Carpe Diem (ou Crônica de uma alma surpresa) - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Rívison Batista

Respirei fundo. Eram oito da manhã de domingo. As cortinas impediam a luz solar de adentrar no meu quarto. Ainda que fosse um dia nublado, a luz solar sempre é importante. Deitado, estava quase que totalmente relaxado. Um estado de completa paz de espírito entre o sono e o despertar. Levantei-me da cama, porém, ao olhar para trás, tive uma estranha surpresa. Presenciei meu corpo ainda deitado. Sonho? Com certeza não. Sem nenhum medo, dei-me conta de que tinha transpassado a matéria e, agora, tinha um momento de liberdade. Eu era aquilo que chamam de alma. A leveza dos meus passos fizeram-me flutuar no quarto. A ausência física fez-me ultrapassar paredes. A falta de cérebro e neurônios expandiu minha consciência, já que o cérebro é apenas um veículo limitado para algo muito mais complexo. Passei a entender, em segundos, que somos seres viajantes do tempo e espaço prisioneiros da carne. Somos energia que comanda órgãos e ossos, e não o contrário. O budismo talvez esteja correto ao dizer que devemos renascer quantas vezes forem necessárias para atingirmos a perfeição, o 'nirvana'. Talvez o corpo seja o teste da alma.

Olhei-me no espelho e vi apenas um ponto luminoso, quase imperceptível. Aquele ponto menor do que um inseto era eu. Tive medo de ficar longe do corpo. Por um momento, pensei na família e amigos e entrei em desespero. Pulei na cama e tentei retornar ao mundo físico. Tentei três vezes, e três vezes fui negado. Não adiantava. Queria acordar daquele pesadelo que tinha começado como um sonho agradável, porém estranho. "Não é sonho, tu morreste", disse uma voz estranha dentro do quarto. Eu, em forma de ponto luminoso, fiquei paralisado. De repente, surge a bela moça de pele quase pálida. Ela fica em pé ao lado da cama, olhando para meus olhos fechados. "Teu tempo acabou, não vê que teu veículo não respira mais? Chegou o momento de vir comigo", disse ela. Eu simplesmente não podia acreditar que estava encarando a face da própria morte. Fiquei um momento fitando os cabelos negros da moça de face serena e, quando voltei os olhos para o corpo, ele estava em decomposição. "Como assim? Estou apodrecendo?", perguntei com a voz trêmula. "Claro. Você mora sozinho e já se passaram cinco dias. A matéria sem a energia da alma volta para adubar a terra. Infelizmente, o modo de vida de vocês não permite que se reintegrem ao solo. Quando não se trancam em caixões, são queimados. De qualquer maneira, meu irmão Tempo sempre dá um jeito de reintegrar a matéria morta ao mundo. Escuta? A polícia chegou", disse ela. Um minuto passava como um dia inteiro. A nossa noção de tempo deixa de existir quando não dependemos mais de processos químicos, como o envelhecimento da matéria, por exemplo, pois nossa noção de tempo nada mais é do que nossa vida deteriorando-se. A eterna contagem regressiva que começa quando nascemos. Na porta do meu apartamento, uma vizinha dizia em voz alta que "esse cheiro horrível já dura dias" e que "o vizinho sempre educado sumiu".

Por ironia, a morte tentava consolar-me. "Este teu semblante triste não combina com alguém que acabou de descobrir que o que vocês humanos chamam de vida é algo muito além da capacidade da própria vida de vocês". Então, depois que ela falou isso, a polícia entrou no quarto. Alguns policiais tossiram e cuspiram no chão. "Provavelmente foi infarto", comentou um policial. Presenciei eles me colocarem num saco, depois em cima de uma maca e, finalmente, meu corpo foi embora em um carro do IML. Fui levado embora da mesma forma que eu jogava fora o saco de lixo. Ela sorriu para mim e disse que eu era muito além de algo putrefato. "'Goza da flor da mocidade, que o tempo trota a toda ligeireza'... Há alguns séculos, um poeta disse-me isso. Verdadeiro, não?", perguntou minha nova amiga. E adormeci. Ao abrir os olhos, acordei de um sono profundo em uma manhã de domingo. Nada mudou, meu coração ainda batia. Policiais não tinham arrombado minha porta. Entendi o recado, me levantei e fui viver. Na esquina, um aparelho de som tocava a música 'Dust in the Wind'. "Poeira no vento, todos nós somos poeira no vento".

 

*Rívison Batista é jornalista (obs.: no texto, há menções ao poema 'Discreta e formosíssima Maria', de Gregório de Matos, e à música 'Dust in the Wind', do Kansas)

Facebook