Ailton Villanova

16 de Janeiro de 2018

Braba e premonitória

      Durante o namoro, José Eucalício e Maria Eudóia viviam num mar de rosas. Beijos a todo instante. Coisa mais linda do mundo. Todos consideravam ser, aquele, o casal exemplar entre os exemplares. Tanto amor esbanjado daquele jeito… Quem ousaria duvidar que um dia o distinto par passaria a protagonizar uma tragédia?

       A fase “dos sonhos e das nuvens” começou a ser modificada quando Eucalício pediu Eudócia em casamento. Ela, que sempre foi braba, e vez por outra demonstrava ser uma psicopata em potencial, começou a mostrar as unhas:

      – Olha, meu caro, vamos logo providenciar esse casamento, está me ouvindo? Eu não posso ficar esperando, de braços cruzados, pela sua boa vontade.

      E o infeliz:

      – Mas meu amor, precisamos economizar um dinheirinho para comprar os móveis, o enxoval, uma casa…

      Ela atropelou:

      – E um carro! Pensa que eu vou andar por aí a pé, ou de ônibus? Vou querer também um carro! Você não já tem o seu?

      – Tá bom, tá bom. Vou ver o que posso fazer.

      – “Vou ver”??? Você não “vai ver” nada! Você tem que comprar esse carro pra mim. Se vire!

      Imagine o leitor as peripécias que fez o coitado do Eucalício para satisfazer os caprichos da amada. Endividou-se até o último fio de cabelo da cabeça, comprou tudo e o “algo mais” indispensável à felicidade de um casal. Comprou a casa, os móveis, o enxoval, um carro zerinho, que deu de presente a amada.

      O casamento nunca deu um dia de paz ao Eucalício. Belo manhã, não suportando mais o sofrimento, ele procurou um psicólogo a quem contou sua história e pediu socorro. O especialista lhe ofereceu um conselho dos bons, acrescentando:

       – Seja firme com essa megera, rapaz! Que homem é você? Entre em casa pisando firme e mostre quem é que manda lá. Vá em frente!

       Depois desse papo com o psicólogo, Eucalízio voltou pra casa, à noite, cheio de direito e macheza. Chamou a Eudócia num canto e determinou, na moral:

      – Escute aqui ô mulher da bubônica: Eu quero que você me prepare uma jantar finíssimo, com tudo o que tem direito e cuide também de me trazer um uísque geladinho, certo? Ah, me prepare um banho quente bem esperto, porque preciso relaxar. E tem mais… quando eu terminar o banho, advinha quem é que vai me vestir e me pentear?

       – O cara da funerária! – respondeu a mulher sinistramente.

       Eucaristo nem teve tempo de duvidar da mulher. Levou uma facada certeira, no peito.

Vingançazinha básica

      Até completar 18 anos, o Juninho, filho dileto do empresário Astigmaldo e de sua digna consorte Álgebra Maria, jamais dera o menor desgosto ou preocupação aos pais. E foi justamente no dia em que atingiu a maioridade, que deu enorme susto neles.

      Era um sábado, meio da tarde, Astigmaldo e Álgebra viam televisão bem aconchegados na sala de estar quando, de repente, foram  despertados por um buzinaço estridente oriundo de um carro parado na porta. Astigmaldo levantou-se e foi reparar quem chamava. Botou a cabeça pra fora da janela e quase caiu para trás quando reparou na incrível cena: seu filho Juninho encontrava-se ao volante de uma magnífica Ferrari vermelha, novinha em folha. Aí, gritou para o garoto:

      – Onde você conseguiu esse carro, menino?

      Juninho respondeu, feliz da vida:

      – Acabei de comprá-lo!

      Nesse momento a mãe chegou junto do pai para ver o que estava acontecendo do lado de fora. Arregalou os olhos, enquanto o marido continuava interpelando o garoto:

       – Com que dinheiro você comprou esse carro, meu filho? Esse é um carro caríssimo! Nem eu possuo grana para comprar uma máquina dessa, quanto mais você, que nem emprego tem!

       Dona Álgebra fez coro:

       – É verdade! Seu pai é rico, mas não pode comprar um carro luxuoso desse! Quanto custou?

       – Quinze cruzeiros!

       – Quinze cruzeiros???!!! – alarmou-se o pai – O que você está me dizendo, menino? Está querendo gozar da nossa cara? E quem foi que lhe vendeu um carro desses por 15 cruzeiros? Só pode ter sido roubado!!!

       E o Juninho, esclarecendo:

       – Quem me vendeu foi uma senhora que acabou de se mudar para aquela mansão, na entrada do condomínio. Eu estava passando por lá de bicicleta, ela me viu e perguntou se eu queria comprar o carrão por 15 cruzeiros…

       – Santo Deus! Minha mãe misericordiosa! – exclamou dona Álgebra, preocupada – Essa mulher deve ser uma daquelas que abusam de crianças e adolescentes… é caso de polícia, Astigmaldo!

       – E de Polícia Federal! Vamos lá, na casa dessa mulher. Precisamos passar isso a limpo. Nosso filho deve estar correndo sério perigo!

      Marido e mulher entraram na Ferrari, com o filho ao volante. Chegaram à mansão, encontraram uma madame cuidando do jardim, cujo semblante era da mais profunda tranquilidade. Juninho apresentou-lhe os pais e Astigmaldo foi objetivo:

      – Foi a senhora quem vendeu essa maravilha de carro ao meu filho, por quantia tão insignificante?

      – Foi sim, senhor… – respondeu a ricaça.

      – Posso saber por quê?

      Ela explicou:

      – Sua preocupação procede senhor. Mas a transação pra mim foi legal, correta e justa…

      – Como assim?

      – É o seguinte… meu marido, aquela canalha, me ligou esta manhã do exterior. Eu pensava que o crápula estivesse viajando a negócios, mas aí ele me contou, cinicamente, havia fugido com a secretária para o Havaí e que não voltaria mais. Em seguida, me pediu que eu vendesse a Ferrari por um preço que eu entendesse justo, e lhe enviasse o dinheiro. Então, eu a vendi para o seu filho, pelo preço que achei justo!

Com Diego Villanova