Ailton Villanova

4 de janeiro de 2018

O abrigo era bom, mas…

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Quando moço, seu Atahualpa Ribeiro foi um atleta eclético. Na Pajuçara, onde nasceu e viveu, ele reinou. Iatista, campeão de natação, jogador de volibol e basquete ele estraçalhava nas quadras. Apesar de exercitar todas essas atividades esportivas, ele ainda arrumava tempo para dar uma de cantor nas noites boêmias do histórico bairro do Jaraguá.

Torcedor fanático do Clube de Regatas Brasil, seu Atahualpa nunca perdeu um jogo do seu CRB, no estádio da Pajuçara, chovesse ou fizesse sol. Ganhando ou perdendo era alvirrubro, sempre.

Casado com dona Martha, ele e a mulher só tiveram um único filho, o Júnior, que optou por servir na Marinha de Guerra do Brasil, no posto de oficial. O tempo foi passando, o filho sempre viajando pelos mares do mundo, saudade aumentando e dona Martha terminou morrendo.

Dos 70 até os 85 anos, seu Atahualpa viveu só, numa confortável casa, na Pajuçara. Mas ficou adoentado, necessitando de companhia e aí apelou para o filho, que ainda continuava pelejando no alto-mar.

Depois de uma conversa demorada pelo telefone, decidiram, pai e filho, que o velho passaria a viver numa casa de idosos, onde ele teria toda a assistência de que necessitava. De modo que  Júnior veio à Maceió para adotar os providenciamentos a respeito.

Pai e filho foram, então, conhecer o local onde seu Atahualpa deveria asilar-se. Enquanto Júnior ultimava os preparativos para a acomodação do velho na nova residência, este aguardava sentado no sofá da recepção. De repente, ele começou a pender para a esquerda. Um médico que passava por perto, correu para ajudá-lo a equilibrar-se: empilhou vários travesseiros no lado esquerdo dele e seguiu em frente.

Daí a pouco, seu Atahualpa estava se inclinando para a direita. Um funcionário do asilo percebeu e ajeitou os travesseiros no lado direito.

Não demorou muito, olha ele ameaçando cair para frente! Mais que depressa uma enfermeira acudiu, empilhando outro monte de travesseiros diante dele.

A essa altura, o filho retorna:

– Então, pai, este parece um lugar agradável, não é?

E seu Atahualpa:

– Parece, sim. Todos são bem atenciosos, mas tem um problema…

– Que problema, pai?

– Eles não deixam a gente peidar!

 

Ganhou na marra!

Num barzinho do subúrbio, dois malandros biritavam e comiam tripa de porco com farinha seca. Daí a pouco, um deles, o mais observador, perguntou ao outro:

– Pô, mano véio, tu tá usando um relógio esperto! Lindão mesmo! Onde comprou?

– Comprei não. Ganhei numa corrida…

– E tinha muito nego participando?

– Tinha não. Só eu, o dono do relógio e dois policiais!

 

A má notícia seria boa?

Gente fina, e ligado numa oraçãozinha nas horas de deitar e levantar, o Epitáfio Aristolino chegou a ser congregado mariano na paróquia de Santo Antônio, em Bebedouro. Foi numa das festas do padroeiro do bairro, que ele conheceu a doce Amaralina, cuja mãe, dona Estriquinina, era uma mulher realmente de morte.

Por amor a Amaralina, com quem casou depois de um mês de namoro e noivado, Epitáfio suportava a cascavel, digo, a sogra. Juntava esse amor ao fato de ser um católico fervoroso, exemplar filho de Deus.

Mal se casou com Amaralina, a peste da sogra aboletou-se na sua casa  com armas e bagagens, sob o argumento de que “vivia muito só e seu único amparo era a filha ”. Estriquinina era viúva e, segundo as más línguas, fora responsável pela morte do marido Artrósio, vitimado pela ingestão de veneno para matar ratos e formigas.

E o infeliz do genro Epitáfio passou a viver num verdadeiro inferno. E, para poder viver um pouco tranquilo ele só voltava para casa no final da noite.

Um dia, Amaralina, toda lacrimosa, ligou para o trabalho do marido:

– Amor, snif… a minha mãe teve um ataque do coração e está muito mal! A ambulância acabou de levá-lo pro hospital!

A vontade do Epitáfio foi a de dar cambalhotas de alegria, mas se conteve para não magoar a esposa querida. Cheio de hipocrisia, ele lamentou:

– Ah, mas que pena… Sinto muito, meu amor. Olha, quando eu sair do trabalho irei vê-la no hospital, tá certo?

À noite, quando voltou pra casa, Epitáfio encontrou a esposinha aflita:

– E aí, Tafinho, como está a maínha?

Epitáfio puxou uma cadeira, sentou-se e disse com a cara mais triste do mundo:

– É o seguinte, meu amor… pelo que entendi do que o médico me falou, ela está com ótima saúde. Acho que vai viver muitos anos. A impressão que o doutor me passou é que sua mãe já pode voltar pra casa qualquer hora dessa…

Amaralina vibrou:

– Nossa, amor, que incrível! Estou tão feliz! Mas… eu não estou entendendo uma coisa…

– Que coisa?

– O doutor me disse hoje à tarde, pelo telefone, que maínha teria pouco tempo de vida…poucas horas, talvez!

Epitáfio olhou com tristeza para a mulher e respondeu:

– Eu não sei como ela estava hoje à tarde, mas às 21 horas, quando estive no hospital, o médico já foi me falando que eu devia me preparar para o pior!

 

Com Diego Villanova