Ailton Villanova

8 de junho de 2018

“Rala-e-rola” no xadrez

Ainda garotões, os jornalistas Jorge Oliveira (prêmio Esso de Reportagem, documentarista, marqueteiro político prestigiadíssimo e escritor) e Valter Lima (hoje aposentado do jornalismo, mas atuando como comerciante no Recife) constituiram a dupla de repórteres-policiais mais debochada de todos os tempos. Aprontaram horrores. Mas sempre foram eficientes no exercício da profissão. Boêmios incorrigíveis, inventavam a notícia quando ela estava em falta.

Meados da década de 60. Uma noite de junho, eis que os dois perambulavam pela orla da Pajuçara, puxando o maior fogo. Já tinham tomado todas, no outrora famoso Bar Gaivota, de propriedade do boa praça Olival Lourenço da Silva. Caminhavam a pé, com a pretensão de regressarem aos seus respectivos lares, quando se deram conta que estavam na praça Dois Leões, no Jaraguá. Nessa época, a Delegacia de Polícia do 2° Distrito funcionava em frente a praça. Aí, resolveram entrar lá. No saguão, encontraram um sonolento agente de plantão, que babava sobre o tampo da mesinha da recepção.

– Boa noite! – cumprimentou o Valter.

– Bom dia! – respondeu o policial, esfregando os olhos. – Já passa da meia-noite.

– Tem algum preso no xadrez? – indagou Jorge Oliveira, com a língua mais grossa do que papel de enrolar prego.

– Tem aí duas raparigas que foram presas na avenida da Paz…

Valter Lima alegrou-se, piscou pro parceiro e, em seguida, perguntou ao policial:

– A gente podia fazer uma entrevista com elas?

– Só se for rápido, porque estão incomunicáveis, de ordem do delegado!

– A gente não vai demorar nada!

Cheio de boa vontade, o policial acompanhou os repórteres até a carceragem e fez a besteira de abrir o xadrez onde as putas se achavam recolhidas, a fim de que os repórteres as entrevistassem mais à vontade. Em seguida, voltou ao seu lugar, onde tentou dar prosseguimento ao ronco interrompido. Mal fechou os olhos, foi novamente acordado por uma voz autoritária:

– Êpa! Dormindo em serviço, rapaz?!

O agente deu um pinote e, assustado, encarou o inconveniente. Era o delegado titular da DP, Walter Moreira da Silva.

– Ôpa, doutor! O que é que o senhor está fazendo aqui esta hora? – indagou o policial todo sem jeito.

E Walter Moreira:

– Você sabe o que é uma “incerta”, rapaz?

– Sei não, doutor.

– Pois é o que eu estou fazendo agora! Sem avisar, vim ver se está tudo em ordem por aqui.

No que fechou a boca, o delegado escutou um barulho estranho na carceragem. Pareciam risadas, misturadas com gemidos.

– Que diabos está acontecendo lá dentro?

E o agente de plantão, todo escabreado:

– Ah, doutor… ia esquecendo de lhe contar… Tem aí dois repórteres fazendo uma entrevista com aquelas duas senhoras presas…

– O quê?! Repórteres?! Entrevistando?!

Walter Moreira foi lá conferir. A porta do xadrez estava escancarada e dentro da cela malcheirosa e escura, aquele desmantelo! Os irreverentes repórteres, abufelados com as mariposas, embolavam no chão imundo.

– Bonito, né, seus safados? Logo no meu xadrez uma degeneração dessas!…

Do meio da confusão de pernas e braços surgiu o Jorge Oliveira segurando as calças:

– Olha la, delegado! Não é o que você está pensando, não!

– Não? Por acaso vocês estão rezando?

– Também não é assim. Apenas estas pobres criaturas estão nos mostrando como é que fazem para ganhar a vida difícil que levam!

Walter Moreira, que era um delegado durão, mas possuidor de um coração imenso, perdoou os infratores.

Daí a pouco, os dois casais deixavam a delegacia abraçadinhos, para concluirem a curtição na praia, com direito a banho de mar na base do “Adão e Eva”.

 

 

O fedor era do sanitário!

 

Ao chamado trio “Os terríveis”, formado pelos jornalistas José Machado e Edvaldo Alves e pelo radialista Nascimento Suassuna, veio juntar-se, na antiga Rádio Educadora Palmares de Alagoas, o locutor, rádio-escuta e plantão esportivo Antônio Oliveira, que tinha acabado de se desligar da Rádio Globo do Rio de Janeiro. Aí, a vida do boníssimo padre Fernando Iório Rodrigues, que era o diretor geral da emissora, esteve bem perto de virar um inferno.

Os quatro quase demoliram a Palmares, que era patrimônio da Arquidiocese de Maceió. Se Fernando Iório, que veio a falecer exercendo o cargo de bispo emérito da Diocese de Palmeira dos Indios, não tivesse um coração forte, certamente teria embarcado para o paraíso celestial, pelo menos uns 30 anos antes, por conta de um infarto.

Daquele quarteto sobrou apenas Edvaldo Alves, meio aposentado da radiofonia.

Fui diretor desses ilustres companheiros e, portanto, testemunha ocular das estripulias praticadas por eles. Vou conta uma. A mais levezinha.

Começo de noite de uma sexta-feira, o ambiente estava tranquilo e calmo na Rádio Palmares. Do referenciado quarteto apenas se achavam presentes o Nascimento Suassuna e o Antônio Oliveira, porque estavam escalados para apresentarem a resenha esportiva das 6 e meia.

Encontravam-se os dois, então, lado a lado no estúdio, aguardando o sinal para entrarem no ar. O sonotécnico, que era o José Barbosa (não confundir com o finado diretor da Rádio Gazeta), lançou a característica do programa e abriu o som para os microfones dos ilustres parceiros. Nesse momento, o contínuo Agenor Bastos, o “Mingáu”, achou de abrir a porta do sanitário, que ficava no final do corredor, e a metro e meio da cabine de locução. No que Mingáu escancarou a porta, um fedor terrível invadiu o ambiente. É que, nesse e nos demais sanitários do primeiro andar, estava faltando água havia um e meio, por defeito na instalação hidráulica.

No local, o ar ficou irrespirável. Aí, Nascimento Suassuna que iníciara a leitura do primeiro texto da resenha esportiva, deu uma engasgada, fez uma pausa e falou baixinho, em tom de censura, pro Antônio Oliveira, ao seu lado:

– Você cagou, bicho!

Microfone aberto, o ouvinte não teve como deixar de escutar a observação do Suassuna.

Oliveira, que havia pensado a mesma coisa do colega, retrucou com a brabeza que sempre caracterizou a sua personalidade, sem se importar com o microfone aberto:

– Quem cagou foi o cu da mãe, seu fiadaputa!

A reação dos ouvintes foi de indignação. E não poderia ser diferente.

Durante 15 dias, os dois ficaram impedidos de falar aos microfones da Palmares. Determinação de minha autoria.

 

 

Cantor, nem tanto!

 

Falando ao microfone, o Luílton Roosevelt, noticiarista (hoje aposentado) da Rádio Gazeta impressionava. Aquele vozeirão. Quem o escutava transmitindo os boletins noticiosos da RGA logo imaginava ser ele tipo Márcio Canuto – grandalhão de 2 metros de tamanho. Deixa que o cara não passa de um baixinho de pouco mais de metro e meio. Entretanto, é gente fina demais. É um dos maiores caráteres do radialismo local.

Pois bem, o gogó do Luílton só atrapalha quando ele cisma de dar uma de cantor. É um terror!

Alta madrugada, o netinho que fora passar o final de semana na casa dele, não parava de chorar. Como todo bom e extremoso avô, Luílton levantou-se e foi ninar o garotinho. Pegou-o no colo e começou a cantar para ver se ele parava de chorar. Nisso, tocou o telefone e esposa, atendeu. Em seguida, falou pra ele:

– Lu, era o síndico!

– O que esse cara queria a esta hora da madrugada?

E a madame, bem tranquila:

– Nada não. Apenas, deu o recado dos moradores do prédio.

– Que recado?

– Eles estão pedindo, pelo amor de Deus, que você pare de cantar. Basta apenas o choro do garoto!

 

Com Diego Villanova