Ailton Villanova

3 de Maio de 2018

Pensou errado, mas consertou!

Ano de 1936.

A época era aquela em que Virgulino Ferreira, o indefectível Lampião, também festejado como o “rei do cangaço”, pontificava nos sertões de Alagoas, Sergipe, Pernambuco e Bahia. Ele e seu bando pintaram as canecas nessas regiões. Eram mais que respeitados: eram temidos. Com Lampião e sua patota o riscado era o seguinte: escreveu, não leu… era “caixão e vela preta”.

No auge das estrepulias de Lampião em terras alagoanas, instalou-se comercialmente no coração sertanejo um cidadão chamado José Levino, mais conhecido  como “Levi”, cuja bodega possuía de tudo. Ficava nas imediações de Dois Riachos, outrora distrito de Santana do Ipanema. Levi era evangélico, tinha a fama de sonegador de impostos e, às vezes, quando o momento ou a situação exigia, sabia ser valente.

Finalzinho de tarde de uma quinta-feira, encontrava-se Levi sentado à porta de sua bodega, “pegando uma fresquinha”, quando, de repente, riscaram na sua frente dois sujeitos a cavalo. Apearam-se, e o mais baixo dos dois foi falando, cheio de brabeza:

– Bota pra nóis duas cachaças e um tira-gosto de carne do Ceará!

Trêmulo de medo, Levi atendeu. O baixinho bebeu, estalou a lingua no céu da boca e aduziu:

– Agora, botaí mais uma, quié pra mode vosmicê bebê cum nóis. – ordenou o baixinho, que era caôlho e usava óculos.

– Posso não, meu amigo. Sou abstêmio. Sofro do fígado e sou crente. – respondeu o bodegueiro.

– Num tá interessando! Bebe, qui tô mandando, cabra! – insistiu o baixinho.

Não houve jeito e nem mais desculpas. Levi teve de beber a cachaça de uma golada só. Depois, mais uma, mais outra. No quinto grogue, Levi já estava com as orelhas frias e vendo o mundo meio embaralhado. Então, o baixinho completou:

– Vosmicê sabe cum quem tá falando, cabra?

– Sei não, senhor…

– Pois olha, cabra, eu sou o capitão Virgulino, o Lampião. Esse aqui do meu lado é o Corisco, meu braço direito.

Foi aí que ocorreu a reviravolta. De trêmulo, Levi passou a furioso. Pegou uma vassoura e saiu distribuindo porradas nos cangaceiros:

– Fora daqui, seus cabras safados! E eu pensando que vocês eram fiscais do governo!

 

 

Bate o carro com jeito!

 

Por insistência de dona Ismênia, sua dileta esposa, o açougueiro Petrúcio Anjualdo comprou um fusquinha 67, meio derrubadinho e chegou em casa montado no bicho, e parou na porta, falou para a madame:

– Pronto, mulher! Você num queria um carro? Olhaqui! Foi o melhor que consegui comprar, de acordo com as minhas posses.

E ela, de olho brilhando:

– Oh! Que felicidade, Pêu! Agora mesmo você vai me ensinar a dirigir!

– Agora?! – reagiu o marido.

– É, agora!

Que jeito? Petrúcio conhecia demais a cara metade. De modo que a pegou, botou no carrinho e se mandou pro Alto do Calmon, bairro Bebedouro. Chegaram lá, ele entregou o volante pra mulher e disse:

– Empurre o pé na embreagem e no acelerador ao mesmo tempo. Depois, passe a primeira marcha e vá tirando devagar o pé da empreagem. Isso! Agora, pise fundo no acelerador e vamos descer!

– Descer esse ladeirão, Pêu?

– É claro. Vamos, desça!

Dona Ismênia enfincou o pé no acelerador e o carro desembestou ladeira abaixo. No meio da dita cuja, a mulher começou a gritar, desesperada:

– Socorro, Pêu! O carro perdeu o freio! O que é que eu faço?

E ele, já abrindo a porta do passageiro, para pular:

– Sangue frio, mulher! Sangue frio!

– Sangue frio, como? Com essa ladeira enorme o carro vai se esborrachar lá em baixo!

– Capricha! Capricha, mulher!

– Caprichar como, Peuzinho?

Praticamente fora do carro, pronto para se atirar fora, respondeu:

– Olha, vê se bate de jeito pra salvar o rádio, os pneus, as calhas das portas, o volante, o porta malas, o motor…

 

 

Além de chato, folgado!

 

Não se pode dizer que o Eliofraldo é um sujeito do coração de pedra. Até que é um sujeito bom, mas, dele, malandro nenhum consegue arrancar um centavo, sequer, para comprar uma broa, porque é seguro demais quando o assunto é grana.

Certa feita, aí pelas 10 da manhã, ele caminhava pela Avenida da Paz quando foi abordado por um mendigo.

– Dá licença, cidadão? – disse o mendigo.

– O que deseja? – quis saber o Eliofraldo.

– Me arrume aí 10 reais!

– Qualé, rapaz? Dez reais? Tá maluco?

– Então, me dê oito!

– Sai pra lá!

– Me dá sete!

– Sete, o cacete!

– Seis.

– Já disse que não dou! Não dou!

– Me dá cinco. Cinquinho.

– Não.

– Dois.

– Nãããõoo!

– Um.

– Vai te lascar, vagabundo!

O mendigo fez uma pausa e depois disparou:

– Me carrega!

 

 

Como é que pode, meu?

 

O dia de sexta-feira no Bar do Duda, em Magabeiras, é bastante frequentado. Tem desses dias que não sobra um cantinho só para a negrada relaxar. Mas, naquela sexta 22, até que o ambiente estava desanuviado. Num cantinho, ocupando uma mesa repleta de garrafas vazias e alguns pratos de tira-gosto aguardando a vez de serem levados à pia, encontravam-se os populares Onzinaldo e Adalardo mandando pra dentro dos seus respectivos estômagos copos e mais copos de cerveja.

No salão, o televisor ligado transmitia o noticioso de famosa rede de televisão. Daí a pouco, o âncora entra com a seguinte informação:

– “Porta-voz do Itamaraty informou hoje que o governo brasileiro estará trazendo mais capitais estrangeiros para o país”…

Ao escutar a notícia, o Onzinaldo não conseguiu esconder a sua indignação:

– Você ouviu, Adalardo? Essa é de lascar! Maior irresponsabilidade do governo! Eu só quero ver onde é que vão  botar toda essa gente dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão…

 

 

Baixinho, cabeçudo e sofredor

 

O coroa ingressou num hotel cinco estrelas acompanhado de um jovem baixinho cabeçudo:

– Eu quero um quarto com duas camas. Uma pra mim e outra pro cabeção aqui!

Dito isto, o coroa sapecou o maior tabefe na cabeça do baixinho.

Minutos depois, na piscina, o coroa chemou o garçom:

– Me veja aí um coco gelado, um cheesebacon com ovos e uma salada pra mim… Pão com ovo e coca quente pro cabeção aqui!

Outro tabefe na cabeça do baixinho.

Na suíte do hotel, o cara falava ao telefone:

– Alô, Disque-massagem? Dá pra mandar duas garotas? Uma linda de olhos verdes pra mim… E uma mocréia pro cabeção aqui.

Mais um tapão na cabeça do baixinho.

Já de saída, na portaria do hotel, o coroa fala pro porteiro:

– Por favor, mande ir botando as malas no carro! Esta lindona é a minha! Esta esculhambadinha é do cabeção aqui! – e lascou mais um tapa na cabeça  do baixinho.

O porteiro não resistiu e perguntou:

– O senhor está aqui há três dias neste hotel e só faz maltratar o coitado desse baixinho. O que o senhor tem contra ele?

E o sujeito:

– Com todo o respeito… A sua esposa é gostosinha e apertadinha?

– É! – respondeu o porteiro.

– Pois a minha não é mais! Sabe por quê? Por causa desse cabeção filho da puta, aqui! – E lascou novo tapa na cabeça do baixinho.

 

 

Com Diego Villanova