Anáfora de um assassino (ou 'A sádica meditação') - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Rívison Batista

"Bem-aventurados aqueles que respiram", pensava o homem que meditava em posição de lótus na cama. Quarto vazio, casa vazia, 15h. Não era horário de movimento, mas também não era uma hora morta. A luz solar entrava timidamente pela cortina fechada. O silêncio no cômodo era absoluto, sem ventilador, sem ar-condicionado. Apenas o barulho da respiração. Não conseguia manter um ritmo compassado quando respirava. Também pudera, não fazia mais de uma hora que tinha matado uma pessoa. Mais de dez disparos, sendo cinco só na cabeça. Deixou o cadáver no meio de uma rua de uma comunidade carente. As mãos do homem, colocadas uma sobre a outra, em 'lótus', ainda cheiravam à pólvora do revólver. A lembrança da vítima correndo e, no fim, implorando de joelhos para viver, está bem viva na mente, mas isso não o perturba, pelo contrário. Esboça um sorriso e continua a meditação com olhos fechados. A concentração do homicida é impecável. Durante a meditação, pensa em quanto ganhou em dinheiro para tirar mais uma vida. O smartphone sinaliza que alguém mandando mensagens. Ele não mexe sequer uma pálpebra. Mais tarde, naquela mensagem, ele descobriria o destino do próximo trabalho: Indonésia.

"Bem-aventurados aqueles que têm coragem". Porém nunca teve a coragem necessária para arrumar um trabalho que não prejudicasse ninguém. Engoliu vinte sacos de cocaína e com a barriga cheia de drogas voou para Jakarta. Passou mal quando pisou na terra estrangeira e desmaiou no chão do aeroporto. Socorrido por guardas, foi colocado no raio-x da segurança e viram a droga dentro do corpo do homem. "Um saco estourou", disse um guarda na língua 'bahasa indonesia', o idioma oficial do lugar. O assassino, ao acordar e constatar que foi pego, socou várias vezes a própria barriga, pois sabia que estava condenado à morte e preferia morrer pelas próprias mãos. A intenção era estourar todos os sacos. Não conseguiu.

"Bem-aventurados os mentirosos, pois eles herdarão o cinismo". Explicou para as autoridades um plano maligno do qual foi vítima. "Sequestraram minha família, fui obrigado a fazer isso", dizia, tentando parecer sincero. A justiça linha dura do local não deu ouvidos e sentenciou o homem à morte por fuzilamento. Depois que se deu conta que a morte estava próxima e que não tinha escapatória, pediu uma bíblia. Apesar da maioria da população ser islâmica, o livro cristão chegou rapidamente. "Não matarás". E depois que leu o mandamento, o assassino de aluguel e agora traficante preso fechou o livro. "Não combina muito comigo", pensou. Dedicou cada dia que passava preso para meditar sobre fatos importantes.

"Bem-aventurados os que matam e se arrependem". Chovia muito certa tarde e resolveu recordar muitas coisas na meditação. Concentrado profundamente, lembrou de cada vida ceifada pelas suas armas. Deu-se conta de que merecia a morte, porém só tinha medo da dor. Pensou na mãe que deixou longe, pensou no filho que não reconheceu e em outros que poderia ter tido. Teria sido um bom pai, se a ganância não tivesse estragado tudo. No ápice da concentração, se viu deitado na cama do seu quarto. Não acreditou que estava em casa e saiu para a rua sorrindo. "Estou livre. Teria sido um sonho?", perguntava-se. A rua estava deserta e só era possível escutar o som do vento. Eram três da tarde. Não era uma hora morta. Ele percebeu que uma dor na perna esquerda tinha desaparecido e sentiu vontade de correr. Depois de percorrer todo o bairro e não encontrar nada, voltou para casa ao pôr-do-sol. Estranhou quando olhou no espelho, pois não estava suado apesar do esforço da corrida. Então, deitou-se olhando para o teto tentando entender o que acontecia. De repente, a porta da frente abriu. Sua mãe entra pela sala, ele tenta abraçá-la, mas ela não o sente nem o enxerga. Ela senta em uma poltrona segurando um vaso. Ela beija o vaso e chora. O objeto cai no chão e se despedaça."Não!", grita a senhora, fechando a janela imediatamente. 

Ela toma uma vassoura nas mãos e varre cuidadosamente um pó cinzento que caiu do vaso. "Eu te carreguei por nove meses e agora estou varrendo suas cinzas!", falava a desesperada mulher. Bem-aventurados aqueles que morrem e não sabem, não se lembram e vagam solitários. A lei do retorno condena aquele que propagou o sofrimento a sofrer eternamente no próprio inferno.

 

*Rívison Batista é jornalista

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