Ailton Villanova

28 de dezembro de 2017

Mas que falta de responsabilidade!

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      O ajudante de obras Generino Paixão, o Genepa, chegou em casa boquinha da noite com o astral mais baixo do que poleiro de pato. Sua mulher, dona Severina, encostou nele:

      – Quê que tu tem, que tá com essa cara, homem?!

      E o Genepa:

      – Não sabe o Raimundo, aquele meu colega?

      – O careca? Sei.

      – Pois ele morreu!

      – Vixe Mãe Santa! Do quê, hein?

      Genepa contou:

      – Eu tava trepado no andaime, no oitavo andar, junto com o Raimundo, quando me deu uma vontade lascada de fazer cocô… dor de barriga da “bobônica”! Como não tinha outro jeito, precisei correr de lá e fui procurar a privada da obra, no segundo andar, pra me aliviar. E justamente nessa hora o andaime despencou lá de cima com o infeliz do Raimundo em cima…

      – Minha Nossa Senhora da Fátima! Meu Padrinho Ciço! E a empresa não vai fazer nada pela família dele?

      – Ah, vai fazer, sim! Eles prometeram pagar o seguro de vida em dobro pra viúva, vão dar uma bolsa de estudo p’ros meninos do coitado, até eles terminarem a faculdade. A viúva vai ter pensão vitalícia, cesta básica, vale transporte… Ah, a empresa vai dar também um plano especial de saúde para a família toda!

         E a mulher do Generino:

         – Parece até mentira! Uma oportunidade dessa bate na tua porta e tu fica cagando, trancado na privada! É muita falta de responsabilidade tua!

Aruba, o incompreendido

      Rosauro Aruba filho, o notório Arubinha, nunca foi dado a luxos. Sujeito simples, a única coisa que lhe faz gosto é a birita. Ah, essa sim!

      Certo dia, ele acordou cedo para trabalhar, vestiu a roupa de sempre, escovou os dentes, tomou café, beijou a mulher e entrou no elevador. Assim que a porta do bicho se fechou às suas costas, dona Heliogábala – antigona moradora do prédio –, abriu a boca e censurou:

       – Puxa, seu Aruba, como os seus sapatos estão sujos! Não estão,  minha gente?

       E a turma toda, no elevador:

       – Estããããooo…

       Dia seguinte, Arubinha acordou mais cedo, e deu o maior brilho nos pisantes. Entrou no elevador todo ancho e dessa vez não foi dona Heliogábala quem censurou. Foi seu Aristeu:

        – Ô rapaz, essa tua calça saiu de dentro de uma garrafa, foi?

        Gargalhada geral.

         Na quarta-feira Arubinha aplicou novo brilho nos sapatos, passou a calça a ferro e entrou no elevador, onde se encontravam os vizinhos de sempre. O comentário, agora, foi sobre a camisa:

         – Cadê o botão da camisa, ô cara? Olha só o bucho aparecendo! – criticou o Bianor, morador do apartamento de frente.

         Arubinha suportou calado mais essa observação em seu desfavor. Dia subsequente, procurou todos os defeitos: incrementou o brilho nos sapatos, aplicou nova alisada nos cabelos, deu outra passadinha de ferro nas calças (sempre as mesmas) reforçou o pregamento dos botões da camisa… Tudo joiado. Achou pouco, acrescentou um paletó na vestimenta. Não teve jeito:

      – Iiiihhh, vizinho! Esse seu paletó não está com nada! Além de desgastado está curto demais! É melhor não usá-lo.

      Na sexta-feira e no sábado as críticas giraram em torno do cabelo e da barba, que estavam crescidos demais. Aí, ele encheu as medidas e procurou um dos nossos shoppings. Três horas depois, saiu de lá cheio de sacolas e pacotes.

       Domingo de manhã, o homem parecia outro. Entrou no elevador pisando firme, olhando para os outros de cima para baixo. Todo mundo boquiaberto com sua elegância.

       E ele, provocando a turma:

       – Tá tudo bem com vocês? Nenhum comentário a fazer a respeito de minha pessoa?

       Uma velhota residente no penúltimo andar, se antecipou aos demais:

        – Está tudo bem. Mas pra quê esse exagero todo, seu Aruba?! Num domingo de manhã, o senhor de terno novo, gravata nova, sapatos novos, barba e cabelos aparados…e todo perfumado desse jeito…!

        – Hummm… Hummm…

        – Hoje é dia de se vestir modestamente… bermudas velhinhas, chinelos, camiseta… Nesse luxo todo, a impressão que se tem é a de que o senhor está querendo esnobar a gente!

         Na semana seguinte Arubinha trocou de residência. Foi morar em outro condomínio.

Acudam! O neném está nascendo!

      A anciã Mirandolina Barros (dona Mirinha) tinha o maior ciúme da jabuticabeira que seu saudoso marido, Juca Barros, havia plantado meio século atrás, na frente de casa. Era uma árvore excepcional. Frutificava o ano inteiro, sem parar, que nem cantiga de grilo. A jabuticabeira era a lembrança eloquente do finado, a quem ela amou com ardor e paixão.

      Dona Mirinha não permitia que cristão algum se aproximasse da árvore, quanto mais subir nela. Mas, o Izidaque, vizinho do lado, não perdia as esperanças:

       – Um dia eu subo lá e pego as jabuticabas que puder!

       O tempo foi passando, e as chances do Izidaque diminuindo. Até que ele resolveu enfrentar a velha:

       – Ô dona Mirinha! Será que a senhora poderia me arrumar um punhado dessas frutinhas?

       Ela negou veementemente:

       – De jeito nenhum! Nem me fale nisso!

       – Mas dona Mirinha é pra remédio! Meu filhinho está cheio de lombrigas e dizem que jabuticaba é remédio bom para matar verme de criança!

       – Não adiante insistir!

       – Eu pago pelas que pegar…

       – As minhas jabuticabas não vendo e nem dou!

       – Mas de jeito nenhum, dona Mirinha?

       – Só abro uma exceção. Das minhas jabuticabas eu só abro mão pra mulher grávida, e pronto!

       Izidaque girou nos calcanhares com uma fervilhando na cachola. Entrou em casa, vestiu uma roupa de mulher, arrumou um travesseiro na barriga  ajeitou uma peruca na cabeça, pintou os beiços e voltou à casa da  velha fantasiado de mulher grávida.  Nada por baixo do vestido.

      Izidaque afinou a voz e chamou na porta. Quando dona Mirinha atendeu, ele falou, revirando os olhos:

      – Por acaso essa jabuticabeira é da senhora?

      E a anciã:

      – “Por acaso!, é, sim! Por quê pergunta?

      E a falsa grávida:

      – É que eu estava passando por aqui, vi essas frutinhas tão lindas e me bateu o desejo… Ai que desejo de comer jabuticaba, meu Deus!

      Na mosca! A velha sensibilizou-se:

     – Pode pegar quantas puder. Só que vai ter que subir você mesma… Tô velha demais para trepar em arvores!

     – Eu mesma subo! –alegrou-se o disfarçado.

     Izidaque subiu na jabuticabeira mais rápido do que um gato. Estava se regalando lá em cima quando dona Mirinha perguntou:

      – Você tá grávida de quantos meses, minha filha?

      – Nove! – o vivaldino respondeu sem pensar.

      A velhusca assustou-se ao olhar mais uma vez para cima:

      – Vixe minha Mãe do Céu! Desça logo daí e corra para a maternidade, porque o neném já está nascendo, minha filha. Olha, o bracinho dele já está pendurado do lado de fora!

 

Com Diego Villanova