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Blog | Gerônimo Vicente

Chegada do navio-hospital a  Maceió Projeto Hope Chegada do navio-hospital a Maceió

Na última  postagem  Hope e os Filhos da Esperança o leitor teve a oportunidade de conhecer os relatos de Martin  e Lori Shearn, o casal de norte-americanos que comandou um navio-hospital chamado Hope, cujos profissionais de saúde salvaram  a vida de mais  de mil pessoas  em Alagoas durante estadia no Porto de Maceió de 1973 a 1974. Neste texto reproduzo as impressões  de Wendy e de Lori, filha e mulher de Martin,  integrantes da equipe de profissionais de saúde que se destacaram nas ações de educação para a saúde e de lazer aplicadas junto às crianças e mulheres da capital alagoana. Porém, a gritante falta de condições sanitárias de Maceió na época, foi o que mais chamou a atenção dos norte-americanos. Se atualmente, o Instituto Trata Brasil considera que  dispõe de apenas 30% das residências com sistema de esgoto, imagine há 44 anos. Quase 100% da cidade, naquele período não tinha saneamento básico e os esgotos a céu aberto fazia parte da paisagem urbana.

Em 1973, Maceió não tinha o aspecto de metrópole como atualmente. Os bairros podiam ser contados e o limites urbanos iam do  Pontal da Barra até Riacho Doce na parte litorânea e do Centro até a Bomba do Gonzaga.  

Os transportes urbanos se resumiam aos ônibus pertencentes às  empresas São Francisco (linha  Bebedouro-Centro), São Braz (Farol-Centro), Santo Antônio (Vergel – Ponta Verde) e Progresso (Trapiche-Pajuçara). Quem, por exemplo se deslocasse de Bebedouro a Pajuçara pagaria quatro passagens – ida e volta por ser obrigado a mudar de veículo no Centro. O lazer dos maceioenses nos finais de semana era o futebol e a cidade  tinha como representantes CSA, CRB, Ferroviário, São Domingos, Guarani do Poço e Dínamo do Prado. Os cinemas Lux (Ponta Grossa) São Luiz (Centro), Rex (Pajuçara), Ideal (Centro) e Plaza (Poço) também eram a  opção vespertina e noturna para a maioria dos maceioenses.

Mas as condições sanitárias eram inexistentes e como a maioria da população não era servida de informação sobre prevenção a saúde, os moradores passaram a conviver, sem reclamar com esgoto à céu aberto,  falta de água encanada, moradias de palha e outras insalubres situações. que geravam graves doenças, principalmente em recém-nascidos. A mortalidade infantil era altíssima a ponto de provocar a vinda dos norte-americanos para  salvar as crianças. Na maioria dos bairros não havia asfalto, e calçamento somente existia no Centro e Jaraguá.As águas de riachos e lagoas serviam para lavagem de roupas, de animais, para beber, cozinhar e também para acumular restos de qualquer coisa imprestável.         

 Lori Shearn traçou uma radiografia dessas condições sanitárias de Maceió ao relatar que “Em uma área pobre da cidade onde não havia  cuidados, a equipe de enfermeiros, médicos encontrou um edifício de madeira velha que passou a servir como clínica para as mães novas de bebês com problemas de saúde. Essas pessoas foram orientadas sobre o que ocorre com as mãos quando não são lavadas e  apresentadas a elas, graficamente, como as moscas contaminam alimentos provocando feridas abertas”.

Os enfermeiros do Hope tornaram-se educadores da saúde, explicando às mães os riscos de colocar uma chupeta na boca do bebê depois cair ao chão.. Lori explica que muitas das crianças atendidas  sofriam de um tipo de desnutrição chamada  kwashiorkor que ocorre quando não há proteína suficiente na dieta.Um dos sintomas é uma barriga inchada. As mães também foram orientadas sobre a melhor nutrição ao cozinhar moluscos e  o sururu que poderiam fornecer a proteína necessária para os filhos. Em pouco tempo, segundo Lori, a saúde das crianças começou a prosperar.

A maior conquista no período do Hope em Maceió, segundo os visitantes relataram foi a descoberta de um  prédio semi-acabado que seria uma clínica ambulatorial. O projeto havia sido abandonado três anos antes quando os recursos federais se esgotaram. O relatório da Lori Shearn conta que o edifício estava imundo, com mofo e ervas daninhas, mas existiam 75 leitos terminados. A equipe do Hope pôs em funcionamento aquilo que era um esqueleto de um prédio que foi limpo, pintado e equipado. Depois dessa ação, o número de pacientes cresceu acima do previsto. Muitos pais que nunca levaram os filhos ao médico e foram orientados de que não precisavam  gastar tanto para preservar a saúde dele e dos filhos.

A clínica continuou depois que o navio partiu. Os auxiliares (os hopies) que se tornaram as enfermeiras desta clínica foram cuidadosamente treinados para ler números, tomar temperaturas, ler balanças para pesar bebês.  Eles foram cuidadosamente supervisionados até que foram capazes de funcionar com confiança sozinho.

Enfermagem

E neste ponto, chega-se um legado importantíssimo deixado pelo Hope em Maceió: a criação do primeiro curso superior de Enfermagem.  A autorização para o funcionamento do curso aconteceu no dia 1º de novembro de 1973, em reunião do Conselho de Ensino e Pesquisa da Ufal, na ocasião, o  navio Hope  ainda estava atracado no porto de Maceió.Coube a enfermeira Vera Lúcia Rocha, a primeira contratada da Ufal para atender as exigências do  projeto Hope.Um artigo publicado na Revista de Enfermagem em julho de 2014 e de autoria de Laís de Miranda Crispim CostaI, Regina Maria dos Santos,Tânia Cristina Franco Santos,  Maria Cristina Soares Figueiredo Trezza e Josete Luzia Leite conta um pouco deste momento: “Até 1973, a UFAL só contava com dois cursos da área da saúde, Medicina e Odontologia). Com isso, o fato de chegar a Alagoas uma Enfermagem exercida por enfermeiras graduadas que tinham alto prestígio, lideravam os setores e contavam com um avançado aparato tecnológico causou impacto no cenário alagoano, inclusive na universidade, pois o navio-escola-hospital HOPE serviu de campo de estágio para os acadêmicos de medicina e odontologia na época.

O reduzido número de enfermeiras na cidade foi claramente notado pelas enfermeiras do HOPE. A depoente norte-americana Bárbara relata como as enfermeiras do Projeto HOPE viam a necessidade de enfermeiras locais liderarem os setores:

Junto com todos os avanços tecnológicos a gente viu a necessidade da pessoa de uma enfermeira de nível superior começando a liderar os setores. (Bárbara)”.

Em 2013, ao completar 40 anos da visita do Hope em Alagoas pesquisadores de Biblioteconomia da Ufal conseguiram resgatar os prontuários de atendimentos da época, conforme reportagem da Assessoria de Comunicação da universidade.

Já Wendy Shearn  traçou um relato sobre a participação da crianças em um circo da cidade e descreveu a situação do palco do espetáculo.” o circo ocorre em uma tenda levantada às pressas de qualidade particularmente ruim. A lona é rasgada nos lados, e há muitos furos no alto, indicando lotes da luz do dia e - nos desempenhos da noite - luar.  Os trajes são desgastados. As cadeiras são colocadas diretamente na sujeira. Os acrobatas fizeram número de tirar o fôlego e fiquei preocupado com a segurança precária da estrutura circense”, disse a jovem que  citou ainda a presença do Globo da Morte, palhaços e malabaristas.

Wendy levou as crianças que se estavam no hospital há meses porque os pais não tinham condições de levá-las ao circo. Reuniu todos os voluntários e desenvolveu a ação, antes porém teve ajuda das freiras da Santa Casa de Maceió para arrumar roupas para elas.

Este foi um momento marcante na história da saúde alagoana e que descobri, a partir da lembrança de uma história de carnaval: a da gravidez indesejada (lembra!). Pesquisei o bastante para  rememorar um fato que só ouvi falar pelo rádio e jornais, cujo interesse, na época,  só me foi despertado pelo fato de ser um navio diferente, ou seja um navio-hospital, coisa estranha para uma criança de 10 anos de uma cidade tão pobre, na ocasião, que segundo relatos,  os norte-americanos diante de tanta miséria erámos visto por eles como sub-raça.

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