Ailton Villanova

23 de dezembro de 2017

Um Conto de Natal

O NASCIMENTO DO MENINO JESUS

                      Aílton Villanova      

Sol causticando. O esquelético jumento é puxado por um homem de caminhar vacilante, trôpego. O homem para, olha adiante. Só vê estrada acidentada e poeirenta. Vira-se e fala para a mulher que está montada no animal:

– Tá doendo muito, Maria?

Ela gemeu e apertou a enorme barriga:

– Doendo demais, Zé! Acho que não vou aguentar…

– Vai! Com a fé de Deus, vai!

Curvado pelo cansaço, José tinha a cara e o corpo lavados de suor. A temperatura no Sertão das Alagoas é impiedosa, massacrante. José e Maria haviam saído da cidade de Palestina, situada no limite de Pão de Açucar com Monteirópolis, intencionando chegar naquele mesmo dia à Belém, que fica pra cá um pouco de Palmeira dos Índios, localizada no Agreste, onde o clima é menos cruel. A caminhada era longa e difícil. Com o bucho pela boca, Maria estava em vias de dar à luz. Ela e o marido tinham arribado de Palestina para verem o filho nascer na terra natal de ambos.

 

Havia seis meses o casal se transferira para a zona rural de Palestina, onde José teria trabalho, casa e comida. A princípio, teve. Mas, ao cabo de dois meses atuando como vaqueiro, ele foi despedido pelo patrão, um fazendeiro chamado César Augusto, quando este descobriu que Maria, a mulher do seu empregado José, estava grávida.

Os dias que se seguiram foram tormentosos para o casal. Todavia, esperançoso de nova oportunidade, José fez a cabeça da mulher e ambos permaneceram arranchados ao pé de um morro encravado numa extensa área onde, outrora, a plantação e até mesmo o mato foram abundantes.

Agora, a terra esturricada pelo sol inclemente maltratava, feria. O calor sufocante consumia as carnes de José e Maria, cujo ventre guardava o primeiro fruto da união dos dois. Sobreviviam do que José conseguia amealhar à custa de muito sacrifício. Naqueles dias, ele não era nem a sombra do homem robusto e disposto de antes. A fome é terrível!

– Num aguento mais não, Zé! – gemeu outra vez, Maria.

– Aguenta, mulher. Seja forte!

– A dor é grande, Zé! Ai, meu Deus! Eu queria morrer!

– Deixa de ser agourenta, Maria!

– Pare já esse jumento, Zé!

– O que foi?

 

José parou o animal ao pé de uma árvore seca, que sequer dava sombra, plantada à beira da estrada, e ajudou a companheira descer do lombo do animal.

 

– Ai! Ai… Zé! Dói!

– Calma aí!

O casal sentou-se no chão poeirento e acidentado, sem dizer palavra alguma. Capim nenhum para o jegue comer. Faminto, o quadrúpede mastigava torrões de barro. O sol continuava ardendo. Nem um sopro de brisa. Tempo parado. Deserto do cão!

– Tô com fome, Zé! – gemeu Maria.

O homem meteu a mão no bisaco, puxou de dentro um pedaço de rapadura e o pôs na mão de Maria, juntamente com um punhado de farinha:

– Come!

Ela comeu tudo. Depois, bebeu água de uma cabaça que José carregava pendurada na cintura. Soltou novo gemido e reclamou:

– Diacho! Acho que o menino vai nascer antes da gente chegar à Belém…

– Vamos ter que chegar lá.

– Que dia é hoje, Zé?

– Parece que é véspera de Natal.

– Virgem Santa!

– Amém!

 

O sol morria na linha do horizonte e, exaustos, maltratados, José, Maria e o animal, seguiam caminhando. José calculou que faltava légua e meia para chegarem a Belém. As dores atormentavam Maria, que vertia compridas lágrimas – estrago irremediável das escassas gotas d’água que retinha no corpo esquálido, deformado pela gravidez.

– Zé…

– Num fala, mulher. Aguenta aí!

– Mas, Zé…

– ‘Tamos já chegando, Maria. Pense em Deus que é melhor. Pede forças à Ele!

– Tô fraquejando, Zé!

O animal manquitolava pela estrada. Quase não mais suportava o peso de Maria e do fruto do seu ventre. Mas, seguia em frente, estimulado por José:

 

– Êia, êia, burrinho!

 

A noite caiu rápido e o céu ficou escuro que nem breu. Na caminhada, José e Maria haviam subido 150 metros acima do nível do mar. O esforço tinha sido enorme.

Final da noite. Eis que surgem as primeiras luzes de Belém.

Soaram como cânticos de anjos as palavras brotadas da boca de José:

– Chegamos, mulher! Estamos em Belém!

Maria chorou e teve um espasmo. Em seguida, um grito de dor explodiu na sua garganta:

– Ai, meu Deus! Vai ser agora, Zé! Me acuda mãe de Cristo!

Nesse momento começaram a cair grossos pingos de chuva. A natureza chorava com Maria. Solidarizava-se com Maria. Congratulava-se com Maria.

O casal estava próximo à porteira de uma fazenda e não tinha mais como prosseguir. José gritou pedindo socorro, quando a mulher desmaiou.

Ao seu apelo, acudiram três cavaleiros. Eram empregados da fazenda.

– O que está havendo, rapaz? – indagou o que parecia ser o líder deles.

E José, aflito:

– A minha mulher… Ela tá querendo parir…

A casa da fazenda estava fechada, porque o patrão daqueles homens havia viajado com a família para a Capital. O jeito foi acomodar o casal na estrebaria.

Meia-noite de Natal!

Tendo como testemunhas os animais da estrebaria, nascia o filho de Maria e José.

A parturiente abriu os olhos e chamou baixinho:

– Zé…

– Tô aqui!

– Como é que a gente vai chamar o bichinho?

E José, rindo de felicidade:

– A gente vai chamar ele de… Jesus!

– Jesus?! Pois, então, que seja!

O recém-nascido choramingou, chupando o bico do peito macilento da mãe.