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Blog | Gerônimo Vicente

Djalma Falcão, então deputado federal Djalma Falcão, então deputado federal

 

Djalma Falcão: a cada entrevista uma polêmica política

 

Eu o encontrei pela última vez em dezembro em um restaurante onde almoço sempre, no bairro da Jatiúca. Estava mais magro que o habitual e demorei a reconhecê-lo. Uma parte de seu corpo me deu a dica de identificação: a cabeça oval. Era o ex-prefeito, ex-deputado federal e um dos últimos bons oradores da política alagoana Djalma Falcão que sempre, das vezes que o entrevistei como repórter político saía com dados que se transformavam em polêmica no dia seguinte, tamanha era a língua ferina e a metralhadora giratória de Falcão, uma herança deixada pelo irmão e líder popular dos anos de 1950, o governador Muniz Falcão.

Uma dessas polêmicas ocorreu no início da campanha eleitoral de 1990 para governador do Estado, deputados estaduais e federais.  Eu era editor de Política do Jornal de Alagoas e resolvi marcar uma entrevista com Djalma para saber sua opinião sobre duas candidaturas ao governo de Alagoas que eram as dos então deputados federais Renan Calheiros (PRN) e Geraldo Bulhões (PSC). Como detalhe pretendia explorar o fato de ambos os candidatos serem vinculados ao presidente Fernando Collor de Mello, principalmente Calheiros que na ocasião procurou se espelhar no vitorioso desempenho “colorido” para se tornar chefe do Executivo alagoano. Na coligação de Bulhões aparecia o PMDB, partido controlado pela família Falcão desde quando era chamado de MDB durante o regime militar. Isso representava mais tempo de TV para o adversário de Calheiros.

Só que quem resolveu juntar o PMDB ao candidato do PSC esqueceu-se de avisar o presidente da legenda que era Djalma Falcão. Ao ser perguntado sobre o caso, Falcão se levantou, subitamente, da cadeira da sala de seu apartamento, na Pajuçara e disse que não havia autorizado a ninguém a fechar com Geraldo Bulhões ou com qualquer candidatura apoiada por Collor.

A informação publicada no dia seguinte ganhou repercussão nos meios políticos e agitou os correligionários de ambas as candidaturas. A coligação de Bulhões soube da decisão de Djalma Falcão, através de minha reportagem e teve que se desdobrar para apagar o incêndio e evitar a debandada de peemedebistas para o outro lado. Coube ao candidato a vice- governador Francisco Mello (ex-PMDB) acalmar os ânimos.

Diante da estrutura montada por Calheiros durante a campanha eleitoral incluindo showmícios com bandas baianas, acompanhamento das atrizes Cláudia Raia e Isis de Oliveira e programas de televisão com efeitos gráficos e sonoros, uma suposta vitória da candidatura de Bulhões passou a ser considerada uma “zebra eleitoral”.  

A semelhança da campanha de Renan com a de Collor para presidente em 1989 fez com que eleitores insatisfeitos com o então presidente da República, principalmente servidores públicos estaduais, imaginassem ser Bulhões, um candidato de oposição. Juntando esse fato às alianças coronelistas no sertão alagoano, o candidato do PSC conseguiu desmanchar o estrago feito por Djalma Falcão e venceu o pleito eleitoral marcado por fraudes, como compra de votos de eleitores e até dos mesários das juntas eleitorais, fazendo surgir um personagem até então desconhecido dos alagoanos que era Paulo César Farias.

Outra entrevista polêmica de Falcão ocorreu 1995 no Gabinete Civil do Governo do Estado. O ex-prefeito de Maceió conseguiu fazer as pazes políticas com um arqui-inimigo que era Divaldo Suruagy, levando-o a se filiar ao PMDB para ser o candidato a governador em 1994. Ao assumir o cargo de secretário, Djalma disse em entrevista ter percebido o desaparecimento de peças do Palácio Floriano Peixoto, como troféus, pinturas, castiçais e outros acervos palacianos. A declaração mobilizou os repórteres a procurar ex-governadores e ex-primeiras-damas para saber o paradeiro dos materiais. Ao consultar um ex-governador fui ameaçado por minha pergunta ser considerada ousada demais. A repercussão do caso fez o próprio governo a desistir de comentários sobre o sumiço de peças valiosas.

Porém os casos contados acima não foram tão surpreendentes quanto a vitória de Djalma Falcão para prefeito de Maceió em 1985 em disputar com João Sampaio (PFL) e apoiado pela dupla imbatível, do ponto de vista eleitoral, Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira. Uma boca de urna junto aos eleitores à base da conversa, organizada pelos militantes do PC do B, garantiu a Falcão a vitória que deixou os governistas estupefatos.

No entanto, a administração municipal foi um fracasso. Funcionários públicos tinham longos atrasos salariais, um órgão chamado Fundação Educacional de Maceió (Femac) virou cabide de empregos de cabos eleitorais e parentes de vereadores e a prefeitura deixou de atuar no controle de serviços básicos como transportes, limpeza, saúde e educação. Mesmo assim Falcão seguiu até o final do ano, mesmo abandonado pelos correligionários que o levaram ao poder.

A saída do ex-prefeito do cenário político encerrou um ciclo de ferrenhas intrigas e que durou mais de quatro décadas e que começou pelo famoso tiroteio na Assembleia Legislativa de Alagoas, em 1954, passando pelo bipartidarismo entre Arena e MDB na ditadura militar até o desligamento dos Muniz Falcão da política alagoana.

Nesta sexta-feira, Djalma Falcão faleceu e levou consigo uma marca que com certeza ainda será relembrada que é o estilo político dos Muniz Falcão.

 

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