A Palavra em palavras

13 de Abril de 2018

O amor e o nascimento das desilusões amorosas

O amor e o nascimento das desilusões amorosas

Por Alisson Franciscoi

Quem já não viu ou mesmo sentiu na pele um impacto de crer viver num amor e ver uma paixão se esvair diante dos olhos? Então, como nascem as desilusões amorosas? Elas são boas ou más? É possível evitá-las? Essas e outras questões podem ser respondidas, antecipando, prevenindo, curando ou evitando feridas.

Algumas pessoas passam anos ou mesmo uma vida inteira na espera de que o outro seja assim ou assado, de se tornarem isso ou aquilo outro, de o que os olhos veem não ser a verdade profunda. Quem já não viu essa situação?

A questão básica a ser solucionada é justamente o que vem a ser amor e o que podemos entender como desilusão. Uma coisa leva à outra e é questão de tempo para que, no decurso do amor, as ilusões caiam, as desilusões aflorem e uniões ou rompimentos aconteçam. Aliás, como se verá, nesta reflexão, o amor gera rompimentos, a questão é outra: rompimentos com o quê?

Digerindo isso, tem-se como boa definição da compreensão de amor e união a explicação agostiniana do Papa São João XXIII:

Para unir-se é preciso amar-se.

Para amar-se é preciso conhecer-se.

E para conhecer-se é necessário ir um ao encontro do outro.

Da abordagem supracitada percebe-se que o conhecimento é uma condição necessária ao amor. De modo que a consequência lógica é que, sem o conhecimento, é possível ter vários sentimentos, dentre eles a paixão, mas não a realidade do amor. Ora, e quanto a o que chamam de “amor à primeira vista”?

De fato, há um certo conhecimento, tênue, na identificação do que os sentidos captam. Mas um mero olhar pode despertar um sentimento; porém, o amor não é mero sentimento, pois vai além do sentir, transforma o agir e realiza o ser. Um conhecimento vago é capaz de gerar um sentimento, mas não de transformar as estruturas da realização de um ser. Quanto mais se conhece mais se descortina o desenrolar do amor. A paixão pode querer para si, o amor só irá querer para si se for o melhor para a pessoa amada. O amor por outrem torna o ser capaz de despedir-se com lágrimas de felicidade; na paixão sem amor, despede-se com lágrimas de perda.

É neste ponto onde entra a questão do nascimento das desilusões.

Se há uma desilusão é porque houve uma ilusão. Uma ilusão pode ser originada por não conseguir ver, por ver de forma distorcida ou por distorcer o que se vê. Traduzindo, uma ilusão é sempre decorrente de uma inadequação entre o que se vê e o que, na verdade, é. Como isso ocorre?

Ora, o conhecimento humano é sempre limitado pelo tempo e pelas condições cognitivas de percepção. Assim, além do fato de não se ver, claramente, o que há nos corações das outras pessoas, há as próprias limitações a enxergar o interior do outro. De modo que, ao conhecer alguém, a pessoa tem a chamada primeira impressão, onde se gera no interior de si uma imagem do que se viu e que poderá corresponder, em parte, ou não corresponder à realidade sobre o que se viu. Quando se percebe que a imagem apreendida não corresponde com a realidade, percebe-se estar diante de uma ilusão, dando-se a desilusão (“des” + “ilusão” = “sem ilusão”). Quando o ver corresponde ao ser não há desilusão, mas há algo muito relevante: o mistério.

Por mais que uma pessoa seja clara para quem a conheça e a pessoa que a conheça busque não fantasiar sobre quem está conhecendo, a pessoa que se está conhecendo sempre tem algo mais a conhecer. O processo de conhecimento de uma pessoa passa sempre pelo mistério, inclusive o autoconhecimento. O outro tem sempre algo mais que nossos sentidos não captam e que pode surpreender, positiva ou negativamente. O conhecimento é, portanto, sempre um mergulho no mistério. Melhor dizendo, conhecer é acender luzes dentro do vasto castelo chamado mistério.

Assim, amados leitores e leitoras, devemos estar sempre atentos às paixões e aos amores. As paixões tendem a contentar-se com aquilo que vê e muitas das vezes se contentam com ilusões. O amor, diferentemente, realiza-se no conhecer e na alegre imersão do conhecimento, dando-se a conhecer, dando de si, conhecendo-se e dando a conhecer-se, saindo de se e indo ao encontro do outro, unindo-se pelos laços do conhecimento, amando e desenvolvendo amor.

O conhecimento da outra pessoa, quando rompe a barreira da ilusão, depara-se com a desilusão. Uma paixão que se contentara com o que, sabendo ou não, era ilusão chegará ao tempo da decepção com o advento da desilusão. Algumas pessoas ainda insistem em “quebrar a cara”, insistindo a retirar o “des” da “ilusão”, negando-se a enxergarem o que veem. O amor, porém, leva a uma transformação de si próprio por desejar o bem daquela pessoa a quem conhece e ama, e a ama sem se enganar, ama por conhecer.

Afinal, (1) há o ser enganado pelo que o outro apresenta, o marketing do outro, a fachada de outrem; (2) há o enganar-se pelas limitações dos sentidos e (3) há o enganar-se pelo desejo de encontrar no outro aquilo que se deseja para si. Muitas vezes, portanto, a ilusão é a projeção dos próprios anseios no outro, passando a ver no outro o que o próprio coração deseja, não o que o outro é. É o caso da outra metade da laranja ou da maça: a pessoa quer do outro o que lhe falta.

Com o amor e diferente, a pessoa não quer do outro o que lhe falta; pois quem não busca ser inteiro só vai oferecer ao outro algo pela metade, corrompido, deteriorado. Aquele, porém, que busca crescer no amor de Deus, permite ser moldado por Deus e ser constituído inteiro, íntegro e sabe que, em Deus, não precisa esperar no outro aquilo que lhe falta, pois tem tudo. Portanto, quem é íntegro em Deus busca no outro o outro como ele é para, sabendo como ele é, proporcionar o bem efetivo ao outro e conhecê-lo de tal forma que gere uma realização recíproca que os une e os lança para o alto. Essa união é o amor.

Amar, entretanto, não é um caminho onde tudo a ser encontrado sejam pérolas. Como aquele que ama precisa ainda ser alcançado e trabalhado no amor, a pessoa amada também precisa ser alcançada e trabalhada pelo amor. Assim, amar é também encontrar dificuldades, mas é, de modo particular, desenvolver a paciência, a doação, o respeito humano, a temperança e todas as outras virtudes, sempre. Pois o amor é a fonte, o ápice, a nutrição e a realização de todas as virtudes. Se não há virtudes não há amor, se não há amor não há virtude.

Quanto às virtudes, é rigoroso observar que uma virtude não é um ato isolado, mas uma prática reiterada. Assim também é a virtude teologal do amor: não é uma fachada ou ato isolado, não é marketing nem uma corrida de cem metros: é uma vida, na Vida, pela Vida com a Vida, para a Vida. Aquele que conhece o Caminho, a Verdade e a Vida conhece o Amor. Aquele que recebeu o Espírito do Amor tem em si a chave, o convite e a chama do amor, para amar, viver e ser feliz.

Amemos, pois, lançando luz neste mundo de trevas, mergulhando nos mistérios de Deus e nos mistérios dos seres humanos. Amemos, conhecendo-nos e permitindo que as luzes de Deus penetrem o nosso íntimo, transformando-nos e moldando-nos para que possamos, efetivamente, amar. Amemos, superando as barreiras das ilusões, encarando os mistérios, mergulhando no amar!

Um abençoado fim de semana a todos e um entusiasmante início!

Dado em Maceió, 13 de abril de 2018.

No amor de Maria e de Nosso Senhor Jesus Cristo,

Alisson Francisco Rodrigues Barreto.

 

iAlisson Francisco Rodrigues Barreto é seminarista do curso de Teologia, no Seminário Arquidiocesano de Maceió. Poeta, filósofo; bacharel em Direito (Ufal), pós-graduado (Esmal). Autor do blog “A Palavra em palavras”, desde 2011, e do livro “Pensando com Poesia” (disponível no site americanas.com).