Democracia do carnaval fez sucumbir os clubes sociais alagoanos - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Gerônimo Vicente

Carnaval no Iate Clube Pajussara Arquivo Iate Carnaval no Iate Clube Pajussara

Por onde começou a decadência do carnaval de clubes  em Alagoas? Muitos dizem que foram  as cidades litorâneas como Paripueira (litoral norte) e Barra de São Miguel (litoral sul) cujas casas de loteamentos passaram a ser ocupadas por maceioenses nos finais de semana. Outros atribuem à invasão de trios-elétricos arrastando multidões afoitas com a novidade eletrônica e outros apontam a mesmice apresentada nesses clubes e que afetou uma geração de filhos de sócios que  despertava para uma outra realidade como a de se desvencilhar das coleiras paternas.

No entanto, acrescento outro motivo que considero fatal para o fim da movimentação carnavalesca dessas agremiações sociais tradicionais neste  período momesco que reuniram “a nata da sociedade alagoana” como faziam questão de  afirmar os colunistas sociais da época. Creio que  clubes sociais de menor porte e pertencentes às  entidades associativistas como,  Clube da Ceal, Produban, Astel, AABB, Asplana, Paripueira Praia Clube, além de Sesi e  Sesc foram também vilões dos tradicionais. É que elas aglutinavam  associados de várias escalas sociais, entre elas, aquelas  compostas por sócios dos clubes tradicionais como Fênix, Iate, Alagoas Iate Clube, Jaraguá Tênis Clube e Motonáutica Clube.

Ainda não surgiu um espaço onde  a democracia reine tão plena quanto o carnaval. O significado dos festejos de momo é a palavra rua e as prévias carnavalescas de Maceió deste e de anos anteriores mostraram essa realidade.

No entanto, nem sempre foi assim. A divisão entre  elite e povão era  escancarada na década de 1970. Ao ponto de que, em alguns anos, a festa promovida pela prefeitura ser encerrada às 23horas em bairros da capital, porque a partir daquele horário, os clubes  sociais receberiam a “sucrarocracia”, como dizia o saudoso colunista Romeu Loureiro e um segmento social que, na ordem decrescente, não ia além da classe média  alta.

Restava ao povão, as praças Moleque Namorador na Ponta Grossa e Lucena Maranhão, em Bebedouro.  Nesses clubes de elite, muitas famílias  que compunham a oligarquia alagoana  se formaram nas décadas de 1950 e 1960 e 1970, mas  os herdeiros começaram a viver  outros momentos a partir da abertura política e social  no país no final do regime militar, como a quebra de tabus sexuais, liberdade e o fim da censura.

Testemunhei o declínio desses clubes como repórter, talvez um dos últimos jornalistas a cobrir carnaval nesse segmento social no início da década de 1990.Trabalhava no Jornal de Alagoas na editoria de Geral e fui escalado pelo então chefe de reportagem Walmir Calheiros, também diretor do Iate Clube Pajussara, para fazer a cobertura do carnaval dos pequenos clubes da cidade.

Na noite de sábado de Zé Pereira, fiz uma maratona por clubes como CRB, Sesc, Sesi e Astel e fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que escolhiam essas estruturas de frevo. Os espaços oferecidos aos foliões por esses pequenos clubes eram o dobro ou triplo dos tradicionais e alguns tinham outras áreas de lazer.

Na mesma noite,  estive  no Alagoas Iate Clube, considerado um dos grandes,  o objeto de frequente contestação de ambientalistas e arquitetos por ter sido erguido no mar. As ações do Ministério Público Estadual provocadas pela população desequilibraram o chamado “Alagoinhas”. Nessa noite, antes de ser recebido pelo comodoro de nome Luís Soares, se não me engano, fiz um diagnóstico do público presente. Identifiquei poucas pessoas com a minha idade, na época, 27 anos, mas me deparei com  foliões dos 40 aos 70 anos, talvez saudosistas dos velhos carnavais.Já preocupado com a onda contrária ao clube, o comodoro tão preocupado  com as consequências de uma ação judicial que me mostrou um livro de ata com visitas de turistas ao local como se fosse uma credencial para manutenção da estrutura no mar da Ponta Verde.

Na segunda-feira,  fiz a reportagem enfocando o lado arrebatador de animação dos pequenos clubes e as fotos tomadas pelos repórteres-fotográficos Adailson Calheiros e Cacá Santiago confirmavam o que dizia no texto: clubes lotados e muita animação. Walmir Calheiros elogiou a  minha percepção e disse-me que como diretor de um clube social ainda não havia notado essa fuga em massa de associados jovens para esses clubes, a não ser para a onda marítima dos balneários alagoanos.

Frevo na praia

A devastação de grande parte dos coqueirais das faixas litorâneas das cidades de Paripueira e Barra de São Miguel para dar lugar a lotes de casas, provocou a debandada da classe  alta e média para as casas de veraneios nesses municípios, a partir de 1978. Nessa época, os trios elétricos ganhavam espaço nas praias e nas ruas da capital. Lembro do primeiro trio que veio a Maceió, o Tapajós, trazido no final da primeira gestão do prefeito João Sampaio, por ocasião de mais uma reinauguração da praça Lucena Maranhão em 1975. Morava no Mutange e,  de longe me assustei com um caminhão Mercedes Benz com uma iluminação acima do normal e incontáveis altos-falantes. Era noite o que enfatizava ainda mais a novidade. Anos depois, soube que em cima do trio estavam Moraes Moreira, Armandinho, Pepeu Gomes e Baby Consuelo (os Novos Baianos), então ilustres desconhecidos por essas bandas onde predominavam o frevo.

Porém, os trios elétricos ocuparam de fato a capital, a partir de 1984. É que o Tapajós foi carro-chefe da campanha do então candidato a prefeito Djalma Falcão que venceu a eleição, mesmo sendo considerado uma “zebra” e da festa da vitória até o final do mandato, o caminhão eletrizado perambulou pelas ruas de Maceió e foi modelo para outras campanhas eleitorais.Foi assim que a música baiana penetrou no estado.

Testemunhei ainda o surgimento do carnaval da Barra de São Miguel que começou com  um acanhamento típico de cidade de interior, mas  os forasteiros de Maceió e de outras cidades começaram a disseminar pelo estado afora a performance do maestro Zezinho e sua orquestra de Marechal Deodoro e anos após anos, a cidade foi sendo entupida de gente. Anos atrás cometei esse fato com prefeita do município naquela ocasião, Angélica Cavalcante que foi minha chefe na Delegacia do MEC e ela se declarava  espantada com a avalanche de gente na cidade, até porque não havia estrutura de água e energia suficiente para sustentar todo aquele povão.

Mansões cheias, barcos lotados, tendas espalhadas por todo espaços urbanos da cidade e casas de nativos alugadas. O PIB alagoano encontrou o novo espaço de lazer e aí foi o tiro de misericórdia dos clubes socials.

Assim cheguei a conclusão que a democratização  da festa foi o coveiro dos clubes sociais nesta época, afinal de contas o  carnaval é como a tradução do forró: para todos.


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