Ailton Villanova

20 de Março de 2018

TOMÉ E OS FURADOS DO CRISTO

De todos os seguidores mais próximos de Jesus Cristo, um deles, aquele chamado Tomé, foi o mais chato (na verdade, o único chato, segundo revelam escritos daquele tempo). Tomé era o tipo do cara que só acreditava naquilo que via e tocava. Esse era sempre motivo causador dos seus desentendimentos com os companheiros apóstolos.

 

Sabe aquela expressão proverbialíssima que diz “Só acredito naquilo que vejo e toco”? Pois bem, ela é de autoria de Tomé. Os escribas evangelistas , então, a fez atravessar os séculos até esbarrar nos dias atuais.

 

Naquela ocasião em que Cristo foi preso e levado à presença de Pôncio Pilatos, Tomé andava no oco do mundo, ninguém sabe fazendo o quê. Ele era assim: de vez em quando tomava um “chá de sumiço”, sem dar a mínima satisfação a ninguém. Nem ao próprio líder Jesus que, tolerante ao extremo, sempre perdoava os seus pecados.

 

Bom, ocorrido o episódio da crucificação, veio a ressurreição, os apóstolos todos reunidos discutindo uma linha de ação a partir dali, sem a presença do chefe, e nada de Tomé dar o ar de sua graça. Quando apareceu, dias depois, ainda achou de tirar uma onda com Cristo:

 

– Mestre, é verdade que tu morrestes mesmo?]

 

E Cristo, boníssimo e misericordioso, respondeu:

 

– É verdade, Tomé. Morri na cruz para salvar a humanidade, incluindo tu. Fui crucificado, padeci na cruz…

– Ah, mestre, me desculpe. Se por acaso tiveste morrido, tu não estaria ainda enterrado? – duvidou o calhorda.

 

E Jesus, pacientemente:

 

– Descrês, Tomé? Pois morri e ressuscitei. O que preferes que eu te apresente como prova, ó incrédulo?

 

E Tomé:

 

– Bom, Mestre… Bastaria que tu reproduzisse alguns dos teus prodígios. Estás lembrado do episódio de Canaã, teu primeiro milagre, quando transformaste a água em vinho?

 

Então Jesus pegou Tomé pelo braço e o levou até uma fonte e… plim!, a água da fonte se transformou em vinho!

 

Mas o sacana do Tomé não se deu por satisfeito:

 

– Agora, gostaria que tu repetisse a pesca milagrosa…

 

Mais pacientemente, ainda, Jesus levou Tomé ao mar da Galiléia. Pegaram um barco e… plim!, o barco se encheu de peixes. Mas o filho da mãe do Tomé, ainda exigiu mais uma prova:

 

– Agora, ande sobre as águas!

 

Então, Jesus que ainda estava no barco, saltou no mar e… desapareceu nas águas. Pouco depois, ele voltou à superfície e ainda teve a humildade de desculpar-se:

 

– Sinto muito, Tomé. Não funciona mais. Estou com uns tremendos buracos nos pés!

 

Reverendo avançado

Moderno, atualizado e por dentro dos metiês da galera, padre Vitelbo resolveu visitar um dos membros de sua paróquia, o jovem Pedro Belarmino, tido e havido como um grande boêmio. Chegou lá, chamou na cigarra e aí apareceu o dono da casa, peladão. Lá dentro, uma gritaria danada acompanhada de uma música da pesada.

– Oi, padre! Entre! – pediu o dono da casa. – Estamos fazendo um joguinho interessante com umas meninas. Tá vendo aquelas de olhos vendados? Elas têm que apalpar o pinto dos caras para descobrir a sua identidade. Entre e venha brincar com a gente!

– Vá me desculpando, Belarmino… este aqui não é o meu lugar!

– Ora deixe de cerimônia, padre! As meninas já citaram o seu nome pelo menos umas quatro vezes!

 

Cadê o beque?

Desde criancinha, em Porto Calvo, onde nasceu, padre Teodoro Lima era também conhecido como um grande criador de animais domésticos. Mas a sua preferência não era nem por cães e nem por gatos. Sua preferência mesmo era por papagaios. Houve época em que na sua casa existiu pelo menos meia dúzia desses falantes penosos. Com paciência e determinação, ele os ensinava a cantar hinos bíblicos e a rezar, sem errar uma vírgula, sequer.

A residência de Teodoro parecia mais um zoológico. Tinha dias que se registrava a maior algazarra dos animais, quando entendiam de bagunçar o coreto.

Os tempos foram passando e os bichos, pela ordem natural das coisas, foram falecendo. Até que, dos louros, só restou mesmo o caçula deles. Chamava-se Júlio César e não falava muito.

Um dia, sabedora de que padre Teodoro era ligado num papagaio, uma paroquiana presenteou-o com um louro, adquirido da viúva do dono de um bar que esticara as canelas havia pouco tempo.

Intitulado Leônidas, o papagaio em alusão vivia no bar do finado, onde se reunia uma freguesia fanática por futebol. O rádio, que vivia permanentemente ligado no ambiente, significava casa cheia nos dias de jogos de futebol. A galera ouvia o bate-bola e bebia adoidado. E o papagaio Leônidas participava daquela alegria toda.

Quando o reverendo recebeu Leônidas de presente, tratou logo de colocá-lo junto ao púlpito, para ele fosse se familiarizando com as rezas e, naturalmente, com o novo ambiente.

No domingo seguinte, o religioso começou o seu sermão animado sob os atentos olhares dos fiéis e… do louro:

– Caríssimos irmãos… Como é sabido, Cristo nasceu na Terra Santa e, antes de enfrentar o pulsilânime Pôncio Pilatos passou por Nazaré, passou pela Galiléia, passou por Jerusalém, passou por Jericó, passou…

Nesse momento, o papagaio interrompeu o padre com veemência:

– Putaquipariu! Não tem beque que segure esse cara?!