A matriz africana e um breve olhar na história - Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas Tribuna Hoje - O portal de notícias que mais cresce em Alagoas

Blog | Carlos Martins

Mônica Carvalho de Almeida Autor Mônica Carvalho de Almeida

Por Mônica Carvalho de Almeida*

 

“Minhas conchinhas de prata-ta,

                                               tá no fundo do mar.

                             Salve a minha Mãe Oxum, Oh Yé Yé!  (eu cantava ô lêrêrê)

                                             Salve a Princesa Yemanjá.”[1]

 

            Ela era gostosa. Hoje quando lembro, crio em minha cabeça uma sensação de conforto. Eu deveria ter por volta de meus 4 anos. Foi a primeira vez que ouvi essa música e nunca esqueci essa letra. Era mágica. Deslumbrava a minha criança, mas eu vivia num ambiente em que esse deslumbre era despercebido, não por ela. Dona Isaura. Uma preta do Nagô[2] que trabalhava em casa de minha avó, Zé. Todas as tardes quando acordava do sono às 15h, eu corria pra copa de fora. Ela olhava em volta como se procurando para ver se tinha alguém nos “cubando” e cantava enquanto eu dançava pinotando feliz da minha vida.

Por outro lado, eu adorava quando as sacramentinas me vestiam de anjo nas missas de Páscoa, ou dia das Mães. E adorava as aulas de religião e gostava também quando a vovó Cila me falava dos irmãozinhos desencarnados que eu nunca entendia quem eram. Um dia eu os vi e passei a acreditar que eram tão reais quanto eu. Ah, e como não lembrar dos caboclos, marujos e mestres juremeiros que passeavam lá por casa em reuniões de mesa. Era tudo uma maravilha. Encantos que se mesclavam em minha cabeça de criança que agora já tinha seus nove para dez anos.

Um bom tempo se passou e eu tendo a sorte de estar numa família onde liberdade de culto nunca fora questão de discussão, pelo contrário, alguns católicos que abertamente se consultavam com entidades e até me traziam recados, como minha vó, Zé. Rezadeira forte de tirar quebranto e mal olhado com galhos de quebra pedra e pião roxo, e reza passada pela sua mãe, a velha Dondon, reza esta que por muitas vezes me restituiu o apetite e a esperteza.

Nunca me vi apta a viver sem crença, sempre acreditei que de algum lugar iria surgir algo que eu verdadeiramente me identificaria, que dentro de minha cabeça ajustasse todos os pontos e que eu pudesse dizer, existo aqui. Daí, passei a olhar para o mar e o mar me falava coisas que só no Tempo encontraria o caminho. Então, eu te digo, sou uma mulher de muita sorte e de ricos encontros. Consegui entender e encontrar o mar em mim. Eru Yá!

Sinto-me assim como uma das obras de arte de Dona Guiomar, mãe de Miryan[3], ela sabia como ninguém juntar retalhos, era um primor! Todos cortados do mesmo tamanho, devidamente engomados, passados e reunidos tomando outras formas e tamanhos diferentes. Assim aconteceu comigo ao conhecer o Ilé Axé Legioniré Nitó do Xoroqué. Uma casa antiga, simples, no bairro do Poço. Um babalorixá inteligente, simpático e com uma capacidade de trazer em mim a experiência mais rica que já passei.

Meu corpo vibrou no chão daquela casa, o mar que me levou até lá me disse nas palavras do Babá de uma forma bem íntima: você tem o rio e o vento dentro de você, as águas revoltas dos rios é onde suas energias são carregadas e assim as pessoas te definirão. Você chegou nesse mundo para lutar e tudo isso inicia agora. Era setembro de 1994.

Posso aqui afirmar que o Candomblé definiu minha vida em todos os sentidos, saber que estou ali (na nossa crença nós somos chamados pelos Orixás) por ter uma ancestralidade africana e me situar dentro de um determinado sistema cultural, me deu a exata noção do que é ser filha e consequentemente mãe, essa tradição me situa como cidadã, e é, nesta definição de cidadã de matriz africana que apresento meus préstimos como integrante do Ilé, ou para ser mais clara, a busca dos direitos sociais das Comunidades Tradicionais de Matriz Africana está em mim colocada como missão, ou melhor, como interesse direto de meu trabalho enquanto assistente social e meus estudos.

 Acredito que aqui se faz necessário uma pausa para refletir algumas questões, a primeira é: quem somos nós? Seguimos os preceitos do Candomblé e cabe colocar que estes estão além da religiosidade. Sim, ela é nossa base. Nos agrupamos através dela, da crença nos Orixás. Essa crença foi desenvolvida aqui no Brasil através da cultura religiosa dos povos africanos escravizados. É interessante que o Candomblé é uma religião sincrética, nele encontramos elementos indígenas, africanos de diversas etnias e cristãos, especialmente católicos.

Talvez seja no catolicismo que se encontra as maiores atrocidades contra a cultura africana, os escravizados eram obrigados à conversão sob pena de não serem reconhecidos como pessoas humanas e mesmo cedendo a esta conversão de fé, a Igreja Católica, principal braço do Estado português, não lhes garantia liberdade. Assim, a ancestralidade foi obrigada a sincretizar seus orixás com os santos católicos e com isto embranquecer as divindades africanas. O que naquele momento era um movimento de resistência, uma ferramenta de luta pela manutenção da cultura africana no território brasileiro e de dominação portuguesa. Isto hoje se confunde na cabeça de alguns adeptos como benesses. É fácil encontrar religiosos de candomblé falando do quanto é simples, verdadeiro e de uma pureza única o amor cristão e de quanto a Igreja Católica nos permitiu a continuidade de cultos e exercícios de fé, assim nasceu o “negro de alma branca”, ou para ser exata – o negro cristão.

Como dito anteriormente, as unidades de resistência seguem para além da fé. As comunidades religiosas em seus limites de território desenvolvem um sistema de administração e político completamente diferenciado. Nestes espaços, negros, índios e mulheres exercitam papeis de comando, exercitam o poder, ação esta que vai de encontro com a cultura do colonizador português.

Pode-se dizer que as questões etnocêntricas se apresentam aqui como fator determinante no subjugo da cultura africana pela cultura europeia e esta relação segue a história da formação do Estado brasileiro adentro. Com a abolição da escravatura a população negra foi direcionada as periferias dos centros urbanos em formação, suas manifestações culturais proibidas. O Estado conduzido pela elite branca lhes negava espaço e sentenciava a falta deste como crime a exemplo do acesso a moradia, ou trabalho, que definia a ausência de atividade laboral e/ou residência fixa como crime de vadiagem.

   “Eu vi de perto uma nação chorar,

homens a se banhar com o sangue do meu povo,

 vi tia Marcelina acreditar que tudo ia mudar.[4]

 Terreiros são invadidos, assentamentos de Orixás e imagens de Pejis são quebrados, religiosos mortos no território brasileiro e em Alagoas uma população praticamente dizimada. Isso me lembra dum passeio pela sociologia que fiz com Carlos Martins lá pelo capítulo 2 de seu livro “O Movimento social negro e o Estado”, onde ele me leva a pensar na política de branqueamento como base para as ações dos “quebras” dos terreiros em 1912.

É fácil entendê-lo, assim, quando passamos a considerar que é nos terreiros de candomblé que se encontra todo fundamento da cultura negra no Brasil. Nesse sentido, como não considerar se é no ano de 1911 que João Batista Lacerda coloca a possibilidade do desaparecimento do negro, projetando que em um século a população brasileira corresponderia a seguinte formação racial: 80% branca, 17% indígena, 3% mestiça e 0% negra. Hoje, 2015, 104 anos após, a população negra brasileira é de 50,7%, ou seja, a maioria o que nos faz a segunda maior nação negra do mundo e a maior fora do continente africano. E mais, sobre o fato da migração da população negra para regiões distantes dos grandes centros ele, o Lacerda, nos coloca a afirmação de que “o negro se espalha pelas regiões menos povoadas, e tende a desaparecer de nosso território, como uma raça destinada à vida selvagem e rebelde à civilização.” Foi esta estratégia utilizada com as casas religiosas nas terras daqui em 1912.

“Eu vi Zumbi jurando guerra,

vi Ogun a comandar,

nossa história não se perdeu,

o desamor não nos venceu”.

 Como isso se dá a gente entende ouvindo Ulisses Rafael no seu “Xangô rezado baixo: religião e política na primeira república, que nos conta sobre o evento do Quebra, iniciado no dia 1 de fevereiro de 1912. Ulisses trata também do discurso do silêncio sobre o negro alagoano. Até onde sei daquilo de que não trato é por que não existe, ou assim espero que o outro compreenda. E isto nos coloca de forma mais clara a questão da política do branqueamento, pois se é assim para que registrar a presença? Ao desaparecer que seja por completo, no aniquilamento não existe rastro de memória. De certo, é, que um deus só existe se rezo para ele caso não, como perpetuá-lo na condição de divindade?

“Os tambores se calaram,

rezei baixo pra não morrer,

o silêncio de uma fé

 é a catequese de um poder”.

  Porém, o traço de resistência se afina, mesmo cedendo a força, busca-se estratégias de sobrevivência. Envultar-se, se tornar invisível passa a ser vital para a continuidade de cultos, ouso até a dizer, apenas por uma lógica de observação, que embranquecer os cultos fora necessário e isso, que fique claro, não foi benesse cristã, assim a prática religiosa de matriz africana em Alagoas passa a ser desenvolvida de forma marginal, assumindo para si uma formatação pautada na concepção cristã do entendimento de feitiçaria e sortilégios e com isso esquecendo de requerer direitos legítimos.

O que causa espécie e sentido de observação é o fato de todas as manifestações culturais de matriz africana terem sido reabsorvidas pela sociedade brasileira e consolidadas pelo Estado como patrimônios culturais: a capoeira, o samba que é apresentado como ritmo característico da musicalidade brasileira, a culinária, blocos afros, maracatus. Porém, a religiosidade continua à margem e, assim, as religiões de matriz africana passam despercebidas ao poder público e seus adeptos durante todo este período são destituídos de direitos.

Hoje, quando se busca preencher este hiato de atenção do poder público é sempre colocado como argumento de negação a esta relação a laicidade do Estado, mesmo considerando que na atual composição do Congresso Nacional encontra-se uma parcela significante de religiosos cristãos católicos e evangélicos. Além de encontrar nas repartições públicas símbolos religiosos tradicionalmente ligados as religiões de matrizes europeias. Desta forma, passa a existir a necessidade de organização do chamado Povo do Santo, ou Povo do Axé. Esse sentido de organização não acontece de forma isolada em Alagoas, porém, por aqui vários pontos de afirmação são dados e o estado avança no sentido do reconhecimento em relação a outras unidades federativas.

A mais ou menos 14 anos, técnicos do governo de Alagoas iniciam um trabalho de organização dos religiosos, o que vem a se tornar a Rede de Terreiros de Alagoas. Vale ressaltar que esse trabalho começa a tomar forma pelo fato destas pessoas estarem comprometidas com o movimento social negro de Alagoas e de religião de matriz africana.

Babas e as Yás não se aparamentavam. Era muito escondido, acanhado. Ora busquemos a lógica: os aparamentos são as indumentárias características de “pais e mães de santo”, um dos signos que define publicamente a africanidade do Povo do Axé. Assim, se por gerações esse povo escuta que tudo o que acreditam está na condição de maldito, demonizado, ele passa a se compreender como tal. Logo, mais uma vez é necessário negar sua fé e se toma para si uma postura de negação em público ao se apresentar com uma fragilidade na voz que timidamente se coloca quando questionado sobre a religiosidade e a resposta sai perdida assumindo o “espírita”. Novamente, aqui, temos a sobreposição de uma religião cristã sobre a de matriz africana. Atitude esta que faz com que a religiosidade de matriz africana apareça como minoria na população brasileira nos censos acentuando e fundamentando a condição de invisível social.

“Hoje meu Xangô é rezado alto,

ninguém cala a nossa fé,

no ilê eu bato cabeça

e pro mundo eu canto sou o candomblé.

Nossa chama está acesa,

 tem fio de conta e tambor pra falar

que nós somos a resistência a própria justiça.”

  O fato é que profissionais comprometidos conseguiram trabalhar duas das principais questões que fragilizavam os religiosos do candomblé de Alagoas: a elevação da auto-estima desses sujeitos que hoje se apresentam de peito aberto, postura altiva e com um olhar que demonstra força, orgulho e que desfilam seu Aso[5], dizendo-se publicamente “Eu sou do Axé” e a ausência de unidade de entendimento desse povo como segmento. Uma das “desculpas” mais utilizadas por aqueles que deveriam ou devem trabalhar com os religiosos ou ainda dos que se aproveitam da religiosidade para benefício próprio é a de “ ser muito difícil trabalhar com este povo, eles são muito desunidos”.

Toda esta ação resultou na formação da Rede dos Terreiros de Alagoas que hoje possui uma capacidade de discussão e reivindicação junto ao poder público. A cada ano a Rede avança nas suas possibilidades de trabalho e hoje a religiosidade de matriz africana é titular de duas cadeiras no Conselho Estadual da Igualdade Racial.

Enquanto o executivo estadual avançava no processo de reconhecimento da religiosidade, o poder municipal neste período, gestão do Prefeito Cícero Almeida, retrocedia com uma perseguição às práticas religiosas. A cena se agrava no ano de 2011, quando a prefeitura municipal de Maceió restringe o espaço da orla marítima para a louvação e comemoração do dia de Iemanjá, 08 de dezembro, e libera o espaço para um show evangélico nesta mesma data. O fato faz com que a Rede Organizada se mobilize e busque o Ministério Público Estadual, consiga o apoio dos advogados Adriano e Alessandre Argolo e represente a prefeitura municipal de Maceió em 2012. Um ato público foi montado no Fórum da Capital para marcar o fato, onde segmentos do Movimento Negro, simpatizantes da religiosidade de matriz africana e a Pastoral Negra da Igreja Batista do Pinheiro estavam juntos na manifestação e colocaram publicamente o seu apoio.

Neste mesmo ano a Rede de Terreiros representada por quatro casas religiosas – Ilé Axé Iemanjá Ogunté, Ilé N’Ifé Omi Omo Posú Betá , Ilé Axé Legioniré Nitó do Xoroqué e o Centro Espírita Umbadista Ogum Nage, levassem a Assembleia Legislativa um Projeto de Lei que vem a ser aprovado no ano de 2012 a Lei 7.384 de 12 de julho de 2012 que institui no calendário oficial do Estado de Alagoas o Dia de Resistência da Religiosidade Afro-Brasileira – Dia de Iemanjá a ser comemorado no dia 8 de dezembro de cada ano, publicado em Diário Oficial do Estado de Alagoas em 13 de julho de 2012.

Foi também no ano de 2012, o pedido de perdão oficial do Governador do Estado aos religiosos de Matriz Africana de Alagoas pelo episódio do Quebra de Xangô de 1912, o que podemos considerar como uma das principais ações afirmativas para os povos de matriz africana de Alagoas. Acontece que o Decreto governamental passa a figurar como uma ação isolada, neste momento o governo do estado deveria ao menos se preparar para um pacote de ações de enfrentamento ao preconceito, a discriminação e ao racismo religioso, o que não aconteceu.

Vale o registro que o “Xangô rezado alto” é um evento da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL e por dois anos trabalhou com a população de Matriz Africana alagoana visando o empoderamento desta população como estratégia. Em 2012 e 2013 a UNEAL além do cortejo de religiosos e simpatizantes no centro da cidade chamando atenção para intolerância religiosa produziu o I Congresso de Cultura Afrobrasileira onde se discutiu as questões históricas do povo religioso de matriz africana em alagoas; I Seminário de Políticas Públicas e ações afirmativas para o Povo do Axé; I Encontro da Juventude de Terreiros e premiações que visavam o fomento da produção cultural de matriz africana. A grande questão é que a UNEAL escolheu como público alvo apenas o “Povo do Santo”, gestores públicos não foram convidados para os eventos e, assim, não se conseguiu sensibilizar técnicos e gestores, tornando o evento o único momento onde o governo do estado pensou e discutiu tais questões. Hoje, o Projeto Xangô rezado alto encontra-se sob gestão da prefeitura municipal de Maceió.

Na esfera do governo federal, o “Povo do Santo” organizado atinge o reconhecimento como Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, o que lhes permite o diálogo com o poder público isento do teor religioso e assim, é traçado e lançado em 19 de janeiro de 2012 o I Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável para os Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. Porém, após três anos de seu lançamento o Plano ainda não foi implementado, nem direcionado para as instâncias estaduais.

Desta forma, cada membro, cada unidade, cada território, cada comunidade tradicional de matriz africana se desenvolve como espaço de resistência e agora seguem buscando ocupar o espaço negado durante esses cinco séculos. Essas comunidades, esse povo, necessita ser visto, acolhido e considerado como sujeito de direitos que são. Ações simples podem ser executadas com o intuito de minimizar o déficit social para com esta população, nada mais ou menos que atender a legislação. Atender ao Direito a Consulta Prévia no momento das escolhas de gestores e técnicos que deverão fazer interface com as Comunidades; A implementação da Lei 10.639/03 nas redes municipal e estadual de ensino; oficinas sobre o racismo com ênfase no racismo religioso visando preferencialmente às repartições públicas, em especial as policiais já seria um bom inicio de conversa.

 

*Yalorixá, mestranda em sociologia no programa de pós-graduação do Instituto de Ciências Sociais da UFAL e bacharel em Serviço Social.

[1] Música de domínio público do repertório do Candomblé Nagô de Alagoas saudando Yemanjá.

[2] Nação do Candomblé bastante frequente no cenário alagoano

[3] Miryan é esposa de meu Pai e sua mãe, D. Guiomar era uma das artistas mais extraordinárias que conheci. Ela tinha o poder da composição dentro dela. As cores e as formas.

[4] Letra da Música “Rezando Alto” da compositora e intérprete alagoana Luana Costa. A partir de agora esta música irá pontuar essa nossa conversa.

[5] Aso – roupa e indumentária do Candomblé.

Facebook