Resiliência (ou 'A ausência natural das coisas') - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Rívison Batista

Acordou pela primeira vez sem a presença dela. O perfume ainda habitava o quarto. Os objetos ainda estavam do jeito que ela deixou. A luz das cinco e meia da manhã tentava varrer o que ficou, mas o silêncio não deixava e aquele silêncio era eterno. A falta de som nas ruas e avenidas contrastava com o caos na cabeça dele. Estava perdido. Mais perdido do que alguém que tenta meditar dentro de um bloco carnavalesco. Levantou-se da cama e passou pelo espelho da sala. A cara era de ressaca, mas embaixo da pele o que havia era tristeza. Não aquela tristeza de um adolescente que não passa no vestibular ou que termina um namoro. Era tristeza de verdade, aquele sentimento que sabemos que é verdadeiro quando o coração é arrancado e é colocado um motor frio no lugar. Aquele sentimento que nos coloca em piloto automático e torcemos, às vezes entre um copo e outro, para não acontecer um desastre. Já eram cinco e quarenta e os pássaros sinalizavam um dia sem sentido. 

A ausência sempre foi definida e contemplada pelos poetas através das eras. Para alguns no século XXI, ausência é estar online no Facebook às três da madrugada e não ter com quem conversar. Para outros, e isso vale para todas as épocas, ausência é perceber a cara de constrangimento do médico ao lhe dar uma péssima notícia. Algo do tipo: 'Senhor, tentamos tudo, mas não conseguimos reanimá-la'. A batida de um coração é silenciosa e discreta, mas, quando o coração de uma mãe para de bater, parece que o som do mundo desapareceu junto com ele. Para outros, mais distantes, ausência é morar na Antártida e não sentir nem o calor humano nem do sol. E ainda, para quem espera um mundo mais justo, a ausência de um governo honesto que não obrigue o povo a morrer de velhice trabalhando pesa tanto quanto o caixão de quem viveu apenas para sustentar o patrão. É o peso da culpa de não ter vivido. A filha da ausência é a saudade. Ela cresce dentro daquele motor frio que ficou no lugar do coração e às vezes enraíza tão fundo que tentamos arrancá-la, mas o que conseguimos arrancar é a nossa voz, que dá lugar ao pai da saudade: o silêncio.

São cinco e cinquenta e ele já tem a companhia da "família" completa. A saudade parece brincar nas suas costas e ele anda meio curvado. O silêncio tapa seus ouvidos e cala sua boca. A ausência consegue arrastar o homem para o banheiro, onde ele deixa a água do chuveiro cair na cabeça por meia hora. Depois disso, ele liga a TV e o âncora de um telejornal começa a dizer as novidades do dia: "Filho mata o próprio pai por causa de dívida de drogas; atentado deixa mais de cem mortos e vários feridos; grave acidente causado por motorista bêbado mata uma família inteira; corrupção política no país atinge níveis alarmantes". Então, ele pensa consigo mesmo que, na verdade, a ausência que o assola atinge toda a humanidade. Ausência de afeição, compreensão, educação e ética mergulha o mundo numa piscina de sangue onde os corpos que boiam são os dos inocentes. "O inferno é aqui?", o homem questiona-se. E assim, mesmo carregando o peso da saudade e da dúvida, aquele ser humano decidiu não se curvar, porque a vontade de seguir em frente exigia ombros mais fortes. Saiu de casa nocauteado e viu que o mundo não parou apesar de tanta coisa ausente. Estava com olhos mais desconfiados do que tristes, mãos um pouco trêmulas e esperando, um dia, voltar a achar, ingenuamente, que o mundo não é um assassino calculista.

 

*Rívison Batista é jornalista

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