não fosse a mensagem. O que aquilo queria 'dizer' talvez tenha sido apenas um: "Relaxe. Saiba que existe algo muito além de toda a confusão da sua realidade que pode oferecer a você uma verdadeira paz. Um lugar onde as preocupações não existem. Agora, viva sua vida até voltar aqui de novo". Teria sido um discurso e tanto. Ele teria pensado: "Caramba, aquela minigaláxia sabe falar bonito". Naquela época, uma senhora simpática e sorridente tinha uns 70 anos. Com seus passinhos cuidadosos, andava pela casa inteira. Dificilmente saía à rua, mas a residência dela tinha duas áreas grandes a céu aberto na frente e atrás. Era possível ver toda a vizinhança de dentro da modesta casa. A senhora então não se sentia solitária. Debruçava-se sobre a janela da frente e acenava para os vizinhos. Muitas vezes, os chamava para conversar naquela área. O menino tinha 11 ou 12 anos, e a principal preocupação da senhorinha era o manter saudável. 'Vá beber água agora', dizia, enquanto ele ficava aborrecido por aquele momento atrapalhar o desenho animado que  assistia. É complicado ser criança ou muito jovem, porque parece que nessa idade não temos noção do quão ligeiro é o tempo e o quanto devemos apreciar o presente. Um verdadeiro presente que muita gente não reconhece o valor. Para o ser humano, foi dada a capacidade de raciocinar, e fazemos tudo: cálculos, ciência, casas, navios, carros e espaçonaves. nos esquecemos de nós mesmos e o pior, nos esquecemos, inúmeras vezes, daqueles que zelam por nossa saúde. Da mãe, do pai, da avó, do avô. Viramos máquinas tão vidradas nos dias úteis, no lucro do trabalho, no imposto de renda, que não nos damos conta de que o tempo está passando e, a cada minuto, leva um pouco dessas pessoas embora. E os leva arrancando pedaços importantes da memória e pintando os cabelos de branco. 

Aquela senhorinha era de uma vaidade impecável. Maquiagem, batom, perfumes. Acordava às cinco ou seis e já ia ao espelho. Mesmo que fosse para passar o dia todo na cadeira de balanço. Encostava a cabeça e se balançava devagarzinho, no quintal da casa, olhando para as plantas e para o céu. O sol sempre descia no meio das árvores de casas vizinhas. Eram muitas árvores em todo quarteirão e, para uma criança, tudo é maior do que aparenta ser, então cada pôr-do-sol era algo mítico. E lá estava ela, no balanço do tempo, muitas vezes olhando aquele menino chutar uma bola sozinho no quintal. 'Entre e vá tomar banho agora', gritava, e ele, claro, ficava extremamente aborrecido por não continuar o seu futebol solitário. Chutava a bola contra a parede, mas aprendeu uma verdade universal: da mesma forma que a bola, tudo retorna. É clichê, mas é verdade. A bola batia na parede e voltava. Da mesma forma, o mal que alguém fez ou o bem que deixou de fazer também retornam, nem que seja da maneira mais branda: o arrependimento. O ser humano tem a capacidade de falar também e, muitas vezes, não percebemos o quão poderosas são as palavras ou a falta delas. Aquele 'gosto de você' que deixou de ser dito se perdeu no limbo e voltará como fantasma no futuro (por mais clichê que seja). É como se a frase tomasse vida e dissesse: 'Aqui estou eu, uma assombração da sua falta de coragem'. É necessário coragem para expressar sentimentos e, muitas vezes, não a temos. A capacidade de falar do ser humano não serve para nada se ele não consegue dar voz ao que quer. 

Duas décadas se passaram e aquela casa modesta hoje é habitada por estranhos. O menino cresceu e não tem mais tempo de jogar a bola contra a parede. Aquela senhora ainda vive com ele e, hoje, mora em cima de uma cama. O dia, para ela, passa através de uma janela pouco iluminada enquanto pessoas cuidam da sua higiene. Ela está meio confusa, mas ainda reconhece o garoto crescido. Já não o manda mais beber água ou tomar banho. E, todo dia, ele presencia a urgência do tempo ao olhar para a cena. Já dizia o poeta, 'temos nosso próprio tempo'. O menino crescido se dá conta de que a capacidade de raciocínio e fala da avó está indo embora, enquanto ele está no trabalho. Ele também se dá conta de que foi enganado pela calmaria que era o mar da sua vida. Se a pessoa não parar para apreciar a praia nos momentos certos, a correnteza, muito devagar, vai levando embora tudo o que importa e, quando você procurar, só vai ver um monte de água e a linha do horizonte. Aí, você começa a torcer para o paraíso existir. 

Aquela minigaláxia pode ter aparecido em sonho para mostrar o próximo destino de todos, o caminho da alma, e ter, enfim, o reencontro com todos que a maré levou e valorizá-los ao máximo dessa vez. Seria sensacional se tivéssemos tamanha sorte. Mas a galáxia se mostrou pequena para o garoto ver o quanto isso está distante e o quanto é grandioso, comparado a ela, o momento presente. Ele chegou do trabalho, acendeu a luz do quarto, sentou a avó na cama, colocou um copo d'água na boca da senhorinha, deu um beijo na testa dela e começou a falar sobre o dia, embora ela não entendesse mais nada. Era madrugada.

 

*Rívison Batista é jornalista

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