A encenação do cinismo - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Gerônimo Vicente

15/04/2017 09:21

A encenação do cinismo

 Causa-me espanto, o espanto demonstrado por jornalistas políticos quanto à revelação pelo Supremo Tribunal Federal do festival de propinas, envolvendo até então desbravadores da ética e da limpeza na política como pregaram nas ruas os partidos opositores do governo de Dilma Rousseff, como PSDB, DEM, Solidariedade, PPS e outros, cujos correlegionários orgulhavam-se de vestir a camisa da carcomida CBF para apresentar todo seu patriotismo. Ora, ora, ora!, como diz, vez por outra, o ministro Gilmar Mendes, para que serve o secular loteamento de cargos pelos partidos, a não ser, na maioria dos casos, para abastecer a corrupção? Aliás, se existe um fator cancerígeno na administração pública é a chamada função de confiança, inventada para abrigar aliados de ilicitudes, com raríssimas e honrosas exceções.

A encenação apresentada por “medalhões” do jornalismo brasileiro que até poucos meses defendiam, com unhas e dentes, o aviltador mercado econômico brasileiro já não forma opinião nem sob o mais incauto eleitor que, por sua vez, já conhece e convive, por longas datas, com algum esquema de corrupção perto de sua casa, nas câmaras de vereadores ou nas mais de cinco mil prefeituras espalhadas pelo país. Portanto, o que a grande mídia tenta repassar aos leitores, telespectadores, ouvintes e internautas não passa de maus feitos políticos, praticados há anos, inclusive, com a conivência dos barões que comandam a imprensa nacional em suas relações com o poder.

Talvez o fato mais interessante nesta história seja a descoberta da forma de funcionamento da estrutura financeira e econômica de nosso país. Bancos estatais e privados, empreiteiras, indústrias, empresas públicas têm suas travessuras mostradas em rede nacional de um país com 20% de pobreza e, em algumas regiões como a Norte e Nordeste, esse índice atingindo a quase 90% da população, segundo, dados de 2015 do Centro Internacional para o Crescimento Inclusivo, vinculado ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Esse conto de que vivemos a maior corrupção da história do país não passa de desvios de atenção. O fato é que, uma simples operação como a Lava Jato entrou em um beco sem saída, atingiu alvos políticos, involuntariamente, provocou o fim da confiança e falência nas instituições públicas que já agonizavam por mau servidão, provocou desemprego em massa ao prender empresários e políticos considerados intocáveis e a solução encontrada foi a de que, por enquanto, todo político é um Ali Babá.

A empolgação que a imprensa tenta-se repassar aos brasileiros atingidos diretamente pelo esquema de corrupção será um importante instrumento, apenas para julgamento dos envolvidos nas urnas em 2018, porém pode esperar sentado porque até a metade deste século será difícil ver todos os criminosos na cadeia.

O que se desvenda hoje são fatos gerados desde que o Brasil é República, logicamente com mais sofisticação e mais volumosas e incontáveis somas de dinheiro. Na década de 1930, por exemplo, o papel que hoje é da Petrobras, como fonte de corrupção, era ocupado pelos cassinos e seus jogos que arrebatavam fortunas e o tão chamado, atualmente de Caixa 2 era exercido, na maioria das ocasiões pelas primeiras-damas sob o argumento de realizar shows musicais e rodadas de jogos em benefício da construção de albergues, asilos e outras obras assistenciais. Uma boa ação que resultava sempre em sobra de caixa e era aí, onde imperava o corruptor e os corruptos. Recomendo o leitor a enveredar pelos caminhos bibliográficos da corrupção no Brasil dos anos de 1940 a 2010 (aqui está um bom link) e chegaremos a conclusão de que não estamos lidando com algo novo e não ser a espetacularização de alguns profissionais de imprensa como representantes do poder econômico, o mesmo está mergulhado no megaescândalo.

No entanto, o momento não deixa de ser uma oportunidade única para repensar o voto e não mudar somente os políticos, mas os nossos hábitos.

 

Facebook