Ailton Villanova

11 de janeiro de 2018

O ASSASSINATO DO PAPAGAIO

ilustracao 11 01 18 600x300 c - O ASSASSINATO DO PAPAGAIO

      Boquinha da noite de um sábado de Verão como este, um cidadão de idade avançada e de andar vacilante, ingressou no saguão da recepção da Delegacia de Polícia de Plantão da Capital, à época funcionando na Rua do Macena, centro da cidade. Tímidamente, ele retirou o chapéu da cabeça e cumprimentou o agente que se achava de serviço no local, sentado diante de um birô:

      – Boa noite, moço…

      – Boa noite, cidadão! – respondeu o policial.

      – Eu queria falar com o delegado… Ele tá? – prosseguiu o idoso, com um tom nervoso na voz.

      – Está sim, senhor. Aguarde um instantinho, que eu vou lá dentro avisá-lo de sua presença… Qual é o seu nome, por favor?

      – Aloísio! Aloísio Pereira dos Santos…

      O agente girou nos calcanhares, embocou no corredor e, não demorou muito, estava de volta com o recado na ponta da língua:

      – Senhor Aloísio, o doutor Rivaldo está aguardando sua pessoa no gabinete dele. Siga aqui pelo corredor e bata na porta da primeira sala à esquerda.

      Seu Aloísio Pereira seguiu a indicação do policial e logo se viu diante do delegado plantonista, Rivaldo Lins de Oliveira, então titular do 1º Distrito de Polícia da Capital:

      – Boa tarde, doutor Rivaldo… Eu vim aqui me entregar, num sabe?

      O delegado arregalou os olhos:

        – Mas, o que foi que o senhor fez? Matou alguém, por acaso?

        E o idoso:

        – Matei, doutor. Matei o infeliz daquele papagaio do novo vizinho, que tentou me desmoralizar!

        – O vizinho?

        – Não senhor, o papagaio! Passei fogo nele!

        – Mas papagaio é uma ave brincalhona, seu Aloísio. Um papagaio falador é a coisa mais linda do mundo…!

        – O senhor diz isso porque não conheceu aquele condenado. Eita bichinho desrespeitador…!

        O delegado Rivaldo Lins respirou fundo, alisou a pança, tirou um cigarro do bolso, acendeu, deu uma tragada, soltou um rolo de fumaça pelos buracos da venta, ajeitou a bunda na cadeira e, enfim, perguntou ao matador avíparo:

        – O senhor também fuma, seu Aloísio?

        – Tá doido, doutor? Fumo nada! Eu tenho juízo!

        – Bom, agora me conte como se deu o crime…

           O velho Aloísio temperou a goela e mandou:

           – “Apois”, eu vou lhe contar o caso desde o comecinho, certo?

           – Certo. Mande brasa !

           – Bom, eu passava pela porta desse novo vizinho que é dono do tal papagaio, porque estava indo comprar pão na padaria do meu amigo Mané Queixinho. Aí, avistei ele trepado na janela. Eu até achei o danado bonitinho: verdinho, barriguinha  amarelinha, pontinhas das asinhas azulzinhas… Ele tava pinoteando pra lá e pra cá! Eu fui passando calado e cheguei, até, ter vontade de tirar uma lôa com ele. Mas não tirei, porque sei que papagaio é bicho cheio liberdades… A gente pede o pé, ele já quer beliscar a gente, né não? A propósito. O senhor já pegou no pé de um louro? Pegou? É aquele desadouro, doutor. Pé de louro é pé carrasquento… E a unha dele? Eita unha da bobônica! Quando ele enfinca aquela unha pontuda no braço ou na mão da gente… é a peste! Melhor é ser arranhado pela unha de Satanás. Não sabe o Satanás, doutor?

      E o delegado, perdendo a paciência:

      – Homem conte logo a história da morte do papagaio! Como foi que aconteceu o crime?

      – E eu num tô contando, doutor? Deixe de agonia e escute… Lá eu ia passando, certo? No que acabei de passar, escutei aquela voz de taboca rachada dizer: “Corno”! Parei, assuntei, imaginando se aquela desfeita era comigo. Mas, continuei caminhando. No que continuei, olha a voz novamente: “Corno”! Sabe de quem era a voz, doutor? Era do fidapeste do papagaio. Minha vista empreteceu de raiva. Mesmo assim cheguei na padaria. Comprei pão, e voltei. Lá ia eu passando de volta pra o meu santo lar, bem pela beirada da calçada, disfarçando, fazendo de conta que não estava vendo nada. E olhe o safado na janela!

      – O que ele disse, dessa vez? – provocou o delegado.

      – Ele disse…”corno”, de novo! Aí, eu endoidei, doutor. Endoidei, porque minha mulher, Candinha, é uma mulher de respeito. Nunca me botou um chifre, pode crer!

     – Aí, então… o senhor matou o louro!

     – Matei. Joguei o pacote de pães na calçada, corri pra casa, dei garra da minha espingarda e voltei vendo tudo encarnado. Nem dei tempo do infeliz me chamar de corno mais uma vez. Só fiz fechar um olho, abrir o outro e arrastar o dedo no gatilho da minha espingarda – tebei! Dei um tiro só, doutor! A cabeça do safado saiu voando e foi parar na caixa prego.

       Na segunda-feira seguinte, seu Aloísio Pereira estava batendo na porta do novo vizinho, com outro papagaio presente pra ele. Essa, foi a sentença “prolatada” pelo delegado Rivaldo Lins de Oliveira, que seu Aloísio teve de pagar, a título de indenização.

Com Diego Villanova