Estádio e gramado de Murici um dia foram chamados e modernos e avançados - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Gerônimo Vicente

Estádio José Gomes da Costa futebolinterior Estádio José Gomes da Costa

As condições do gramado do estádio José Gomes da Costa, em Murici foi o assunto da semana passada nos meios esportivos local, nacional e até internacional. Para nós, cronistas esportivos a história já é mais bastante conhecida, porém como há dez anos estou fora do ramo me surpreendo, quando vejo que a realidade de um campo de futebol do sertão de Alagoas tenha chegado à zona da Mata.

Em 2010, estava em Santana do Ipanema a trabalho e ao concluí-lo fui assistir ao jogo Ipanema x Corinthians Alagoano pelo certame estadual no estádio municipal Arnon de Mello. Pela primeira vez, entrava em um cenário esportivo da região e, não acreditei que se praticasse futebol de forma oficial naquele espaço. O terreno era duro como barro molhado que seca depois da chuva. A poeira chegava às arquibancadas de forma que dificultava a visibilidade de alguns lances. Fiquei mais imaginando um artilheiro fazendo um gol e mergulhando como peixinho naquele projeto de grama do que assisti à partida. Toque de bola não havia, tanto que o Corinthians venceu o jogo com chutes de longe em direção à meta contrária, um deles do lateral Marco Antônio que hoje atua no CSA.

As condições climáticas da região, seca na maior parte do ano, propiciam essa situação. É a realidade com que os sertanejos convivem e não há do que reclamar. Contudo, a ocorrência deste fato na Zona da Mata faz elevar ainda mais a discussão.

E porque este blogueiro resolve requentar um assunto que, embora ainda seja mais uma mazela do futebol alagoano, morreu com a vitória, na quarta-feira (8) do Cruzeiro sobre o Murici, por 2 x 0 pela Copa do Brasil?

Explico.

Ingressei no jornalismo diário, em 1986, atuando em dois jornais como repórter esportivo: o Jornal de Alagoas (diário) e o Extra, este último um semanário que surgiu no segundo semestre desse ano como suporte para duas candidaturas do PMDB: Renan Calheiros como deputado federal e Fernando Collor de Mello, a governador. Embora tivesse objetivo politico, o jornal, que circulava às segundas-feiras, surgiu para colocar mais um ingrediente no chamado “feijão com arroz” das notícias dos matutinos tradicionais com publicação de reportagens mais minuciosas.

O Extra possuía um corpo redacional de fazer inveja, se bem que tinha prazo para acabar: João de Deus era o editor, Walmir Calheiros, chefe de reportagem, além de Fernando Araújo e José Elias como colunista. Eu era um mero estreante na profissão e fui indicado pelo radialista Warner Oliveira que não pode assumir a função devido a outros compromissos.

As páginas esportivas dos jornais diários eram reprodutores das resenhas esportivas de rádio e somente a dobradinha CSA e CRB preenchia as páginas todos os dias. Em conversa com João de Deus e Valmir Calheiros resolvemos fazer diferente e além de trazer a cobertura da rodada do final de semana, iríamos mergulhar nos bastidores do futebol, como por exemplo, apurar a relação amistosa entre cronistas e dirigentes, desvendar os mistérios dos rombos na arrecadação dos jogos e outros assuntos que eram questionados pelos torcedores, mas banidos da imprensa local.

Ao perceber a reação positiva dos leitores, o lado político do jornal resolveu se aproveitar do esportivo.

O prefeito da cidade de Murici era o major Olavo Calheiros, cuja gestão no final do mandato resolveu deixar um estádio de futebol como presente à população. Seria, depois do Rei Pelé, o mais moderno do Estado e para os peladeiros dos finais de semana a estrutura era um “presentaço” da prefeitura.

Dias antes da inauguração recebi uma pauta para uma reportagem sobre o estádio municipal (ainda não tinha outro nome). Fui acompanhado de um fotógrafo que era filho do repórter fotográfico Carlos Alberto Calazans que substituía o pai, na ocasião. Na cidade fomos recebidos pelo prefeito que nos levou ao estádio. De fato, fiquei surpreso com as condições que o campo     oferecia e, principalmente, o gramado. “Igual ao do Rei Pelé”, enfatizou o prefeito.

A admiração instantânea, veio ao lembrar das demais praças esportivas do interior que tínhamos naquela época, todas em condições imprestáveis para a prática de futebol, inclusive o Coaracy da Mata Fonseca, em Arapiraca.

O major Olavo Calheiros me apresentou o engenheiro responsável pela obra que meses atrás é que prestei atenção, em uma foto que guardei, que se tratava do atual secretário de Transportes e Desenvolvimento Urbano do Estado, Mozart Amaral. Não lembro dos detalhes técnicos repassados pelo profissional, tampouco da reportagem que foi publicada em uma segunda-feira, um dia depois da festa de inauguração e que, com certeza contribuiu para a arrancada política em nível nacional do hoje senador Renan Calheiros, o primeiro sucessor político do prefeito.

Seria também o início do projeto para levar o time do Murici ao campeonato alagoano que foi muito mais além desta façanha nos últimos anos. O alviverde conquistou o campeonato alagoano em 2010, participou de campeonatos brasileiros da série D e chegou à terceira fase da Copa do Brasil neste ano. Por esse histórico, o time não merecia passar um vexame cuja repercussão se espalhou pelo Brasil e chegou ao exterior, por falta de melhor cuidado com um gramado que um dia chegou a se referência no interior do Estado.

É evidente que no período de causticante estiagem, a prioridade é levar água à população e não utilizá-la em demasia em um campo de futebol. Antes, porém, está a imagem da cidade, a expectativa dos habitantes em receber um clube que chegou a ser um dos melhores do mundo e que, atrairia a atenção da imprensa mundial como ocorreu de fato. Se a preocupação era a seca, os jogos não deveriam ser levados à cidade, evitando o vexame.


A lição soma-se as inúmeras mazelas que temos que superar neste Estado. Afinal de contas, manter praças esportivas não tem sido mais uma adorada ação do poder público como intencionou, naquela época o prefeito de Murici.

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