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Blog | Maternidade Colaborativa, por Joelma Leite

13/08/2016 20:42

Não basta ser pai, tem que participar

Conheça dois pais que fogem do convencional, eles cuidam dos filhos em período integral e até dos afazeres da casa.

Dar mamadeira, trocar fralda, dar banho, levar e buscar na escola, dar comida, colocar pra dormir e se as crianças choram durante a madrugada ele esta lá para confortá-las. Essa é a rotina de Eduardo Costa, ou simplesmente, “Pai das Marias” como é conhecido nas redes sociais, onde compartilha a sua rotina de pai em tempo integral de Maria Antonia (2 anos e 7 meses) e Maria Eduarda (1 ano e 3 meses). Com mais de 140 mil seguidores no instagram, casado há seis anos com Simone Chagas, administradora e artista plástica, eles convivem harmoniosamente com uma situação doméstica nada tradicional. Simone sai para trabalhar e as duas filhas ficam sob os cuidados do pai.

Antes de ser o famoso Pai das Marias, Eduardo era empresário no ramo alimentício, mas precisou fechar o próprio negócio que não estava indo bem. Nesse período a esposa engravidou e após o nascimento da primogênita, Simone enfrentou um quadro inicial de depressão pós-parto. E com apenas dois meses de licença maternidade precisou retornar ao trabalho, pois sua sócia estava com problemas de saúde e precisava se afastar temporariamente da empresa. Na época Maria Antonia tinha apenas três meses e deixar a filha com uma babá, numa creche, com avós ou parentes não era uma opção dos pais de primeira viagem. Então Eduardo, que estava desempregado, assumiu a responsabilidade de cuidar da filha, Maria Antonia, enquanto a esposa trabalhava.

No primeiro mês Eduardo teve a ajuda da mãe nos cuidados com a primogênita. Mas no segundo mês passou a cuidar sozinho da filha. O inicio foi difícil por conta do preconceito sofrido, principalmente por parte de pessoas próximas, com a sua nova realidade. Ele conta que começou a se questionar se estava fazendo a escolha certa. “Eu comecei a me questionar sobre o que eu estava fazendo se era certo, se era papel de homem, já que o pai sempre foi o provedor. E isso me deixou muito confuso. É comum as pessoas rebaixarem você quando o seu serviço não gera renda pra família. Mas eu comecei a valorizar muito as pessoas que cuidam dos filhos, pois é muito difícil, muito trabalhoso. É muito fácil pagar uma babá, um colégio. Colocar um horário no colégio, outro na babá e só ir buscar à noite e botar pra dormir. Isso é muito fácil! Cuidar do filho, dar educação, é muito complicado.” Afirma Edu.

Nesse período Eduardo resolveu desbloquear a sua conta no instagram e passou a compartilhar publicamente a sua rotina com a filha. Em seis meses ele já tinha conquistado mais de 40 mil novos seguidores que se divertiam com as peripécias do, até então, pai de primeira viagem. Hoje mais de 140 mil seguidores, em sua maioria mães, acompanham diariamente um pouco da vida do Pai das Marias. Ele salienta que a esposa é super presente, mesmo estando ausente em determinados momentos por conta do trabalho. “Ela é uma mãezona, cuida da gente, cuida das meninas. Eu não sou pãe, eu não sou babá, eu não exerço o papel da mãe. Eu apenas resolvi participar mais ativamente, sou pai”, salienta Eduardo.

Para ele a parte ruim da paternidade é a cobrança. “As pessoas acham que eu estou em casa e estou achando maravilhoso de não estar produzindo, não estar contribuindo financeiramente. A verdade é que todo homem é um pouco machista e eu me sinto na obrigação de pagar algumas coisas e é difícil não poder fazer isso neste momento”. E, de acordo com ele, o mais recompensador é participar ativamente da vida das filhas e o carinho que recebe delas. “A melhor parte é passar o tempo com elas. As meninas falaram Papai primeiro do que Mamãe e para mim isso foi muito gratificante. Acordar e ver as duas acordando, correndo pra vir dar bom dia, um abraço, isso é muito gostoso, compensa todos os sacrifícios.” Diz o Pai das Marias.

Quem também convive com uma rotina semelhante à de Eduardo, mas sem os 140 mil seguidores é Marco Nogueira, natural de São Paulo, popularmente conhecido como Marko Ramone. O apelido é por ser fã da banda norte-americana de punk rock, Ramones, mas por trás do visual roqueiro vive um paizão. Casado há 12 anos com a potiguar Sirley Pinheiro e pai de Dylan (3 anos e 10 meses), ele se desdobra para poder conciliar os seus horários a rotina do filho. O dia a dia é corrido, a esposa sai todos os dias às 5h da manhã para o trabalho como professora e psicopedagoga. Marko é formado em biblioteconomia, mas trabalha em seu próprio negócio, uma loja de artes gráficas no bairro do Graciliano Ramos, parte alta da cidade. O filho o acompanha todas as manhãs no trabalho, à tarde o menino vai para a escola e ele retorna ao trabalho. No fim da tarde é hora de buscar a criança na escola e enfim seguirem para casa. 

Dar comida, banho, limpar a casa, lavar a roupa, preparar todas as refeições da família, enfim, todos os cuidados com o filho e com a casa são de sua responsabilidade. A chegada de Dylan foi muito planejada e desejada pelo casal, um ano antes a esposa havia sofrido um aborto. Para Marko a maior satisfação é poder estar presente acompanhando o crescimento e desenvolvimento do filho. “A coisa mais gratificante de ser pai integral é estar sempre presente. O vendo crescer e se desenvolver. Cada palavra nova, cada expressão, sem contar no laço, que se estreita entre nós.” Afirma, ele.

Ele conta que apesar de estar sempre presente o filho sente a falta da mãe. “Ele chora quase todos os dias quando não vê a mãe na cama, mas eu o conforto na medida do possível”. E salienta que apesar das dificuldades diárias ele se sente realizado como pai. “Ele só dorme e só toma remédio comigo. Às vezes me atrapalha no trabalho, pois exige muita atenção, mas somos muito amigos e mesmo no fim do dia eu estando um caco, eu curto dividir todos os momentos com ele.” Finaliza.

 

Marco Legal da Primeira Infância

O Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257) estabelece um conjunto de ações para a primeira fase da vida das crianças brasileiras, de zero a seis anos. A medida também atinge os pais, que terão o direito de participar mais ativamente desse período. Para os homens que trabalham em uma das 18.696 organizações cadastradas no programa Empresa Cidadã, da Receita Federal, são, pelo menos, três novos benefícios garantidos: licença-paternidade ampliada, de cinco para 20 dias; até dois dias de atestado para consultas e exames durante o período de gravidez; e um dia por ano para acompanhar filhos de até seis anos em atendimento médico. A medida também vale para famílias que adotarem.

O funcionário não terá desconto salarial por usufruir dos direitos. Em contrapartida, a empresa cadastrada poderá deduzir do imposto de renda o valor pago aos trabalhadores nos dias de afastamento. O pai que receber a licença ampliada terá que participar de um programa de orientação sobre paternidade responsável com profissionais de saúde e não poderá exercer nenhuma atividade remunerada durante os períodos afastados do trabalho por conta do marco.

O objetivo é oferecer total assistência à criança em seus primeiros dias de vida, de acordo com o que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que visa maior atenção e cuidados ao desenvolvimento integral de meninas e meninos. A nova lei também reacende o debate sobre o papel paterno na educação infantil. Se tomarmos como referência a história recente da psicologia infantil, vamos perceber que a maioria dos especialistas veem os pais como figuras secundárias, e, até mesmo, irrelevantes na formação dos filhos. Surpresa? Antes de 1970, por exemplo, época em que os pais não podiam nem entrar na sala de parto, apenas 20% das pesquisas sobre o vínculo parental, citavam o pai em seus estudos.

Outro exemplo: mesmo as publicações recentes, no período de 1997 a 2005, praticamente a metade dos estudos e artigos de psicologia, não fazem qualquer referência ao papel ou à presença do pai na vida dos filhos. Em outras palavras, o pai sempre foi tido como um coadjuvante, não protagonista, na formação infantil. Uma figura à margem da missão de educar, papel considerado exclusivo da mulher. De acordo com esse conceito familiar que felizmente, está mudando, a obrigação dos homens, isto é, dos pais, seria apenas dar apoio, estrutura e recursos, principalmente financeiros, para as mães cuidarem dos filhos. A quebra de paradigmas, a valorização da mulher e a conquista do mercado de trabalho estão corrigindo essa história, resgatando também a figura do pai na vida dos filhos.

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