Ailton Villanova

26 de Abril de 2018

Prendam o insolente!

O prefeito José Florisvaldo Bezerra, o proverbial Zé Flor reinou no Sertão alagoano. Analfabeto, atrabiliário, costumava dizer que a lei na sua região era ele! A seu respeito, as histórias são inúmeras.

Numa certa data de outubro de 1917, o alcáide estava aniversariando e seus puxa-sacos resolveram prestar-lhe uma homenagem de surpresa. De modo que programaram a referida para o turno da noite, na fazenda do aniversariante.

Avesso a esses tipos de manifestações, Zé Flor não pôde fugir da homenagem, cuja programação tinha até discurso. O orador requisitado para saudar o nataliciante foi um rapaz chamado Manuel Barros, recém formado em Direito no Recife, e que era mais conhecido como Barrinhos.

Grande promessa de tribuno forense, Barrinhos chegou à fazenda do prefeito Zé Flor montado num fogoso alazão. O mulherio presente se assanhou. Mil suspiros.

Por volta das 8 da noite, já era grande o número de convidados circulando na festa. Meia hora depois, começaram a cantar o tradicional “Parabéns pra você”, para, em seguida, escutarem a saudação ao aniversariante, àquelas alturas muito emocionado.

Terminada a cantoria, anunciaram a homenagem vernacular à Zé Flor. Em dois tempos arrumaram um caixote para, trepado nele, o Dr. Barrinhos poder destacar-se dos demais e exercitar sua oratória à vontade.

Doutor Barrinhos ajeitou o nó da gravata, temperou a garganta e subiu à tribuna improvisada. Estrugiram palmas e vivas. Em seguida, silêncio respeitoso, cheio de curiosidade. O advogado abriu o verbo:

– Caríssimo… insígne… ínclito e pleclaro prefeito José Flor: corpo espartano, peito de pomba e alma virgem!

O alcáide não esperou para escutar o resto do discurso. Fumaçando pelos buracos da venta, os olhos em vias de saltarem das órbitas, ele berrou na ponta dos pés:

– Prendam esse fedelho! Prendam ele com urgência, antes que ele acabe me chamando de “trêis-vêis-oito”!

 

A promessa do ladrão

Entre o final da década de 40 e princípios dos anos 50 existiu em Maceió um larápio danado de ousado conhecido como Xinxa, em cujos assentamentos pessoais constava chamar-se Amaro Franco dos Santos, nascido em Maceió.

Xinxa era um gatuno que dava um trabalho danado pra polícia, embora não fosse violento. Mas gostava muito de tirar quarto de hora com as autoridades. Orgulhava-se de nunca ter sido preso. Certa vez tentou justificar a sua sina:

– Sou ladrão por descuido da parteira. Quando eu nasci, ela deixou que o rato carregasse o meu umbigo. Aí, peguei a maldição!

Os furtos e arrombamentos a residências vinham se sucedendo no Farol, bairro da preferência do marginal e onde residia o comandante da antiga Guarda Civil estadual, Pedro Tenório Villanova, que era o cão do décimo livro em termos de brabeza.

Pedrinho Villanova não se conformava com a ousadia do Xinxa e prometeu à ele próprio que pegaria o meliante de qualquer jeito, e faria com o referido o que havia feito com outro ladrão: pregaria pela orelha, num poste da Praça do Centenário.

A antiga Delegacia Auxiliar de Polícia da Capital, que funcionava na Rua do Comércio, avolumava um monte de denúncias e reclamações contra o Xinxa, pela desenfreada roubalheira no Farol, onde também morava o governador do Estado. Sabedor da disposição de Villanova em dar um paradeiro nas ações marginais de Xinxa, nomeou-o sub-delegado de polícia, com a seguinte recomendação:

– Doutor Pedrinho, quero esse gatuno preso imediatamente!

Villanova caiu em campo na pisada do meliante. Descobriu onde ele  morava, que era no bairro Pinheiro, e bateu na sua porta. Uma senhora atendeu, e ele perguntou:

– É aqui que mora o Xinxa?

– É, sim senhor. O que deseja com ele? – indagou a mulher.

– Eu vim prendê-lo. Ele está aí?

– Tá não, senhor.

– Então me faça um favor: diga à ele que se apresente na delegacia de polícia do Farol, amanhã às 7 horas da manhã, em ponto. Obrigado.

– E se ele não for, doutor?

– Eu venho buscá-lo para pendurá-los pelos culhões no poste mais alto da Praça do Centenário.

Dia seguinte, quando chegou para trabalhar, Pedro Villanova foi avisado pelo guarda civil José Bezerra Quintella que o Xinxa havia se apresentado de manhãzinha e solicitado para ser guardado no xadrez.

Um mês depois, quando foi solto, Xinxa pegou um ônibus na rodoviária do Poço e viajou pra Recife, prometendo que jamais voltaria a por os pés em Maceió, pelo menos enquanto Pedro Villanova fosse autoridade nesta cidade. Cumpriu a promessa. Morreu esfaqueado por outro marginal, no Cáis de Santa Rita, lá mesmo, na capital pernambucana.

 

Com Diego Villanova