Ailton Villanova

6 de Março de 2018

Vaselina útil “por demais”!

Antigo funcionário de certo laboratório farmacêutico, o farmo-técnico Gelásio Tibúrcio pegou a grana recebida de um acordo salarial com a empresa a qual serviu durante mais de vinte anos, e instalou-se comercialmente em Maceió, produzindo remédios para coceiras, chulés e afins. Ao cabo de três anos, ele estava bem situado na praça. Gelásio misturou a sua inteligência com a experiência no ramo medicamentífero para expandir o seu negócio além das fronteiras citadinas, produzindo, inclusive, outros tipos de remédios.

Uma das novidades lançadas pelo laboratório do Gelásio foi o produto intitulado “Deslizafácil”, espécie de vaselina destinada a certas facilidades do lar. “Deslizafácil” entrou nas farmácias e drogarias com estardalhaço, provocado por uma campanha publicitária eficiente e persistente. Deu certo. Em pouquíssimo tempo os estabelecimentos comerciais do ramo farmacêutico estavam exibindo em suas prateleiras a tal vaselina.

Apesar do sucesso do produto, a agência publicitária contratada pelo laboratório do Gelásio deu uma incrementada na campanha: requisitou uma equipe de entrevistadores para estimular ainda mais a clientela, numa maciça pesquisa de mercado. Jovens estudantes do curso de publicidade e propaganda foram às ruas de caneta e prancheta nas mãos, para entrevistar o povo, acerca das múltiplas utilidades da vaselina. Uma das primeiras abordadas foi dona Etelvina Barros:

– Por favor, minha senhora, um minutinho da sua atenção. Estamos fazendo uma pesquisa sobre o produto “Deslizafácil”, para saber de sua aceitação perante o público consumidor. A senhora poderia nos dizer como utiliza a vaselina? – indagou-lhe uma das entrevistadoras.

Dona Etelvina empertigou-se toda e respondeu:

– Bom, minha jovem, lá em casa usamos a vaselina “Deslizafácil” para machucados, pele seca, assaduras e… quando vamos fazer amor…

Diante da resposta recebida, a entrevistadora aprofundou-se nas indagações:

– Esta é a primeira vez que surge o uso da nossa vaselina para fazer amor! A senhora poderia nos dar mais detalhes?

Sem se abalar dona Etelvina respondeu:

– Eu a coloco na maçaneta da porta do quarto, as mãos escorregam e isso impede que as crianças entrem, na hora em que eu e meu marido estamos naquela curtição, entendeu?

 

Família só grande!

      No Bar do Duda, bairro praiano de Mangabeirs, o entusiasmado Tugstênio Pinto discursava para os amigos que rodeavam uma mesa abarrotada de cascos de cerveja:

– Sou a favor de famílias grandes!

– Por quê? – perguntou um dos circunstantes.

– Cada homem devia ter pelo menos três mulheres!

 

No inferno é tão bom!

Chegado a um barato macumbal umbandístico, até os 35 anos de idade, o distinto Tricolino Nascimento só respirava felicidade. Solteiro, grana folgada no bolso, ele esnobava à torto e à direito. O mulherio dava adoidado em cima dele. Mas, por armada do cão, eis que entendeu de cair de amores por uma ia-ô chamada Maria Estriquinina, dileta filha da viúva Eutanásia. As duas formavam, realmente, uma dupla de morte. E foi nesse imprensado que o Tricolino entrou. Uma semana depois do casório, o infeliz já começou a sofrer: a sogra foi morar na sua casa.

Todo começo de mês, quando Tricolino chegava em casa com o salário de economista no bolso, a mulher o confiscava e só liberava para ele uma mesada ínfima, estipulada pela sogra. Essa grana nem chegava para abastecer direito o seu automóvel, quanto mais para outros gastos superficiais, como por exemplo, ir ao cinema, beber uma cervejinha com os amigos, ou assistir a uma partida de futebol ao vivo, do seu time do coração, o CSA.

Tricolino vivia, realmente, uma vida de cão. Aliás, nem todo cão. A mulher o mantinha na corda curta e a filha da puta da sogra dava uma de fiscal até nas suas idas ao banheiro.

Tricolino foi definhando aos poucos. Até que, um dia, esticou as canelas. Mas a vida continuou folgada para a viúva e sua mãe, que nem respeitava a memória do finado:

– Sabe, minha filha, aquele seu marido nunca foi homem pra você! Muito fino, todo cheio de mesuras…! Homem pra mim tem que ser machão, como foi o seu pai Josias. Quando ele me pegava de jeito… ai, meu Deus! Nem gosto de me lembrar!

Certo dia, o pai-de-santo Zezão de Ogum, muito chegado à viúva, Estriquinina bateu um fio pra ela:

– Olha, minha filha, o espírito do teu marido baixou ontem no meu terreiro…

– Não acredito! – ela duvidou.?      – Pois baixou. E, vou lhe dizer… muito modificado, viu!

– Eu só acredito vendo!

– Pois venha ver!

Na sexta-feira seguinte, Estriquinina foi ao candomblé de Pai Zezão e lá encontrou um monte filhos-de-santo saracoteando, estimulados pelo baticum dos atabaques e engomes. Daí a pouco, o Tricolino baixou no terreiro.

– É você mesmo, Lino? – perguntou a viúva.

– Seu eu, Nina! Como vai?

E ela, emocionada:

– Eu vou bem… e você?

Tricolino soltou uma risada:

– Estou feliz demais! Nunca fui bem tratado! Posso tomar a minha cervejinha, pedalar minha bicicleta, ver jogo na televisão e até paquerar as menininhas…!

– E você pode fazer tudo isso no céu?

– Céu?! E quem foi que falou que estou no céu?

 

  Com Diego Villanova