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Blog | Rívison Batista

23/10/2016 23:59

Versos e Leis

Verso 1

O jovem jornalista chegou na redação com ideais românticos de mudar o mundo. De início, foi cobrir um caso de homicídio. O local era de difícil acesso, uma rua estreita de um bairro da periferia. A multidão se amontoava para ver o defunto. É a maior ironia em crimes de homicídio: alguém que nunca teve a atenção necessária em vida agora tem ali tudo ao seu dispor. Pelo menos duas viaturas da Polícia Militar guardavam o corpo, a família chorava na calçada e uma criança puxava a camisa do repórter inexperiente. Ao olhar para baixo, vê o sorriso do menino, que pergunta: "Tira uma foto minha, tio?". A foto é tirada e o jornalista vai abrindo caminho pela multidão curiosa. É o show da morte. O ápice da morbidez. Os vivos brigando por um espaço para ver o morto. O limite para todos, inclusive para o repórter, é a fita de isolamento da polícia. Chegando nela, o jornalista constatou que o jovem tinha sido executado com 15 disparos de arma de fogo. Cinco tiros só na cabeça. "Era morador de rua. Aquele ali chorando é o pai. Disse que o jovem fugiu de casa depois que começou com o crack", dizia um PM ao repórter, que tentava anotar tudo. O sangue que escorria do morto fluía pelo chão e formava um pequeno rio até o esgoto, misturando-se com uma água suja acumulada na rua. A polícia afirma que foi por causa de dívida de drogas. "Não era traficante, só usava", disse o PM. Até que ponto o jornalista era melhor do que as pessoas que filmavam e tiravam fotos da situação com celulares? Até que ponto a informação dele era mais importante do que as fotos e as informações dos populares nas redes sociais? A resposta é simples: a informação do repórter é científica. O repórter documenta as facetas do dia a dia, é o cientista do cotidiano.

Parágrafo 2

Mais calejado pela realidade diária, o repórter, que não é mais tão principiante, agora atua na área política. Com ideais mais realistas do que românticos, escuta de um editor que não pode criticar determinados personagens da política local. "Pelo contrário, este temos que por lá em cima. É sócio proprietário do jornal inteiro", dizia, calmamente, o editor. Apenas balançando a cabeça positivamente, o repórter despediu-se e foi ao banheiro. Lavou o rosto e olhou a cara molhada no espelho. "Vendido", falou para si mesmo. O político em questão já se envolveu em grandes escândalos econômicos e teve os bens indisponibilizados pelo Ministério Público. Enquanto escrevia sobre um gesto de caridade do político, olhava com seriedade para a tela do computador. Um rosto quase agonizante para descrever uma doação de dezenas de cestas básicas. O editor pega o texto e elogia: "Vai ser destaque na capa. Melhore essa cara. Esqueça a improbidade administrativa e lembre do seu salário", retrucou para o jovem. O repórter tinha se curado da miopia romântica e enxergava com clareza o jogo de poder que estava inserido. O ideal 'mudar o mundo' foi trocado para 'viver com estabilidade'. 

Artigo 3 

Agora candidato a prefeito de um município do interior, o repórter, mais maduro, aproveita a fama que ganhou na televisão. A população o ama. Sua oratória é impecável. São mais de dez anos como âncora de um telejornal policial. Sabe exatamente o que o povo quer ouvir. Sabe como agradar as massas. Tem até boas intenções, sonha com melhores condições para seu povo, mas, ao mesmo tempo, derrapa, pois a carne é fraca, e a carne suscetível à corrupção é mais fraca ainda. "Não vou deixar de pegar minha parte se a oportunidade aparecer", confessa a um primo numa conversa informal. 

A vida do repórter foi uma gradação: começou no verso, virou parágrafo e se tornou artigo. A poesia endurece e vira prosa, que se petrifica, perde o humor, e vira lei. O poder alcançado vira uma faca de dois gumes quando a fome de poder não acaba.

 

*Rívison Batista é jornalista

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