Ailton Villanova

6 de fevereiro de 2018

Matuto atrapalhado

Sertanejo das lonjuras de Santana do Ipanema, o vaqueiro José Onofre, popularmente conhecido como Zezinho Bodão, veio passar o carnaval em Maceió, a convite do jovem Francisco de  Assis (Chiquinho), filho de seu patrão, o fazendeiro Zózimo Bonfim. Assim que botou os pés em terras capitalinas, Bodão escutou do Chiquinho a seguinte dica:

– Se prepare, que o mulherio aqui é moleza. Você pega quantas quizer. A primeira que passar na sua fente, pode mandar a cantada, que é tiro e queda!

Zezinho Bodão animou-se todo:

– É mêrmo, seu Chiquinho? Faz pirigo não?

– Que perigo que nada, rapaz! Vá em frente!

No domingo de carnaval Zezinho Bodão foi levado por Chiquinho à um baile em determinado clube da periferia da cidade. No que ele bateu os olhos na mulherada, encantou-se. Virou-se pro filho do patrão e perguntou:

– Todas dão, seu Chiquinho?

E o rapaz, tremendo de um sacana, confirmou:

– Todas.

– Valei-me meu padrinho Ciço! É hoje!

A primeira garota que passou por sua frente, Bodão agarrou pela cintura. Ela soltou uma gargalhada de aquiescência e os dois sairam pulando pelo salão. É claro que simplesmente pular carnaval não era o que o matuto estava querendo. O negócio dele era curtir a dois, uma horizontal. De modo que arrochou o papo:

– E entonce, sua piranha? Vâmo tirá um piço?

E a moça, assustada:

– “Piço”, que diabo é isso?

– É um gozo, num sabe? A gente procura uma matinho puraí e tira um piço…

A moça reagiu de maneira violenta. Sentindo-se insultada, tacou a  mão na cara do sertanejo. Ele ficou sem entender nada e procurou o filho do patrão:

– Seu Chiquinho, peguei uma mulé, convidei-lha pra trepá e a dizinfiliz me danou a mão na cara!

– Mas você foi chegando lo. Mas você pensago, direto?

– Cheguei cum gosto de gáis!

– Também não assim, rapaz. Você tem que chegar e conversar um pouquinho com a garota, com classe e educação, entende?

– Ah tem qui cunvelsá antes, é?

– Lógico.

– Entonce, dêxa cumigo.

Chiquinho Bodão voltou pro salão de baile e a próxima jovem que passou dando sopa, ele agarrou pela cintura, conforme havia feito antes. A moça enrolou o braço no seu pescoço e ele achou que era hora de puxar o papo:

– Bunita noite, num é? Munto prazê. A sinhurita puracauso cunhece a cidade de Santana do Ipanema?

– Não.

– Entonce vâmu ali pro jardim, fazê sevelgonhêza?

 

Filho de bêbado…

Cheio de moral, o tal de Valdir Colágeno chegou pro cara que bebia uma cervejinha escorado no balcão de determinado bar da orla lagunar, e discursou:

– Ô Jovelício, para de beber, rapaz! Isso não é um crime que você está comentendo apenas contra você. É um crime contra seus filhos.

– Puuur quê?

– Você não sabe, seu imbecil, seu irresponsável, que todo filho de alcoólatra nasce idiota?

E o bêbado:

– Eu sei. Mas você pensa que é fácil parar de beber? Pergunte  pro seu pai.

 

 

O documento

 

Com cara de poucos amigos, o sujeito entrou na Farmácia Ana Paula, na Pajuçara e pediu pro balconista, que por acaso era o dono, Paulo Nascimento:

– Quero um litro de arsênico!

E o Paulo:

– Posso saber pra que o senhor quer esse arsênico?

– É pra miha mulher. – respondeu o sujeito.

– O senhor trouxe a receita?

– Trouxe não, mas tenho aqui uma foto dela pro senhor ver.

 

Pra que viver?

Numa ilha deserta, dois náufragos estavam há vários dias sem comer e sem beber. Em torno da ilha, um monte de tubarões nadando e exibindo aqueles dentões afiadíssimos.

Aí, um dos náufragos caiu de joelhos na areia e começou a implorar:

– Senhor, salvai-nos. Livrai-nos dessa desgraça! Se o Senhor me salvar, eu juro que terei uma vida de penitência. Juro que orarei e cantarei sempre em seu louvor. Eu prometo nunca mais beber. Prometo nunca mais jogar. Prometo nunca mais fumar. Prometo n unca mais ir ao cinema. Prometo nunca mais transar. Prometo nunca mais olhar pra uma mulher…

Então, o companheiro interrompeu:

– Peraí, Júlio! Você quer sobreviver pra quê?

 

Vida ruim

Na condição de turistas, dois vampiros boêmios da Transilvânia vieram curtir o carnaval no Rio de Janeiro. Aproveitaram para incursionar pelos morros mais violentos, à procura de sangue. Com tanto tiroteio entre vagabundos e a polícia, impossível era não sobrar um sanguezinho esperto.

Nas subidas e descidas pelas favelas os vampiros se perderam. A noite era fria e nebulosa.

– Tá ruim, hein, colega Vlad?

– Ô se tá, companheiro Klurb – conformou-se o outro. – Até agora nem um pescocinho pra gente chupar. Que dureza!

– O negócio é a gente vasculhar um saco de lixo!

– Lixo, colega? Pra quê?

– Pra ver se a gente acha um modess pra fazer uma sopinha!

 

Marca boa

Muito carola, madame Juvenília pediu ao filho Adrovaldo, que é ainda criança, que ele fosse a uma loja de artigos religiosos perto de casa, e comprasse um crucifixo de parede. O que ela tinha em casa, caiu da parede e quebrou-se. Precisa de outro para substituí-lo.

O menino chegou lá e pediu o crucifixo ao balconista, que perguntou:

– De madeira ou de metal?

Sem saber a resposta, o garoto ligou para a mãe:

– Ô maínha, o moço aqui tá perguntando se queremos um crucifixo de madeira ou de metal.

E a mãe:

– Qualquer um, meu filho, desde que seja da marca INRI!

 

Ah, coitadinhos…

No seu consultório médico o doutor Nilton Jorge Melo, explicava à paciente:

– É como eu lhe disse, dona Eutórpia: respirar fundo mata os micróbios.

E a madame, na sua simplicidade de sertaneja:

– Sei, doutor, tá certo. Mas cuma eu vô pudê insiná os bichinhos tão miudinhos a rispirá fundo?

 

 

E ele “era”?

 

Madame Astúria é uma professora invocadona. Leciona na mesma escola onde a ilustre mestra Rose Lessa dá aulas. A matéria sob seu domínio e História.

Bela manhã, ela entrou na sala de aula disposta a fazer uma sabatina em regra. Primeiro aluno que pegou dando sopa foi o  Orlandinho:

– Me responda, garoto: onde foi que os indios comeram D. Pero Fernandes Sardinha?

E o Orlandinho, muito surpreso:

– Eu nem sabia que ele era bicha, professora!