A Vaidade (ou 'A derrocada de Afrodite') - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Rívison Batista

Mal sabia ela que o tempo estava a perseguindo. Entre uma tragada e outra no cigarro, um aceno para os fãs. Pessoas que admiravam um personagem, e não a criadora dele. Sussurrou no ouvido do assessor: "Quero essa coletiva de imprensa em 30 minutos. Use tudo que você tem, estamos em 2018, querido". O assessor tirou o smartphone do bolso na pressa e quase derruba o aparelho no chão. Aquilo se chamava 'medo do desemprego'. Convocou todos os repórteres e a coletiva começou 40 minutos depois. "Por favor, fiz o que pude. Todos vêm". "Certo, querido, mas tente ser mais eficiente uma próxima vez", disse ela, com rosto sério e olhar de raiva. Também pudera, era a musa do momento. Todas as revistas masculinas a queriam, todos os grandes eventos a queriam, todos os homens consumiam a imagem dela como se fosse a bebida mais prazerosa. Sentia-se uma deusa. Um repórter despreparado perguntou: "Pode-se dizer que você é a nossa Cleópatra?". "Meu bem, Cleópatra era mortal, eu sou Afrodite". A imprensa gostou da ironia e a frase saiu na capa de muitas revistas de entretenimento barato. Estava no auge dos seus 23 anos. A maior emissora do país a convidou para apresentar um programa matinal só dela. "Seja você mesma, siga o roteiro, mas seja natural", dizia um diretor experiente. E o programa foi um fracasso. Ela não se desapontou, pois não tinha sido ideia dela aquilo tudo. Não tinha o talento para interagir com o público. Ela sabia que apenas a imagem dela valia milhões e, afinal, tinha 23 anos. Tinha todo o tempo do mundo. Era uma deusa prepotente.

Entre um trabalho e outro, 20 anos passaram-se tão rápido que, em uma manhã, ela se olhou no espelho e mal podia acreditar que tinha várias rugas. A juventude estava ficando para trás e, agora, ela precisava de outra alternativa. Não importava o quanto de maquiagem ela colocasse no rosto, não importava quantas vezes por semana ia para a academia, sempre iria ter uma garota mais jovem e mais bonita para comparecer a eventos e fazer comerciais. Tinha juntado um bom dinheiro na época da glória, mas agora tudo que desejava era, pelo menos, chegar perto de ser Cleópatra. Começou a exagerar no álcool e no cigarro. E foi aí que apareceu, pela primeira vez na sua frente, a sua amiga imaginária para o resto da vida. "Você acreditou na coisa mais mentirosa que o ser humano pode acreditar. Você confiou na beleza, querida. E agora que ela está desaparecendo, em que você acredita?", perguntou Lasmar, esboçando um sorriso. No momento em que o cinzeiro voou para atingir Lasmar, a entidade imaginária desapareceu como fumaça. Mas quando aparecia, era a personificação do que a quase Cleópatra queria ser: jovem, bela e com um corpo sem igual. Superou uma depressão e tentou fazer pequenas participações em programas de fim de semana. Um apresentador de um programa de domingo usou a legenda: "Lembra dela? Veja como está a musa do passado". Durante o programa, confessou que a atividade sexual estava melhor do que nunca, que tinha poucos amigos e que não se importava com a solidão. Foi jantar com um diretor que usava um grande anel dourado na mão esquerda e, na cama de um motel de luxo, chorou por ele dizer: “Querida, é só diversão”. Acabou ouvindo isso de outros homens com anéis parecidos nos anos subsequentes. Uma noite de sábado, sozinha, viu de relance um documentário que dizia que Cleópatra foi esposa de Marco Antônio. “Você só consegue ser a parceira da ilusão dos outros. Quando a ilusão some, o anel deles fala mais alto”, sussurrou Lasmar no seu ouvido.

Passado. Uma palavra que pesa. O presente escapa pelos dedos de tão leve e ágil e o futuro é só uma ilusão. Mas o passado pesa e o tempo não desacelera por causa do peso. 40 anos depois, a antiga deusa da vaidade agora estava em um asilo. Sem a capacidade de andar, era retirada da cama por um cuidador. Tinha dias que não fazia questão de sair da cama. Ficava olhando para cima, para o teto, trêmula, sem entender como tudo tinha passado num piscar de olhos. Em alguns momentos gritava sem parar pedindo para acordar daquele pesadelo: não ser mais jovem, não ter mais uma boa saúde. Mas já estava acordada. Não teve filhos para não prejudicar a carreira e, além de estar acordada, estava sozinha, pois era filha única. Suas fraldas geriátricas eram trocadas cinco ou seis vezes por dia e, em todas as vezes, ela não dava uma palavra durante o procedimento. A deusa grega, desejada há 60 anos, só queria agora poder se movimentar e se limpar sozinha. Era uma prisioneira dentro do próprio corpo, o corpo que já foi seu maior troféu. Agora, não queria mais chegar perto de ser Cleópatra, queria apenas chegar perto de ser jovem de novo. O corpo que estampou capas de revistas com manchetes do tipo "saiba como entrar em forma" era o mesmo corpo que era revirado de um lado para o outro na hora de trocar a fralda geriátrica. Aquele tempo que a perseguia a alcançou e o tempo é infalível. Lasmar apareceu no fim de uma noite e falou: "Você conseguiu, querida. Você arrebatou corações. Você despertou amores. Você cumpriu sua meta. Infelizmente, a meta baseada apenas na vaidade tem um prazo de validade muito curto". Virando a cabeça com cuidado, a idosa perguntou olhando para Lasmar: "Como se passaram quarenta anos e você continua a mesma? Como você continua linda? Enquanto eu fiquei para apodrecer aqui". Lasmar então pediu para a idosa dormir e, dentro de um sonho cheio de praias, biquínis e paparazzi, contou que a mente da antiga musa podia ser qualquer coisa, inclusive uma grande cidade e que, um dia, as duas iriam ser jovens e morar naquela cidade para sempre. "Você se deixou levar pela ingenuidade. Uma hora ou outra, o ser ingênuo vira um ser cego. Cuidado com os portadores de falsos presentes e suas promessas vazias", disse Lasmar, desaparecendo no escuro. A idosa não acordou e foi morar na cidade dos sonhos com a amiga, a única amiga que possuía. Todo o objeto de vaidade e orgulho foi enterrado no dia seguinte e o tempo concluiu mais uma missão.

 

*Rívison Batista é jornalista

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