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Blog | Ailton Villanova

Doutor Clodolfo Machado foi um engenheiro interiorano dos mais habilidosos e criativos. Trabalhador incansável, bom pai de família, um dia passou a ter um motivo de grande preocupação: o namoro da filha caçula Rita de Cássia com um certo Francisco José, cuja fama era a de malandrão, que vivia às custas da mãe viúva. Aí, deu um jeito de policiar Ritinha sem ter que sentar dona Anfrísia, a genitora, no meio dos dois: inventou uma espécie de periscópio, instalou-o numa área estratégica da varanda de casa, de modo que, do lado de dentro, pudesse controlar o andamento do namoro dos dois.

       A geringonça era incrível! Se o rapaz pegasse na mão da moça, uma luz verde acendia no painel instalado num canto discreto da sala. Se  pegasse no braço, luz azul, e assim por diante: cada pegada correspondia a uma cor, além das já citadas - a vermelha, a violenta, a amarela, a lilás, a roxa, etc.

       Uma noite de sábado, doutor Clodolfo preparou-se para inaugurar o periscópio e ficou aguardando a hora do início da chamegância dos dois. Não demorou muito, eis que pintou na área o garboso Francisco José todo penteado e perfumado, ansioso para cair nos braços da jovem amada. Minutos depois, o casal, bastante animado, sentou lá fora, como sempre fazia, e começou a prosear. Mais que depressa, doutor Clodolfo pôs a geringonça para funcionar e chamou dona Anfrísia para ficar controlando a referida, depois de ensinar como manuseá-la:

        - Olha, Frisinha, eu vou ficar no quarto descansando um pouco, e você irá me informando as cores que forem aparecendo no painel, tá certo?

        - Pode ir descansar sossegado, meu velho! – disse a mulher, toda contente, por assumir tamanha responsabilidade.

        Os jovens começaram efetivamente a trocar carícias, beijinhos, etc.. Daí a pouco, a mãe da donzela falou de pro marido:

        - Tá verde, Clodolfo!

        - Verde pode! – respondeu ele.

        Instantes depois:

      - Tá azul, Clodolfo!

      - Azul? Bom... até azul pode ir.

      Mas, logo se fez silêncio, e a mulher não falou mais nada. Doutor Clodolfo ficou intrigado e berrou lá do quarto:

       - Como é, mulher, você não fala nada?

       - Ah, meu velho, é que estou encantada! Vem ver que beleza de arco-íris!

 

Canário fujão        

      O nome dele era João Felizardo Ferreira, mas era conhecido como Joca. Como media os seus quase dois metros de tamanho, passaram a chamá-lo, mais tarde, de Jocão. E Jocão virou figura folclórica em Maceió, por causa das incríveis mentiras que contava. Jocão gostava de vestir ternos folgadões, sempre de linho branco. Sua cabeleira grisalha era rala.

      Jocão era assíduo frequentador do Ponto Central, proriedade do venerável maçom Cupertino, localizado no centro comercial de Maceió, que servia o melhor cafezinho da cidade e onde também se reuniam figuras ilustres dos nossos meios político, artístico e cultural. Certa tarde, ele baixou lá meio cabreiro e ficou quietinho num canto, sem dizer palavra alguma. O detalhe chamou a atenção do tabelião Elói Paurílio, que alí se achava para tomar o seu cafezinho de sempre.

      - Que é que há, Jocão? Está triste por quê? – perguntou Paurílio. – Conta uma das suas, para alegrar o ambiente!

      - Agora não posso, Elói. Estou aqui pensando, sabe? – respondeu ele.

     - Pensando em que, rapaz?

     - Tô pensando onde anda o meu canário de estimação a estas horas...

     - E pra onde ele foi?

     - Fugiu hoje de manhã com a canária do meu vizinho.

 

Impacientou-se, o Paciência!

      Aderlindo Tenório sempre foi um sujeito tranquilo. Tão tranquilo, que lhe deram o apelido de “Lindô Paciência”.

      Mas, um dia, a paciência do Lindô foi pro  espaço e ele perdeu as estribeiras. Foi numa lanchonete, no centro da cidade.

      Morto de fome, Lindô Paciência saiu do trabalho, numa loja de tecidos, correu para a lanchonete mais próxima, aproximou-se do balcão e chamou a jovem que ali atendia:

       - Moça...

       - Um minutinho! – respondeu ela.

       Do lado, um sujeito falou:

       - Já viu, né?

       - O quê? – estranhou Lindô.

       - Ela não disse “um minutinho”? Quer dizer que vai demorar pra cacete! O amigo sabe como são essas coisas...

       - É, sei.

       Passou-se  o “minutinho” e Paciência atacou de novo:

       - Moça...

       - Dois segundinhos, só!

       - Tá vendo? Eu não falei?! – era o mesmo cara.

       - Foi, falou!

       - Dessa vez ela disse “dois segundinhos”. Sabe o que isso significa?

       - Não.

       - Duas horas, meu! Duas!

       - Ta. Eu espero.

       - Vai esperar esse tempo todo? Pelamordedeus!

       - Que jeito, né?

       - Ora, bicho, tanta lanchonete por aí... Quer saber? Essa mocinha aí é muito metida a cocô de louro! Apele para os seus direitos, cara!

        - Que direitos?

        - Os direitos dos fregueses. Não tem os direitos humanos?

        - Tem.

        - Também tem os direitos dos fregueses.

        Lindô insistiu:

        - Moça...

      - Um momentinho, tá?

      E o cara do lado:

      - Viu? Viu? Ou ela não topou com a sua cara, ou tá de gozação.

      Nesse momento, a barriga do Paciência soltou o maior ronco, protestando contra a fome, e ele tentou mais uma vez:

       - Mocinha...

       Aí, ela foi cruel:

       - Mas que impertinência! Eu não mandei esperar? Espere, pô!

       Foi nesse ponto que Lindô perdeu a paciência. Num movimento único, ele pulou o balcão caiu do lado de dentro e, ato contínuo, segurou a balconista pelo gogó, berrando na cara dela:

        - Olhe aqui, sua filha da puta! Eu quero um hambúrguer e um suco de maracujá! Vai me atender ou não vai?

        A balconista cerrou os olhos, suspirou profundamente, e caiu nos braços do Paciência, murmurando:

        - Grita! Grita mais, me bate e me come, meu brutamontes! Eu sou o seu hambúrguer. Me come todinha, vai!

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