Ailton Villanova

13 de junho de 2018

UM LADRÃO DIFERENCIADO

Dezembro de 1960. Finalzinho de tarde, policiais de ronda flagraram um sujeito furtando galinhas em uma granja, lá pras bandas da cidade Marechal Deodoro, antiga capital das Alagoas. Pegaram o infeliz e o levaram à presença do delegado municipal, cargo que, à época, era exercido por militares. No caso em questão, a autoridade respectiva era o sargento PM intitulado David Pereira “caboco invocado.

– Vida mansa, hein, seu vagabundo? Furtando galinha pra ter o que comer sem trabalhar, não é? Botem esse safado no xilindró!

– Peraí, seu sargento! – pediu o acusado – Essas penosas eram pra vender.

– Pior. Venda de artigo furtado ou roubado é concorrência desleal com o comércio estabelecido. Xadrez nele!

– Mas eu ía vendê-las por muito mais caro.

– Ah, fiadaputa! Ía vender objeto de furto no câmbio negro, hein?

– Isso, seu sargento. Eu já tinha o terreno preparado: andei espalhando o boato que as galinhas da granja são todas doentes e as minhas são sadias; e que as galinhas dessa granja só botam ovos brancos e as minhas botam ovos marrons…

– Mas são mesmas galinhas, não são, canalha?

– São. Só que os ovos das minhas eu pretendia pintá-los…

E o delegado, já com certo tom de respeito:

– Que grande pilantra você é! Ainda bem que vai passar um bom tempo na cadeia. Já pensou se o dono da granja tem agarrado você?

– Pois ele já me pegou uma vez e aí eu e ele fizemos um acerto. Me comprometi não espalhar mais o boato sobre as galinhas dele, e ele então me garantiu aumentar os preços das suas penosas para ficarem iguais aos meus. Convidamos donos de outras granjas de regiões vizinhas e armamos um esquema. Formamos um ovigopólio.

– Foi meeesmo?! E o que você tem feito com o lucro do seu negócio?

– Especulo com dólar… Invisto alguma coisa no tráfico de drogas, que no futuro vai dar uma grana preta. Ah, também comprei alguns políticos! Consegui exclusividade no suprimento de galináceos e ovíparos para programas de alimentação do governo, com preços superfaturados, naturalmente.

Entusiasmado, o delegado mandou servir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira dele estava confortável. E acrescentou curioso:

– O amigo não me leve a  mal, mas com tudo isso você ainda não está milionário?

– Quase, meu sargento. Sem contar que eu sonego Imposto de Renda e toda a minha grana está depositada ilegalmente em bancos no exterior.

– E com tudo isso ainda continua furtando galinhas!!!

– Não como antes. É que em todas as minhas atividades eu sinto falta de uma coisa: o risco. Sinto falta daquela sensação de perigo de estar fazendo uma coisa proibida. Só furtando galinhas eu me sinto realmente ladrão, e isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou pra cadeia. É uma experiência nova.

– Mas o que é isso, meu amigo? – rebateu o delegado, sem esconder seu entusiasmo pelo cara. – Você não vai ficar preso porra nenhuma! Um cabra como você não merece ser preso!

– Mas eu fui pego em flagrante, pulando o muro da granja!

– Sim, mas, convenhamos, você é um ladrão primário. Cadê seus antecedentes, cadê? Não tem! Olha, meu filho, com toda essa sua aptidão para a desonestidade, você tem tudo para ser um político!

Tempos depois, o cara atuava muito mais à vontade, protegido por um mandato de parlamentar federal.

 

 

Fugir como, doutor?!

 

Professor Jailton Aquino, excelente caráter e perito criminal lotado no Instituto de Criminalística de Alagoas, sempre foi um  caboco destemido. Ingressou na polícia civil na década de 70. É respeitado também por sua postura ética e inquestionável inteligência.

Calouro na profissão policial, sua primeira designação foi para a antiga Dopse, que tinha também a atribuição de combater o jogo de azar.

Um dia, o delegado da especializada reuniu, de surprêsa, a equipe de plantão, incluindo aí o novato Jailton, e avisou:

– Atenção turma! Vamos fazer uma blitz na Feira do Rato, na Levada. A finalidade é flagrar os responsáveis pelo tal de “jogo perde-e-ganha”.

Esse joguinho é um roubo descarado. O dinheiro do incauto é tomado na cara de pau. A polícia tenta combatê-lo, mas não consegue.

Pois bem. Orientados convenientemente e organizados em grupos, lá se foram os agentes cumprir a missão. Chegaram ao local, onde ainda hoje a marginalidade pulula, começaram a tomar posições estratégicas. Doido pra mostrar serviço, Jailson Aquino manjou num velhote em atitude suspeita, encostado numa banquinha. Posicionou-se perto dele e ficou atento, aguardando a voz de comando do delegado, para agarrá-lo.

De repente, do meio da feira, alguém dedurou:

– Cuidado, negrada! A polícia está no recinto!

O trabalho policial foi frustrado. O que se viu de malandro infrator correndo no meio do povo, não está no gibí. E os policiais tentando capturá-los. Todos os suspeitos se escafederam, menos um, o tal velho, porque, na hora do grito, o eficiente Jailton abufelou-se com ele.

– O senhor está preso! Aqui é a polícia! Não corra!

E o coitado:

– Correr como, meu senhor? Eu sou aleijado!

 

 

O marido entendeu mal

 

Caminhando com alguma dificuldade, uma parturiente estacionou sua humilde pessoa na clínica do doutor José Carlos Sílver, o Grande Lalo, e pediu a atendente para ter uma conversa em particular com ele.

Introduzida no consultório do médico, a parturiente foi logo se abrindo:

– Doutor, está acontecendo uma coisa muito estranha, lá em casa!

– Como assim, dona Hermengarda?

– É que desde a última conversa que o senhor teve com o meu marido Ernesto no centro comunitário, ele mudou completamente a maneira de fazer amor comigo!

– Mudou?

– Mudou, sim.

– Mas mudou de que maneira?

– Ele agora inventou de me pendurar no teto. Pensei que era alguma fantasia sexual, mas ele me contou que a idéia foi do senhor!

E doutor Lalo, alarmado:

– De jeito nenhum! Eu apenas disse a ele que depois do oitavo mês de gravidez as relações devem ser suspensas!

 

Com Diego Villanova