Ailton Villanova

7 de Abril de 2018

Grande filho da puta!

Prestes a ingressar na aposentadoria, padre Onildo Tenório Villanova (Padre Nildo), velho malcriado e dono de uma língua afiadíssima, licenciou-se da paróquia que comandava, no agreste pernambucano,  para resolver assuntos relacionados a sua comunidade cristã, e outros  de seu particular interesse, na capital pernambucana. Desceu do ônibus velho e poeirento no antigo terminal rodoviário do Recife, que ficava no subúrbio, e optou por tomar um taxi para chegar mais rápido à sede da arquidiocese, onde se reuniria com o arcebispo.

No ponto respectivo, padre Nildo pegou o taxi e disse ao motorista:

– Por favor, me leve até o centro da cidade…

O taxista, um sujeito mal encarado e fedorento, arrancou com o carro puxando mil e começou a dar voltas e mais voltas por tudo quanto foi de biboca do Recife, até estacionar, minutos mais tarde, na porta da arquidiocese. Naquilo que padre Nildo botou o olho no taxímetro, tomou o maior susto e não deixou de protestar:

– Mais isso é um absurdo, meu filho! Esse valor que o taxímetro está marcando é uma exorbitância!

Na maior cara de pau, o taxista respondeu ao sacerdote:

– Ah, seu padre, estou cansado de pagar tudo para a Igreja. É batizado, é casamento, é crisma, é missa do sétimo dia, é santinho, é quermesse beneficente… Vocês cobram tudo! Por isso, o senhor vai ter que pagar o que deu no taxímetro!

Padre Nildo respirou fundo, meteu a mão no bolso, retirou uma carteira de cédulas, escolheu uma nota de Cruzeiro e deu pro cara:

– Muito bem, meu filho… Aqui está!

O motorista pegou o dinheiro, passou o troco pro religioso e, quando ele descia do veículo, virou-se pro sujeito e disse:

– Ah, quando a sua mãe resolver largar aquela vida, pode leva-la à minha paróquia que eu faço o casamento dela de graça, ouviu?

 

Uma questão de lógica

     Apressado para tomar o avião que o levaria a São Paulo, o distinto Rossini Barros correu até o ponto de taxi, na praça D. Pedro II e entrou no primeiro carro da fila, avisando ao motorista:

– Se manda pro aeroporto, porque estou atrasadíssimo!

O taxista engatou a primeira e disparou Ladeira da Catedral acima. Até entrar no comecinho da avenida Dom Antônio Brandão, tudo joia. Mas, ao ingressar na Thomaz Espíndola o negócio começou a complicar. O tráfego de veículos fluía lento, devagar, quase parando.

E o Rossini agoniado:

– Ai meu Deus! Vou perder o avião!

Na altura da Praça do Centenário, tiveram de passar um tempão parados, num engarrafamento infeliz. Desesperado, Rossini desabafou:

– Não sei porque foram construir um aeroporto tão longe da cidade!

E o taxista, que até então se mantinha calado, respondeu:

– Ora, doutor! Na certa, queriam que ele ficasse bem pertinho dos aviões!

 

Que sorte! 

O bodegueiro Valfrido Vieira conseguiu arrumar uma graninha no interior e veio instalar-se na Capital. Deu uma sorte danada!

Ao cabo de seis meses, Valfrido estava com um mercadinho na Levada, onde vendia de tudo. Quando as finanças pareciam ir às mil maravilhas, ladrões invadiram o estabelecimento nas caladas da noite, e levaram o que puderam. As prateleiras ficaram quase limpas.

Penalizado, seu Astério, o vizinho, tentou consolar o Valfrido:

– Esquenta não, rapaz! O prejuízo foi grande, mas pra tudo há um jeito, é ou não é?

E o Valfrido:

– Pra mim tá tudo joia! Até que a sorte me ajudou e ainda saí lucrando!

– Como assim?

– É que, justamente hoje, eu ia começar a remarcar os preços. Aí, sim, o prejuízo ia ser de arrombar!

 

Apenas por precaução    

Guerreirão, boêmio laureado, de repente o Manuel Peralva Barros teve um dos seus rins paralisado, fígado avariado e os pulmões estragados. Muito azar para um só cristão. Sem outra alternativa, Peralva teve de cair numa tremenda horizontal hospitalar…

Os médicos que o assistiam fizeram de tudo para tentar recuperá-lo. Submeteram-no a sucessivas sessões de hemodiálise e o rim, que estava pra lá de esculhambado, voltou a funcionar. Devagar, mas voltou. Pelo menos um dos seus pulmões foi extraído e, como consequência, sua respiração melhorou consideravelmente. Só não teve jeito mesmo foi o fígado. A birita derreteu essa importante glândula quase toda, comprometendo as suas funções metabólicas.

Daí a um mês Peralva estava nas últimas. Abriu um olho, piscou pro médico e apelou:

– Já sei que estou com um pé na sepultura, doutor…

– Mas o que é isso, Peralva? – o esculápio tentou animá-lo.

– Tô lascado, doutor. Eu sei. Eu só queria que o senhor me fizesse um último favor…

Penalizado e emocionado, o médico retorquiu:

– Pois não, pode dizer.

– Eu gostaria que o senhor escrevesse na Declaração de Óbito que eu morri de Aids.

O doutor alarmou-se:

– Impossível, Peralva! Eu não posso fazer uma coisa dessa, por uma questão de ética. O seu problema é cirrose braba, com falência múltipla de órgãos como rins, pulmões, vesícula… e não Aids! Não posso mentir.

– Pelo amor de Deus, doutor. A um moribundo não se pode negar o último pedido!

– Mas, me diga por que você quer todos pensem que está morrendo de Aids?

E o Peralva, nos últimos suspiros:

– É pra nenhum macho se atrever a chegar perto da minha mulher que, aqui pra nós, é muito da gostosa…