Ailton Villanova

20 de Fevereiro de 2018

A loura endividada

Instituições evangélicas de tudo quanto é denominação – até aquela do “Amor Divino” –, estão invadindo emissoras de rádio e televisão. E exibem os mais insólitos espetáculos, verdadeiras enrolações, com uma única finalidade: faturar alto. Pastores e afins discursam perante microfones e desfilam diante câmeras de TV, alguns deles com a desenvoltura de astros cinematográficos. Outros, querendo ser o próprio Cristo, prometendo milagres.

Pastor Fraudílio Delúrbio era um desses que adoravam dar uma de santo milagroso, além de conquistador barato. Bom de papo, ele não podia ver uma donzela dando sopa que logo chegava junto, cheio de catequização.

Não faz muito tempo, eis que na saída de determinado shopping ele deu de cara com a lourinha chamada Solideuza, cujo semblante demonstrava tristeza. Aí, Delúrbio não se fez de rogado:

– Boa tarde, linda jovem…

– Boa tarde. – respondeu a moça.

– Cumprimentos em Cristo. Posso saber por que tanta angústia numa criatura tão excelsa e linda?

E a garota:

– Estou vivendo um drama muito triste. Sem crédito na praça, não consigo comprar nada. Devo pra todo mundo, desde que perdi o emprego e, no momento, não vejo solução… Já pensei até em me matar!

– Aleluia, Jesus!

– É mesmo. Estou desesperada. O senhor precisava ver o monte de carnês e faturas atrasados que tenho lá em casa. Acho que a solução seria eu morrer mesmo!

– Calma senhorita! Você precisa é de ajuda espiritual. Não custaria nada você comparecer a minha igreja para uma sessão de descarrego.

– E onde é que fica a sua igreja?

O “pastor” ensinou-lhe o endereço e na quarta-feira seguinte a moça baixou lá, toda embonecada, no meio de um culto festivo. Era cantoria, era louvação e era choradeira. Maior loucura!

Assim que bateu o olho na lourinha, o pastor chamou-a ao palco. Ela subiu lá e logo se viu agarrada pelo cara, que bradava:

– Eis aqui, irmãããooosss, uma criatura que necessita ser salva do fogo do inferno! Ela está possuída do demônio! Aleluia!

– Aleluia! Aleluia! Aleluia! – respondeu a galera.

Nesse momento entrou em cena outro “pastor”, um negrão parrudão, parecido com o boxeador Evander Hollifield. Ele apontou o dedão para a garota e deu um berro cheio de analfabeticidade:

– Abondona esse corpo que não te pertence, demônho! Dizaloja! (ele queria dizer “desaloja”) Esse corpo não te pertence, demônho! Dizaloja!

Em seguida, o negão se aproximou da moça e, colocando a mão na sua cabeça, lascou outro berro mais apavorante ainda:

– Dizaloooja, demônho! Estou ordenando!Dizaloooja! Em nome de Cristo, dizaloja!

Sob pressão, a garota cedeu:

– Tá Bom, tá bom! Eu falo! Lojas Pernambucanas! Lojas americanas, Magazine Alvorada! Armazens Luiza…

 

e em seguida apresentou-se ao esculápio, que indagou:

Remédio de morte

O desfile de evangelizadores na televisão tem protagonistas para todos os gostos. Alguns ousam, na maior cara de pau, exigir dinheiro do incauto que o prestigia com a sua audiência, em troca de uma suposta salvação. E escampam impunes desses achaques, dessas chantagens, porque estão protegidos, conforme é dito no texto que abre esta coluna.

Do lado de cá, ao pé do rádio ou diante do aparelho de televisão, uma multidão de “fiéis” é engabelada por espertalhões…

Entre os explorados, encontrava-se a mais humilde das cristãs (vamos dar-lhe o nome de dona Maria), que passava horas a fio reparando na performance dos pregadores radiofônicos e televisivos. Até que, um dia, pintou na telinha um tal de Missionário Agapito (nome fictício, naturalmente), arvorando-se Deus e anunciando milagres.

Dono de um discurso capaz de derrubar até helicóptero supersônico, o cara logo despertou a atenção de dona Maria, que era portadora de um calo seco no dedo mindinho do pé esquerdo, e que incomodava demais. Todo tipo de remédio para extirpá-lo, ela havia aplicado no infeliz sem obter resultado positivo algum.

Crédula ao extremo, dona Maria estava ligada no papo do cara quando, empolgado, ele proclamou:

– Caros irmãos! O milagre salva! Basta um gole da água que benzerei, e vocês ficarão bons dos seus males em segundos. Minha água benta cura qualquer doença, qualquer incômodo. Até calo seco!

Ao escutar isso, dona Maria chorou de alegria e ficou escutando o resto da recomendação do missionário:

– Irmãos, para serem beneficiados com minha água milagrosa, vocês vão fazer o seguinte: peguem um copo bem limpinho, encha de água e, em seguida, deposite-o sobre o seu aparelho de televisão. Quando eu terminar a minha pregação, dentro de duas horas, mas ou menos, vocês a beberão, porque a água estará santificada.

O missionário terminou de falar, despediu-se dos telespectadores e saiu do ar. Esperançosa de cura, dona Maria pegou o copo e bebeu sua água quente, em razão da temperatura elevada produzida pelo aparelho de TV.

Ela não ficou boa do calo, lamentavelmente. Mas morreu de pneumonia.

 

Com Diego Villanova