Ailton Villanova

9 de Março de 2018

Duas vezes infiel!

Quem imaginava que a Maria Evalgínia fosse tão… digamos, pérfida? Com aquela carinha de santa, com aquele seu olharzinho tímido, bem dizer de santa… Quem diria!

Aquele seu corpo curvilíneo é uma tentação, verdadeiro convite ao pecado. Nem São Ambrósio, fosse ele dos tempos de hoje, deixaria de arriscar ao menos um olharzinho para aquele belezura.

“A Evalgínia é madeira de dar em doido!”, com certeza diria Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Quando ela caminha sacolejando aquelas ancas sensacionais é de deixar qualquer cristão ficar pensando besteira. O marido, Cristóvão Beirão, é um caboco bom, mas fisicamente um tanto fraco para acompanhar a impetuosidade dessa verdadeira máquina de fazer sexo. Isso, ele próprio admitiu numa farra de final de semana, no Bar do Duda.

A deliciosa Evalgínia sempre foi ligada a igreja católica. Desde criança. Católica ao extremo, jamais deixou de comungar aos domingos, desde que se entendeu por gente. Ela é integrante da notória congregação intitulada “Filhas de Maria” e o marido Cristóvão um baluarte do valoroso e tradicionalíssimo grupo religioso chamado “Congregados Mariano”.

Casal aparentemente feliz, dentro dos conformes do bom viver.

Desde que a conheceu, padre Otílio Palmeira, seu pároco,  sempre dedicou à ela um cuidado incomum. Mas, apesar disso, descuidou-se da vigilância e a gostosura sumiu de suas vistas. Enquanto Valgínia andou sumida, o reverendo abandonou a alegria e seus sermões perderam aquela ênfase, aquela vibração.

Cerca de um mês depois, eis que a belezura ressurgiu lânguida, melíflua, diante do reverendo Otílio:

– Oooolá, padre!

O sacerdote deu um pinote de lado, atirou a Bíblia no chão e vibrou de alegria:

– Meu Deus! Que felicidade! Por onde andou minha filha? Por que abandonou a nossa igreja?

– Pois é, padre. Estou frequentando outra paróquia, aquela que tem um padre bonitão, verdadeiro sósia do Elvis Presley…

– Padre bonitão, hein? Então, porque voltou aqui?

– Voltei pra me confessar com o senhor…

– Comigo?

– É que traí o meu marido, sabe?

– Traiu seu marido, hein? Posso saber com quem?

– Com o padre bonitão da igreja que agora estou frequentando. Será que o senhor poderia me dar a absolvição, padre Otílio?

– Ah, minha filha, você acha de trair com um concorrente e ainda quer que eu lhe absolva? Se queria chifrar o seu marido, por que foi procurar um padre de outra paróquia? Sua paróquia é esta e sempre será esta, está me ouvindo? Volte já pra cá, e verei o que poderei fazer por você!

 

Fugindo aos poucos…        

Ursulino Carneiro Pantaleão, o Negro Panta, media mais de 2 metros de tamanho por metro e meio de largura. Pesava 120 quilos. Era um delinquente realmente da pesada. Deu muito trabalho à polícia, desde o final da década 30 até meados dos anos 50. Transava todas as infrações penais – homicídio, tráfico de drogas, assalto, arruaça… Seu corpo era todo marcado de cicatrizes produzidas por cortes de faca, projéteis de arma de fogo e outros instrumentos defuntórios.

Um dia, depois de promover a maior confusão numa gandaia do antigo  distrito do Ouricuri, bairro do Prado, e de matar dois e resultar gravemente ferido, ele finalmente foi detido e levado ao Pronto Socorro da rua Dias Cabral, centro da cidade. Submetido à melindrosa intervenção cirúrgica, escapou da morte e foi trasladado para a penitenciária do estado, que ficava ao lado do quartel do comando geral da Polícia Militar.

Assim que Negro Panta bateu na cadeia, a sua direção tratou imediatamente de reforçar a guarda, por um motivo muito especial: o bandido também era famoso pela sua habilidade em fugir de prisões. A milicada começou, então, a marcá-lo em cima, na dureza.

Mês e meio depois de recolhido ao presídio, Negro Panta teve uma infecção tão infeliz na boca, que foi preciso lhe arrancassem todos os dentes. Ficou banguelão.

Duas semanas depois da radical extração dentária, o negão teve de baixar a enfermaria com apendicite aguda. Veio um médico e arrancou-lhe o apêndice. Passados mais ou menos vinte dias, já sarado da segunda cirurgia, ele foi designado para cumprir tarefa na oficina mecânica da penitenciária. Aí, novo azar: teve um braço esmagado por um pesado veículo automotor e houveram que lhe amputar o membro. A estas alturas, o diretor do estabelecimento prisional, capitão PM Belarmino já estava cabreiro com o meliante.

Nem havia sarado direito do seccionamento do braço,  eis que Negro Panta foi submetido a mais uma operação. É que em consequência de uma infeção na unha do dedão do pé esquerdo, cortaram o sobredito pela cepa, porque estava gangrenado. Aí, o diretor Belarmino não se conteve. Determinou à guarda que conduzissem o infeliz ao seu gabinete. O detento chegou lá de padiola e o militar, que era mais grosso do que cuspe de bêbado, foi logo dando o recado:

– Olhaqui, seu cabra de peia… não pense que vai me enganar. Eu já descobri o seu plano secreto!

E o negão mal podendo falar:

– Mas qui prano secreto, seu deretô?

– Você tá planejando sair da prisão de pedacinho em pedacinho, né não?

 

Com Diego Villanova