Ailton Villanova

6 de janeiro de 2018

O “príncipe” e o plebeu

ilustracao 06 01 18 rpt 04 09 12 600x300 c - O “príncipe” e o plebeu

Oitavo de 12 irmãos, o distinto Orégano Alcoforado veio de uma família modesta, porém de bem com a vida. Logo cedo ele aprendeu o ofício de lanterneiro de autos. Trabalhava durante o dia com espaço mínimo para as refeições e, à noite, estudava no supletivo, porque pretendia ser “gente muito importante na vida”. No começo, para suas locomoções, utilizava-se de uma bicicleta (de terceira mão) da marca Phillips tendo, anos mais tarde, a substituído por uma velha Kombi, a qual adaptou internamente para suas necessidades. Orégano era bastante criativo.

      Um dia, Orégano se deslocava de sua residência, na Chã da Jaqueira, para o trabalho, em Jaraguá, guiando o seu veículo quando, a certa altura do percurso, ao parar num semáforo, uma Mercedes-Benz vermelha encostou ao seu lado. Ao volante, um garotão debochado, autêntico riquinho, olhou pra ele e esnobou:

      – Esta minha Mercedes é o máximo! Tem ABS, airbags, tração nas quatro rodas, controle de temperatura, computador de bordo, vidros cromados, televisão com parabólicas… É mole ou quer mais?

      – Tem DVD player? Perguntou Orégano.

      Nesse momento o verde abriu no semáforo e a Kombi arrancou deixando o playboyzinho arrasado porque o seu carrão não tinha esse equipamento.

      Semanas depois os dois voltaram a se encontrar no mesmo semáforo. Aí o riquinho gritou de lá:

      – Ei, meu! Fique sabendo que a minha Mercedes tem DVD, falei?

      E o Orégano:

      – Mas tem minibar?

      O sinal verde apareceu novamente e a Kombi se mandou, deixando o garotão desiludido.

      Passaram-se os dias. O riquinho desfilava com sua reluzente Mercedes pela orla marítima e então reparou na Kombi daquele cara chato estacionada, com os vidros fechados. Ele parou ao lado, desceu da Mercedes e bateu no vidro da Kombi:

       – Ei! Ô cara! Instalei o  meu minibar, ouviu?

       – Orégano botou a cabeça de fora, depois de ter baixado o vidro, e respondeu malcriado:

       – Ô rapaz! Você me tirou do chuveiro por causa de uma besteira dessa?

Da dívida à loucura

      Comerciando falido, Catervaldo Xavier hoje em dia não é nem a sombra do que foi no passado.                                                  Antigo dono de uma bela propriedade no Agreste, possuía uma grana graúda no banco. E ainda esnobava adoidado, por esse mundo afora. Todos os anos, montava num “asa dura” e danava-se a fazer turismo por esse mundão de Deus.

      De repente, eis que o infeliz iniciou um mergulho vertiginoso no nada e caiu na falência total. Aí, deu para andar falando sozinho e a chorar feito bezerro desmamado. Mas, eis que, um dia, surgiu-lhe uma alma caridosa que cochichou no seu ouvido:

      – Procura um terapeuta, Catervaldo! Procura um terapeuta, do contrário você vai morrer doido!

       – Doido eu já estou, Obdúlio! Só falta mesmo morrer! – replicou o infeliz.

      – Doido totalmente você não está, mas a caminho disso, isso é verdade! Procura logo um doutor, rapaz!

     Diante da insistência do amigo, Catervalo procurou o terapeuta Melinésio Coutinho:

       – Doutor! Só o senhor me livrará da loucura total! – desabafou Catervaldo, diante do especialista.

       – Conte-me sua história, meu amigo. – pediu doutor Melinésio.

       – Andei fazendo uma série de asneiras na vida, mas a maior delas me fez perder tudo o que eu tinha. Hoje em dia, não consigo mais dormir!  Para complicar, também não me alimento e só vivo com dor de cabeça de tanta preocupação!

        – Mas, entre tantos, qual o principal motivo de tanta preocupação?

        – Dinheiro, doutor! Ou melhor, a falta dele! Se eu lhe disser que fui um homem muito rico, o senhor acredita?

        – Claro que acredito! Mas, me responda outra coisa: pra onde foi toda a sua fortuna? Para o jogo? Mulheres?

       – Não, não, doutor. Bem dizer, eu dei todo o meu dinheiro de “mão beijada”. Entrei em falência e nunca mais parei de pensar no assunto…

        – Ah, meu caro, você ter que fazer uma forcinha para esquecer esse dinheiro. Olha, outro dia esteve aqui um paciente que não conseguia dormir e nem comer por causa das dívidas que havia contraído com um tio. Falei pra ele esquecer o tio e que o tio era quem deveria ficar preocupado, já que tinha muito dinheiro a receber. Muito, mesmo! Daí em diante, ele passou a dormir tranquilo!

        Curioso, Catervaldo retrucou:

        – Como é o nome desse paciente, doutor?

        – Gelásio!

        – Pois, doutor, eu sou o tio desse infeliz! Eu lhe prometo que, a partir de amanhã, a esposa dele é quem não vai dormir tranquila!

Com Diego Villanova