Ailton Villanova

15 de Maio de 2018

O TRÁGICO FIM DE UM CASAMENTO

O Leopoldino Gastroso inventou de comemorar os 10 anos de seu casamento com a cara consorte Etelvina de uma maneira mais incrementada:

– Meu amor, que tal a gente curtir as nossas bodas matrimoniais num motelzinho bem aconchegante?

– Num motel, meu filho?! – espantou-se a madame.

– Claro, claro! Numa boa! Precisamos sair da rotina, amor.

Dona Etelvina pensou, pensou e, finalmente, topou a parada.

E os dois tiveram uma noite de amor inesquecível. Maravilhosamente inesquecível!

Dia seguinte, ainda embevecida com o embalo das últimas horas, madame foi despertada pelo tilintar do telefone. Atendeu e uma voz feminina sapecou de lá:

– Tá sabendo da última? Você está sendo chifrada pelo seu marido…

– Quem é que está falando? Identifique-se, por favor!

– Aqui é uma amiga. Desculpe se não me identifico. Eu só queria lhe avisar que o seu santo marido foi visto, ontem, saindo do Motel “O Amor é Lindo” com outra mulher. Abra o olho!

E desligou.

À noite, Leopoldino voltou pra casa, todo contente, feliz da vida:

– Oi, amor da minha vida!

A mulher rebateu cheia de bronca:

– Deixe de ser cínico! Estou sabendo que você foi visto, ontem à noite, com uma mulher num motel!

E ele:

– Mas é claro! Estive lá com a mulher da minha vida: você! Já esqueceu?

– Maldita hora que aceitei ir para o infeliz daquele motel com você! Se arrependimento matasse…

– Não exagere, meu amor!

– Exagero, sim. Agora, a cidade inteira está comentando e eu aqui, com cara de otária!

– Mas o que é isso, meu amor? Você não foi traída e nem enganada coisa nenhuma! Eu estava com você!

– É, mas o povo não sabe disso. Hoje eu recebi o primeiro telefonema anônimo e fiquei com a cara no chão, desmoralizadíssima! Vou ter que lhe deixar!

Leopoldino apavorou-se:

– Não acredito! Você vai me deixar por causa de uma besteira dessa?

– Vou, sim!

– Mas meu amor…

– Me largue! Estou decidida. Se eu não lhe deixar, o que não dirão as minhas amigas, hein?

– A gente conta a verdade pra todo mundo.

– E quem vai acreditar? Nada feito! Depois o meu advogado lhe procura.

– Advogado?

– Já liguei pra ele. É o doutor Cordeiro Lima. Ele vai se acertar com você. Adeus!

Ao dirigir-se para a porta de saída, onde já se achava empilhado um monte de malas e maletas, Etelvina parou no meio do caminho, porque o telefone começou a tocar. O marido foi mais rápido. Pegou o aparelho e disse:

– Alô?

– É o Lepoldino? – indagou uma voz cavernosa.

– É, é ele. Quem quer saber?

– Um amigo. Liguei só pra lhe dizer que viram sua mulher saindo do Motel “O Amor é Lindo” com um cara. Segura as pontas, bicho!

Calado, e mais branco do que cera de vela, Leopoldino repôs o fone o gancho. Cheia de curiosidade, a mulher perguntou:

– Quem era?

– Um anônimo. – respondeu – Disse que viram você saindo do motel, com uma cara…

Etelvina exasperou-se:

– Mas o homem era você, Leopoldino!

– Eu sei, mas não fui identificado.

– E por que não disse que era você?

– Pra quê? E ele ia acreditar?

– E agora, o que a gente faz?

– A gente se separa.

– Separar?

– É. Já que você estava indo embora, pode ir! Não posso conviver com uma mulher que vai pro motel com um desconhecido. Ser chamado de corno não dá pra mim. Se manda!

Etelvina atirou-se na linha férrea, sob as rodas de um trem e Leopoldino deu um tiro na própria cabeça.

 

 

Chifrou, virou heroína!

 

Eurídice sempre foi uma mulher certinha. Em todos os sentidos. Jamais havia lhe passado pela cachola a ideia de chifrar o maridão Moézio, tido e havido como gente muito fina. Entretanto, depois que ela conheceu o bonitão Raymundo Malvino, colega de trabalho do Moézio, seu juizo deu um nó e o coração começou a bater fora do compasso. Amor à primeira vista.

Gostosuda pra mais da conta, é claro que ela não deixou de ser percebida pelo tal Malvino, cuja fama sempre foi a de conquistador barato. De modo que passou a ser assediada pelo cara. Um dia, ela não conseguiu resistir às cantadas do safadão. Mas, com restrições: nada de encontro em motéis, e nem xumbrego dentro do automóvel do cara.

– Sou um mulher séria, Malvino. Essa é a primeira vez que estou sendo tentada a trair o meu marido…

E o cara, cheio de más intenções:

– Jamais pensei em lhe faltar com o devido respeito, minha querida. Como sou um cara solteiro e moro sozinho, nosso  ninho de amor será o meu apartamento. Tá bom assim?

– E se o Moezinho descobrir, Malvino? Acho que ele me mata!

– Descobre nada. Mata nada.

Aí, veio o dia do primeiro encontro dos adúlteros. Muito nervosa, e sob o pretexto de ir ao shopping, Euridice foi ao encontro do conquistador. Pegou dois ônibus e três taxis, para despistar.

Protegida por um par de oculos escuros, Eurídice desembarcou em frente ao prédio onde residia o Raymundo Malvino e entrou lá, tremendo de medo. Afinal, era neófita no barato da corneação.

Finalmente, ela se viu nos braços do guapo mancebo. Longe dos olhares curiosos e das línguas malditas, os dois enroscaram-se na cama, aos beijos e abraços, nus como nasceram. Quando estavam partindo para os “finalmentes”, escutaram o baticum na porta. Apavorada, Euridice pulou da cama e caiu no meio do quarto. De olhos arregalados e coração aos pinotes, ela gemeu:

– É o meu marido!

E o Raymundo Malvino, mal se equilibrando em cima das canelas:

– O Moézio??? Não pode ser!!! Com certeza é o carteiro!

Novas batidas na porta. Dessa vez com mais vigor.

– Abram a porta! Aqui é a polícia! – berraram do lado de fora.

Eurídice desmaiou. Nesse momento um monte de soldados invadiu o apartamento. De venta acesa e de arma em punho, o comandante da tropa indagou:

– Cadê o Pé de Galo? Onde está ele?

– Que Pé de Galo, meu amigo? – respondeu Malvino. – Só estamos aqui eu e a minha noiva…

E o milico-chefe insistindo:

– Quero saber onde está esse bandido! Ele entrou pela janela dos fundos. O Pé de Galo é um bandido perigoso. Ele acabou de assaltar um banco nestante! Ele está aqui!

De lá de dentro uma voz falou:

– Atenção polícia! Eu estou aqui. Tenho uma refém comigo. Por sinal,  muito da gostosa. Me deixem sair numa boa, do contrário ela morre!

E Eurídice, peladona, protegendo a parte pudenda com as mãos, foi arrastada pelo bandido até a sala, sob a mira de uma pistola. Nesse momento, um monte de repórteres e fotógrafos de jornais, locutores de emissoras de rádio, além de cinegrafistas de tudo quanto foi de televisão, invadiram o apartamento. Eurídice foi flagrada pelas câmeras naquela situação constrangedora.

E milhares de aparelhos de Tv ligados, mostrando tudo, ao vivo e em cores. Na casa de Eurídice, as crianças gritaram:

– Olha a mãinha na televisão!

Eurídice só voltou pra casa no outro dia, pronta pra tudo. Inclusive, para enfrentar o supremo sacrifício da morte.  Os vizinhos a aplaudiram como uma heroína. O maridão, cheio de orgulho e vaidade, a recebeu aos beijos e abraços:

– Gostei de ver, meu amor! Você estava muito melhor do que a Vera Fischer naquele filme “Toda Nudez Será Castigada”!

Euridice, que não esperava tanta demonstração de amor e compreensão do maridão, estatelou-se no chão, acometida de infarto. A surpresa e a emoção foram fortes demais.

 

Com Diego Villanova