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Blog | Carlos Martins

16/12/2015 17:40

Impeachment: o que está por trás?

Carlos Martins / Tribuna Independente
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/dilma-rousseff-anuncia-mais-sete-ministros-para-seu-governo

Carlos Martins*

 

A constituição da sociedade brasileira se deu a partir da assimilação de diversas concepções nocivas que historicamente prejudicam ao bom convívio social. Do machismo o Brasil assimilou as formas de subjugar as mulheres nas funções esvaziadas de simbolismos de poder como as atividades domesticas, além de impedi-las de assumir posições que representam empoderamento. E nesse sentido, as funções de chefia nas empresas e nos espaços públicos, as profissões que denotam status social positivo e os demais espaços sociais que denotam posição de poder foram historicamente negados a esse segmento social.

Do racismo veio todas as formas de impedimento às populações que traziam características culturais e corporais que se diferenciavam do padrão europeu. Assim, com o racismo, fundamentado pelo etnocentrismo, ou seja, a ideia de superioridade étnica, vieram as barreiras sociais visíveis e invisíveis direcionadas prioritariamente às populações negra e indígena.

Constituiu entre os brasileiros um sentimento de rejeição pelo fenótipo negro. Aos cabelos crespos se aplicam produtos para negá-los, invisibilizá-los motivados pela vergonha e constrangimento do cabelo negro. Às religiões de matriz africana aplica-se a intolerância racista da demonização e diversas tentativas de destruição de seus espaços sagrados. E, assim, todos os elementos culturais que denotam o pertencimento negro que lembra ao brasileiro sua ligação formativa com o continente africano é negado, ao mesmo tempo em que historicamente se alicerça uma identificação com a Europa. O ideal branco de beleza, de civilidade. Negando, assim, todo o processo de elaboração societária produzida pela mãe África e que fundamentou as demais sociedades no mundo.

A homofobia e sua produção de violência à população LGBT, alimentando o ódio pelas pessoas de orientação homossexual numa concepção heteronormatizada impondo a compreensão de que o normal é ser hetero e o que vem além disso é prática diabólica sodomita. Esse tipo de argumento vazio e intolerante tem legitimado assassinatos com requintes de crueldade, estupros corretivos como forma de “corrigir” o suposto desvio de conduta da menina que se assume lésbica e tantos outros crimes. Além de impossibilitar a inserção de pessoas em ambientes sociais necessários ao seu desenvolvimento.

Além desses aspectos é importante ressaltar que a população que vive do trabalho ou a chamada classe trabalhadora é também vítima das arrogâncias produzidas por uma elite que nutre todos esses sentimentos mencionados acima e que ainda estabelece, deliberadamente, um muro social que lhes separa dos trabalhadores.

O que está posto diante desses elementos apresentados é que o Brasil se constituiu num projeto de nação fundada no privilégio de classe e, diga-se de passagem, manter as estruturas sociais atuais é fundamental para a manutenção desses privilégios.

Apesar disso, é notório também que o Brasil tem vivenciado algumas experiências importantes que apontam para mudanças de paradigmas e essas ações saem exatamente das instâncias estatais.

Nos últimos anos o Brasil conseguiu produzir alguns avanços importantes. Do ponto de vista governamental é importante destacar a criação de ministérios como o de igualdade racial que criou programas importantes como o Brasil Quilombola e se tornou um instrumento imprescindível na construção de políticas de combate e eliminação do racismo, além da inserção de pessoas negras e indígenas em espaços de inclusão, o ministério da mulher, voltado obviamente para pensar políticas públicas específicas e necessárias ao processo de eliminação do machismo e em especial o enfrentamento à violência contra a mulher e de uma formação cultural de assimilação da mulher em qualquer espaço social, o ministério da juventude onde pensa ações de inclusão social para jovens, o ministério de direitos humanos que pensa políticas de respeito para a população LGBT, criança e adolescente, liberdade religiosa e demais segmentos que sofrem com abusos.

A criação desses órgãos vai na contramão de um pensamento hegemônico e coloca em crise as estruturas sociais fundadas no privilégio de classe. As diversas políticas públicas que produziram inclusão social, como as cotas para negros e índios nas universidades públicas, as políticas de redistribuição de renda que possibilitou mobilidade social e o aparecimento da chamada nova classe média, marcos legais importantes como o Estatuto da Igualdade Racial que estabelece diretrizes para a implementação de políticas de inclusão social com recorte étnico, considerando a diversidade cultural do Brasil e a existência dos estranhamentos já mencionados, a lei 10.639/03 e a 11.645/08 que tratam do estudo da história e das culturas dos povos africanos e indígenas na educação como instrumento de construção e fortalecimento da identidade brasileira construída a partir da inclusão positiva desses povos na formação da sociedade brasileira, a inclusão digital compreendida como um direito de todas pessoas e não de alguns, a política de inclusão de pessoas com deficiência, a regulamentação da profissão de empregado doméstico e a concepção do espaço escolar como ambiente promotor do respeito ancorada na diversidade de gênero e da diversidade étnica foram algumas ações que mexeu com a cabeça conservadora de alguns setores da sociedade brasileira.

Como resultado, essas e outras ações produziram uma avalanche de reações dos grupos hegemônicos como forma de garantir a manutenção de exclusividade de “seus” espaços de privilégio, uma vez que agora outros segmentos sociais ocupavam esses mesmos espaços.

É nesse contexto que o Brasil está mergulhado. Uma feroz reação dos grupos conservadores e raivosos iniciam um processo de guerra de posição desgastando a todo e qualquer custo as políticas sociais importantes iniciadas no país. No entanto, é importante entender que a interrupção dessas políticas passa, necessariamente, pelo retorno das elites à condução do Estado brasileiro.

O cenário político atual descreve uma intensa disputa pela hegemonia da sociedade brasileira e aí o vale tudo ganha corpo. De uma hora para outra o brasileiro que nutre culturalmente a corrupção em seu cotidiano e que nunca se importou com os milhares casos de irregularidades em governos como os de FHC passa, subitamente, a se incomodar com as informações direcionadas e manipuladas pela grande mídia. O que poderia ser um grande avanço, um despertar do adormecido gigante esconde interesses de grupos e coloca em risco os avanços sociais alcançados até o momento.

É preciso ter clareza do momento que o país vivencia entendendo todos os aspectos que envolve a disputa política para colocar-se do lado dos avanços sociais e não permitir retrocessos nocivos para um estado de coisas já vivenciado pelos brasileiros. Mudanças são necessárias, no entanto, essas mudanças devem apontar para o aperfeiçoamento da democracia que se faz com inclusão social e respeito pela diversidade entre as pessoas.

 

 

 

*É sociólogo e autor dos livros Polícia e Estigma: a construção do sujeito desviante e Movimento Social Negro e Estado: a política pública como resultado dessa correlação.

 

Fonte da imagem: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/dilma-rousseff-anuncia-mais-sete-ministros-para-seu-governo

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