Ailton Villanova

12 de janeiro de 2018

COBRA FORA DO PROGRAMA

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      Bom caráter, amigo leal, Romildo Freitas Araújo é um tira competente, integrado à área de inteligência da Polícia Civil. Conforme exige essa sua especialidade, Romildo é um cara discreto. Entretanto, até onde outras das suas profissões mais notórias – a de radialista e forrozeiro -, lhes permitem.

       Esse meu colega até uns bons 10 anos passados era chegado a um carrinho da linha Dodge. De preferência, velho, caindo aos pedaços. “Adoro um carrinho velhinho”, repetia sempre. Um dia, com a ajuda de outro colega, o saudoso Jorge Vilar, descobri porque Romildo Freitas “adorava” sucatas motorizadas. É que ele não gostava de dar carona à ninguém. Melhor esclarecendo: ele não podia se dar ao luxo de carregar no carrinho, alguém mais além de sua pessoa. Muito menos podia praticar o exagero de  emprestar o infeliz do carro a um amigo, em caso de necessidade. Nem à troco do vil metal. Isso, explicarei, linhas abaixo, nos parágrafos finais do presente texto.

      Esse bom amigo Romildo Freitas sempre me teve em alta conta. E continua me dispensando a melhor das considerações. Certa ocasião, um sábado, por sinal, precisei de um favor seu e ele não se fez de rogado, apesar do ar de “contragosto” que não conseguiu disfarçar. Foi, justo, o de ceder, por empréstimo, e por apenas “uma horinha”, o seu “Doginho”, cuja cor era uma incógnita – o capô era marrom, uma porta amarela e a outra azul; a tampa da mala vermelha e a carroceria verde. Seu ano de fabricação jamais alguém descobriu qual. Por isso, a sucata, digo, o automóvel (?) nunca foi emplacado o Detran, desde que passou ao domínio do caríssimo colega.

      Trabalhávamos, então, na Rádio Difusora (Av Fernandes Lima, Farol). Eu dirigia o jornalismo da emissora e o Romildo apresentava um programa matinal de músicas populares regionais de grande audiência. Naquela manhã de sábado, eu necessitei utilizar o estúdio de gravações e recorri ao sonotécnico de plantão Paulo Bartolomeu. Este lamentou não poder me atender naquele momento porque havia esquecido em casa, no bairro Bebedouro, as chaves do aludido estúdio. Mas, logo, ele saltou com a solução:

      – Se você confiar em me emprestar a sua Brasília, eu dou um pulinho em casa e pego as chaves. Confia?

      Claro que eu confiaria o meu carro ao Paulo. Mas, acontece que eu o havia cedido ao Chico Magalhães, chefe dos sonotécnicos, para ele ir à uma festa de batizado que estava rolando na casa do Djavan, na Pitanguinha.  Estávamos naquela lamentação, quando avistei Romildo Freitas refrescando a goela com água mineral, no bebedouro instalado no final do corredor dos estúdios. Imeditamente, me ocorreu a ideia de apelar à sua magnanimidade:

      – Romildo, me empreste o seu carro…

      Imediatamente, ele trancou a cara e cortou o meu papo:

      – Cadê o seu, Villa…?

      Expliquei-lhe que o havia emprestado ao Chico Magalhães; disse-lhe da premente necessidade de utilizar do estúdio de gravações; falei das chaves esquecidas na casa do sonotécnico e completei:

      – Só quero o seu carro para o Paulinho ir até a casa dele apanhar as chaves. Ele mora aqui pertinho, no Bebedouro. Você sabe que ele dirige bem até demais, não sabe?

      Romildo Freitas me passou o chaveiro, mas sem deixar de fazer graves recomendações, sem tirar os olhos do Paulo Bartolomeu:

      – Tenho o maior ciúme desse carro! Por favor, seu Paulo, todo cuidado com ele será pouco, você  compreendeu? Só o estou passando à mão de um estranho, porque não posso deixar de atender a um pedido do meu amigo Villa…

      Abro aqui um parêntesis, para revelar que no Doginho do Romildo só cabia sua pessoa porque, dentro dele, existia um verdadeiro depósito de bugingangas: livros velhos, cadernos, cadeira de balanço, sapatos, plantas, um pé de pimenta malagueta em meio a um matagal e um pequeno gramado…

        Fecho o parêntesis e concluo a narrativa:

        O relógio mal assinalou 10 minutos desde a saída do Paulo Bartolomeu eis que ele retornou à emissora, apavorado, transpirando em bicas, mal podendo falar. Imediatamente, pensei ele houvesse se envolvido em um acidente grave. Corri ao seu encontro e indaguei:

         – O que foi que houve, Paulinho? Tá tudo bem com você? Algum problema?

         E ele, respirando com dificuldade:

        – Foi aquela cobra da porra! A fiadapeste estava dentro do carro e me atacou no meio do caminho, quando eu já estava chegando nas proximidades do campo do CSA! Quase trombei num poste! Aí, tive de voltar. Nem peguei as chaves.

        – Cobra?! – exclamei. – Mas que cobra, bicho?

        – Acho que é uma gibóia! A bicha tem uns cinco metros de tamanho! Ela me atacava, eu me livrava com uma chinelada. Vou lhe contar, Villa… Só não matei aquela peste porque sei que ela é animal de estimação do Romildo…

         Não era. A cobra, uma cascavel muito louca, estava hospedada, havia algum tempo, no carro do Romildo Romildo Freitas.

          Bons de gatinho, ele e eu a matamos na base do tiro de pistola. O carro ficou crivado de balas.