Ailton Villanova

10 de janeiro de 2018

ELA ACHAVA LINDO APANHAR!

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Houve uma época, nas Alagoas, que a Polícia Civil era respeitadíssima, dada a correção e a seriedade que impunha ao seu efetivo mister, na defesa dos direitos individuais dos cidadãos e na fiel observância aos ditames da Lei e da Ordem. Vez ou outra, exagerava em  determinadas missões, não vou negar. Mas sem dano algum ao moral e à disciplina.

 

Se, por um lado, a corporação era merecedora da admiração e do respeito dos alagoanos, por outro era temida pela marginalidade. Por aqui, bandido não tinha vez. Ai do delinquente que cismasse em desfeitear um cidadão de bem, ou, sequer, olhar atravessado para um representante da lei. Ingressei na Polícia Civil nessa época e me orgulhava muito da minha condição de “tira”. Hoje, apenas me orgulho do meu trabalho como profissional de segurança pública e da minha condição de cientista forense e criminólogo, à serviço da Justiça, que também não é mais a mesma. Tenho feito o possível para honrar a minha instituição.

 

Grandes figuras humanas imprimiram com letras douradas, a saga da nossa Polícia Civil. Entre essas, só para citar uma delas, o delegado Carlomano de Gusmão Miranda – primeiro diretor do Departamento de Polícia (Depol) da Secretaria de Segurança Pública. Carlomano – ainda hoje vivo, aos quase 90 anos de idade -, é um amigo que constituí, desde os meus tempos de repórter policial da Gazeta de Alagoas.

 

Nos seus plantões noturnos no Depol, cuja sede ficava a poucos passos do Palácio dos Martírios, sede do governo estadual, Carlomano Miranda me convocava para lhe fazer companhia. Eu gostava de ouví-lo contar os seus causos, nem todos verdadeiros.

 

Doutor Carlomano tinha a fama de “ignorante”no trato com transgressores. Com ele, a palmatória funcionava de verdade e a “bimba-de-boi” não tinha descanso, quando o “infrator da lei” que o encarava era um bandido.  Carlomano adorava esbofetear ladrão. Sua equipe, escolhida à dedo, nada ficava a lhe dever, nesse particular. Em síntese, o delegado era um cara malvado virado na peste!

 

Num certo mês de janeiro como este, estávamos eu, Carlomano Miranda e mais uma meia dúzia de policiais, todos bem sentados e, à vontade, curtindo uma brisa fresca noturna, na calçada da Deplan. De repente, parou um taxi na nossa frente e, de dentro, pinoteou uma mulher no maior desespero:

 

– Socooorrro, polícia! Me acuda, polííícia!

 

Reparei na mulher, tomei o maior susto. Sua cara havia se transformado numa verdadeira máscara sanguinolenta. Com os meus botões, logo conjecturei: “Será que essa infeliz foi atropelada por um trem?”

 

Toda esfarrapada, olhos entumecidos que mal se abriam, a mulher se lançou sobre o Carlomano, mais desesperada ainda:

 

– Seu “velhinho”, me socorra! O meu marido Ananias está querendo me matar. Repare só no que ele fez comigo, repare…!

 

Carlomano empalideceu (mal sinal!) coçou a cabeça branca e, muito calmamente, perguntou à mulher:

 

– E onde está o seu santo marido ?

– Tá em casa, seu velhinho… Além de me deixar desse jeito, me botou de casa pra fora! Agora, não tenho mais onde morar… Então, eu queria falar com o delegado!

– Eu sou o delegado. Fique calma e me ensine direitinho onde fica a sua casa. Eu vou mandar buscar o seu marido.

– Eu moro na rua Celeste Bezerra, bem alí na Levada, seu delegado velhinho.

 

Bom. Enquanto policiais improvisavam curativos no rosto, nas costelas e nos braços da mulher, uma equipe de tiras e ia e voltava à sua casa, puxando mil por hora. Ao retornarem à delegacia com o agressor, os agentes o atiraram no chão, aos pé do delegado:

 

– Olhe aí o valentão, doutor! – disse um deles,

 

Carlomano levantou o cabra por uma das orelhas e indagou:

 

– Por que você fez uma desgraça dessa na sua mulher,  seu cabra safado? – e acrescentou-lhe um tabefe no pé do ouvido.

 

Meio mouco, o agressor respondeu:

 

– Foi ela mesma quem pediu, doutor, por fé de Deus!

– Ela pediu???!!!

– Foi, doutor. Acredite. Cheguei em casa, de volta do trabalho, e ela começou a me esculhambar, como sempre faz, dizendo que eu estava com as raparigas…

– E você estava com as raparigas? – quis saber o delegado.

– Tava nada, doutor. Então, eu fiz que não escutei e ela insistindo… “Você tava com as raparigas, seu safado”. Aí, dei-lhe um tapa. Ela disse: “Bata de novo, seu corno!”

– E você é corno?

– Isso não sei, doutor. Quem sabe é ela. Eu vivo trabalhando na rua, de manhã, de tarde e de noite. De modo que não sei se ela me chifra. Mas essa mulher parece que tava virada no cão. Entrei no quarto, ela entrou atrás: “Me bata, seu corno! Vá, me bata. Além de corno, é viado e covarde!”

 

Carlomano se virou para a mulher, que se achava acomodada numa poltrona. Encarou-a, e disse:

 

– Fale a verdade, dona! Seu marido é corno e viado ou não é?

E ela:

– É não, seu velhinho. Eu ando certinho, e ele também. Nunca botei ponta nele. É que eu estava querendo mesmo levar uma surra, sabe? Acho tão lindo a minha vizinha Dasdores apanhar do marido dela!

 

      Com Diego Villanova