'Geração Decepção' - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Rívison Batista

O smartphone já pesava pelo tempo que o braço estava suspenso, mirando a câmera num rosto indeciso, ora sério, ora alegre. Ele já estava impaciente também, apesar de que amava ser cortejado pelas fotos em redes sociais. Eram, em média, dez fotos por dia. Citações da Bíblia ilustravam várias legendas, embora nunca tivesse lido mais de duas páginas do livro religioso. "Você parece ser muito cristão, Nando. São lindas as frases bíblicas que posta", dizia uma amiga. "Obrigado", dizia Nando, convicto de sua fé (ou falta dela). Nando foi até a praia e, abrindo um sorriso para a câmera (mesmo estando triste por problemas familiares), fez a selfie, legendando a imagem no Instagram, dessa vez, com uma frase da escritora Clarice Lispector. "Linda foto, Nando. Mas Clarice Lispector todo mundo usa...", dizia a amiga do rapaz. "A frase é o de menos. O importante é a imagem", retrucava o jovem, que se considerava um 'digital influencer'. Nando é um em muitos que consideram o conteúdo irrelevante perante o palco virtual. "Como assim 'é o de menos'? Já pensou se um político subisse no palanque e não falasse nada de importante? Essa frase nem de Clarice Lispector é, cara", falou a amiga, quase chateada. "Rapaz, pare de se importar com o discurso. Ninguém vai perceber que a frase não é dela e, felizmente, eu não sou político e não me envolvo com política", respondia o rapaz, em voz alta, com ênfase. Logo ele que, há meses atrás, vestiu a camisa da seleção brasileira em um protesto político (e fez selfie, sorrindo, no protesto).

Com um milhão e meio de seguidores em uma rede social de sucesso, Nando é mais um 'influenciador digital' que não considera importante o conteúdo da mensagem, apenas uma boa foto basta. Nas proximidades de um Natal, resolveu dar ênfase à mensagem e fez um vídeo: "Que esta época seja de paz e prosperidade no coração de todos vocês". Seguidores do jovem escreviam "amém" nos comentários, sem saber que o rapaz tinha espancado um mendigo, um mês antes, após uma noite de bebedeira com colegas. O morador de rua não entrou em óbito porque os vândalos ouviram, de longe, uma sirene policial. Em certa ocasião, o avô e o pai de Nando conversavam sobre a fama repentina do rapaz. "Meu filho, você não se preocupa com esse público todo em cima dele? Ele só tem 20 anos. Nem sabe direito o que quer da vida. Antigamente, nós admirávamos as pessoas pelos feitos delas, nunca somente pela imagem", dizia o idoso desconfiado com o poder da internet. "Pai, isso está fazendo bem para meu filho. Além do mais, vez ou outra, aparece alguma empresa querendo fazer publicidade de algum produto. Rende um bom dinheiro às vezes". O idoso fez uma careta e respondeu: "Ego é algo difícil de lidar. Quando conseguimos as coisas através do trabalho é ótimo. Mas apenas a imagem fez dele um formador de opinião e isso é péssimo. Tenho receio disso. Um moleque de vinte anos criado em berço de ouro, que nunca pegou numa pá, influenciando pessoas com o mesmo perfil. É como se fosse um ciclo que nunca leva a nada. Enfim, aja da maneira que preferir", disse o idoso, com a sabedoria de mais de 70 anos. 

À noite, o pai de Nando sentou-se em frente à televisão para ver o telejornal e acabou assistindo à entrevista de um preocupado cientista social sobre a nova geração: "Estamos diante de jovens que conseguem influenciar milhões com discursos vazios e, muitas vezes, sem fundamento. Estamos diante de artistas de 17 anos de idade que acham que já viveram o bastante para ter uma biografia publicada. Eu fico pensando... Quando eu tinha 18 ou 19 anos, para ter acesso a conhecimento, eu passava horas na biblioteca procurando um livro ou passava dias esperando um documentário ser exibido na televisão. Essa geração atual tem todo o conhecimento do mundo na palma da mão, na hora que desejar, e a maioria desses jovens não dá a mínima para isso. Usam a internet e suas redes sociais para dizer e criar bobagens. Para propagar canções descartáveis. Semana passada, um jovem entrou dentro de uma caixa e se enviou pelos correios. Ele filmou tudo e a justificativa foi que iria ganhar mais seguidores com o vídeo. Estamos diante da 'geração decepção' e 'seguidores' que são guiados por 'líderes' sem cultura alguma. Esse pessoal passa uma imagem de bem-estar eterno que não existe. Muitas vezes, vão da idiotice à hipocrisia num piscar de olhos. É como se o cão guia do cego estivesse tão cego quanto o cego", desabafou o estudioso. Dentro do quarto, no mesmo horário, Nando fazia uma selfie vestindo a camisa de um clube de futebol que passou por uma tragédia recentemente. Na legenda da imagem, o rapaz escreveu: "Luto". Um rosto triste olhando para baixo foi a pose escolhida pelo jovem. Após publicar a foto, ele vigiava, a cada minuto, a quantidade de 'likes' que recebia, com um grande sorriso no rosto.

 

*Rívison Batista é jornalista (obs.: os personagens citados acima são totalmente ficcionais)

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