As pragas do jardim - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Rívison Batista

Dois homens aparentando, ambos, quarenta anos, bem vestidos com terno e gravata, dialogam, em uma língua muito antiga, andando pelas esquinas de Berlim:

 - Eles estão chegando perto.

 - Eu sei. O que quer que eu faça? Mate-os? Sabes que isso é contra tudo que acreditamos hoje.

 - Não os mate, só os impeça. Podemos impedi-los. Eles planejam chegar no 'vermelho'. E depois? O próximo passo é o 'gigante'.

  - Não é engraçado? Eles pareciam tão tolos antigamente. Lembro-me de uma época em que mal conseguiam ficar em pé. Agora parecem conosco há muito tempo atrás.

 - Sabes muito bem que nunca fomos 'desbravadores'. Somos criadores. Eles estão entrando em áreas proibidas... Não entendo como eles se acham tão importantes às vezes, e ainda são tão rudimentares. De vez em quando, eu os observo de perto. Ando entre eles, como estamos fazendo agora, e fico sufocado com tanta prepotência. Nós não éramos assim. Tua memória não está muito boa.

- É da tentativa e erro que surge a evolução. Não cobre tanto deles. Nós tivemos nossas falhas e momentos de orgulho desnecessário também. 

- Irmão, sei disso. E sei do teu apreço por eles, mas entenda que se você não tomar uma atitude, eu vou intervir. Não faz muito tempo, eles aprenderam a manipular o átomo e criar grandes explosões.

- É do meu total conhecimento que eles estão enviando aquilo que chamam de sonda para o 'vermelho'. E é também do meu total conhecimento que do 'vermelho' eles não passam. Não foram concebidos para isso. Nós não os fizemos com tanta capacidade e resistência. Nós ainda somos jovens. A contagem do tempo deles é veloz demais, morrem rápido naturalmente. O próximo é o 'gigante', o 'guardião'. Nem com toda a inteligência do mundo eles entrariam ali antes de serem desintegrados vivos. Eles precisam de alguns milênios de evolução para alcançarem a engenhosidade mínima necessária. Até lá, creio que as bombas de átomo já deram conta deles, então eles vão regredir por causa deles mesmos. Não vamos sujar nossas mãos desta vez, irmão.

- É o nosso antigo lar! Eles até te associam ao 'guardião'. Eles dizem: "Zeus é Júpiter". Olha como são atrasados, irmão. Nos atribuem 'nomes'. Nós, que somos 'impronunciáveis'. Eles acham que podem nos batizar, "Zeus"... 

- Não me chame assim. Sabes que odeio tal nome... 

- Por quê? Por que fostes batizado pelos teus adoráveis macacos? Irmão, há segredos no 'gigante'. Está na hora de eles regredirem um pouco. Jogue alguma pedra neste globo. Assuste-os. 

- Poseidon... Era assim que te chamavam, não era? Não faça essa cara de "eu não gosto de ser batizado pela minha criação". Que cara enjoada, "Poseidon"... Eu até acho esse nome agradável... "Poseidon"... Eles passaram a temer você depois que tu provocastes aquilo que eles chamam de dilúvio. Sempre fui contra àquilo. 

- Detesto esse nome também. Não me provoque me chamando disso. E nós sabíamos muito bem que o tal dilúvio era necessário. Nossas criaturas, naquela época, estavam chegando tão perto de nós quanto estão agora. Tinham o que chamam de 'tecnologia avançada'. Era preciso uma destruição completa aqui para que voltassem à estaca zero. Hoje, eles veem resquícios de suas cidades antigas e não sabem um centésimo do que aconteceu. Acham que textos falando sobre 'cidades que voam' e que entraram em guerra são lendas antigas. São tradições do que conhecem como 'religião'. Como é mesmo aquele nome engraçado... 'Metáforas'... E o mais engraçado, irmão, é que eles se matam por causa de 'religião'. Eu observei o surgimento disso e pensei que seria bom eles terem algo em que acreditar. Eles vão voltar a ser o que eram antes das inundações. Você não me escuta. Vão voltar a ser as pragas do nosso jardim. 

- Jardim... Quem usou a tal metáfora agora foi você. Eram tão inocentes que chamavam um laboratório de jardim. Eram para ser uma espécie leal a mim e a você, mas, desde que o primeiro casal reprovou naquele teste comportamental da maçã, eles não cansam de se matar. A inocência deles não existe mais. Mancharam as mãos de sangue e matam este mundo aos poucos. 

- Mataram até aquele que tu enviastes dizendo que era teu filho... 

- E ele só veio aqui para ensinar o óbvio, e acabou assassinado. 

- É uma espécie sanguinária, irmão. Eles se matam e, veja só, mesmo com toda essa brutalidade ainda conseguem criar máquinas que viajam para longe. Mesmo sendo tão cruéis, desenvolvem a arte. Nos falta a sensibilidade que eles têm, porque, à medida que atingimos a perfeição da intelectualidade, também atingimos a perfeição da racionalidade. Somos frios. Aos poucos, eles estão ficando assim também. Estão perdendo o senso para a arte. Tu sabes que milhares de anos para eles são poucos dias para nós. Em breve, se eles não se matarem, terão o poder que consideram 'divino' hoje em dia. Sabe o que preocupa? Ainda serão violentos, 'desbravadores', 'conquistadores'. Não sabem criar nada, só conquistar e destruir. À medida que se desenvolvem, eu consigo prever essa violência espalhando-se pelo cosmos. Precisamos intervir em algum momento.

- Sabe, eu às vezes penso que eles serão como meu filho, futuramente. Talvez, à medida que evoluam, tornem-se mais sensatos. Vamos ver até onde eles vão. 

- Acho bobagem deixá-los crescer mais. Estou pronto para usar a arma. 

- Da última vez em que você pensou em usar o tridente, aqueles desastres aconteceram na região que eles chamam de Ásia. Dê uma chance a eles, irmão. Não toque na arma. Eles ainda vão nos surpreender positivamente. 

- És piedoso demais. 

E, olhando o irmão com seriedade, Enlil distanciou-se. Enki, o irmão bondoso, continua acreditando na raça humana.

 

*Rívison Batista é jornalista

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