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Blog | Rívison Batista

20/12/2016 23:25

Mar profundo

A vida é um sopro, seja de vento, seja de fogo. Todos temos momentos intensos de tristeza e gozo, sorrisos e choros. E Maria não era diferente. É uma história antiga: no auge dos seus 95 anos, já não andava e sua única ocupação era gritar de lamentação o dia todo, todos os dias, em cima da cama. Maria era bem cuidada pelo casal de filhos que tinha. Deixavam a mãe sempre limpa, medicavam, alimentavam e faziam toda companhia possível. Mesmo assim, perto do primeiro século de vida, o sofrimento de Maria parecia não ter um final. O médico disse que era Alzheimer, mas, às vezes, a idosa lembrava de tudo claramente. "Vocês lembram quando andamos de avião pela primeira vez? Vocês dois eram pequenininhos. Tiveram um medo. Vieram me abraçando toda a viagem. Toda vez que o avião tremia, abraçavam mais forte", relembrava aquela [às vezes] lúcida senhora que possuía uma doença degenerativa. Eram raros os momentos de lucidez. Maria José, a filha de 60 anos, estava estressada com tudo e saiu para ver o mar. Precisava arejar a mente na praia.

O corpo de Maria José foi encontrado na areia no dia seguinte. Morreu por afogamento a caçula de Maria. No velório, familiares comentavam que a ordem natural seria dona Maria, com quase 100, ir embora primeiro. Dona Maria não foi ao velório e seu filho Mário Pedro, o único filho agora, não contou para ela o que tinha acontecido. "Ela precisou viajar, mãe", dizia o senhor de 64 anos quando questionado sobre a irmã. Maria José não deixou filhos, mas Mário tinha dois meninos. Um deles passou a ajudá-lo todos os dias com a avó Maria. Passaram-se dois anos e a idosa, agora com 97, parecia que estava se despedindo da estadia terrena. Deu entrada na UTI na noite de uma quinta-feira e faleceu na tarde de sexta. Mário estava inconsolável, porém conformado e ciente de que a mãe tinha atingido uma bela idade. No domingo, após todas as cerimônias, saiu bem cedo de casa para tomar um banho de mar na mesma praia que a irmã tinha perdido a vida. Eram 4h30 da madrugada e o sol se levantava timidamente. Mergulhou sozinho na praia ainda deserta e sentiu a água salgada entrar pela boca, nariz e orelhas. Voltou à superfície e tomou fôlego para outro mergulho. A água salgada lavava as lágrimas que escorriam pelo rosto do homem.

Quis entregar a vida para o mar, da mesma forma que a irmã devia ter feito. Mergulhou em profundidade e ficou lá embaixo, vendo as bolhas de ar saírem pelo nariz. Em certo momento, quando estava perto de perder a consciência, algo o puxou para a superfície. Em um instante de paz, ouviu uma voz suave dentro da mente, quase como um pensamento: "Não mude a ordem das coisas, filho. Não seja tolo. Nós três ainda estamos abraçados até tudo parar de tremer e a viagem terminar". O homem saiu da praia, que já apresentava certo movimento de pessoas, e foi viver o que restava da sua viagem, com a certeza de que o corpo vai, mas o abraço permanece.

 

*Rívison Batista é jornalista

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