Ailton Villanova

22 de dezembro de 2017

Cavalo na contramão

Todo desmantelado, o sujeito deu entrada na delegacia de polícia do 5° Distrito (localizada no Tabuleiro do Martins), sentado numa cadeira de rodas, que era empurrada por um molecote. Tinha gaze e esparadrapo pelo corpo inteiro, exceto a língua e os caroços dos olhos. Mais parecia uma múmia.

– Quero falar com o delegado! Ele tá?  – indagou ao agente que se achava de serviço na portaria.

– O doutor José Vilson não está. Nem ele e nem o chefe de serviço. Só está o escrivão, serve?

– Serve. Tudo é autoridade.

O policial conduziu o cadeirante à presença do escrivão Jorge Luiz Fernandes, que quase caiu de costas quando reparou na figura:

– O que foi isso, meu amigo?! Atropelamento?

– Foi uma trombada de cavalos!

Jorge Luiz segurou-se para não cair na risada:

– Trombada de cavalos???!!!

– Sim, senhor. Por isso vim aqui prestar queixa contra o responsável pela tragédia, o tal de Zé Luciano…

– Especificamente, o qual a responsabilidade dele nessa trombada de cavalos?

– Eu explico pro senhor. Esse Zé Luciano montava no cavalo que trombou com o meu, tá entendendo? Ele vinha, e eu, todo certinho, parado na minha mão, me preparava para começar a cavalgar… De repente, vabei! Foi muita irresponsabilidade dele!

– Me dê mais detalhes do acidente.

O queixoso, cujo nome é José Cícero, deu início à narrativa do seu drama, na conformidade do pedido do escrivão:

– O senhor tá lembrado da cavalhada de São João, que aconteceu aqui no Tabuleiro?

– Tô por dentro.

– Pois foi lá. Estava indo tudo direitinho quando esse tal de Zé Luciano, quis aparecer para a galera…

– Muita mulher no pedaço?

– Iche se tinha, doutor! Montes e mais montes de mulheres. Foi por causa disso que o safado achou de querer se exibir. Todas as vezes que ele acertava a lança na argola, se virava para as mulheres e jogava beijinhos…

– E como se deu, exatamente, a trombada?

– Bom, a trombada se deu quando ele marcou mais uma argola e começou a fazer “farol”. Aí, perdeu as rédeas do cavalo, que disparou pela contramão. Justamente nessa hora, eu estava partindo para cumprir a minha parte na cavalhada. Mal me aprumei na sela… Cataplaft! Olhaí a trombada! Voei mais de cinco metros por cima da cabeça do cavalo, passei raspando por uma cerca de arame farpado, derrapei num poste, deslizei com a cara no chão, levantei voo e depois caí sentado em cima de uma touceira de espinhos. No fim das contas, contabilizei seis costelas quebradas, uma clavícula, o nariz, um braço, uma perna e a bacia fraturados…

– E o cavalo? – cortou o escrivão.

– Essa é a outra parte importante da história, doutor escrivão. Estou aqui também por isso!

– Como assim?

– Eu gostaria que o senhor mandasse prender o fidapeste do Zé Luciano e fizesse com que ele pagasse o conserto da venta do meu cavalo…!

– A venta do cavalo?!

– Sim, senhor. Com a trombada, ela se quebrou todinha!

Uma transa especial

Genolino voltou do trabalho, entrou em casa todo animado, chamou a mulher Rosalice e disse:

– Minha filha, a turma lá na repartição me ensinou um tipo de transa especial que é a coisa mais sensacional do mundo! Inclusive, o Asnóbrio… sabe o Asnóbrio?

– Sei.

– Pois o Asnóbrio experimentou com a mulher dele e garantiu que é uma maravilha! Vamos ver, também?

– Vamos!

E foram os dois ao quarto do casal. Todo entusiasmado, Genolino pediu que a mulher deitasse na cama, se ajeitasse na posição tradicional – pernas abertas, etc e tal -, enquanto ele ficava na porta, já aprumadão. Dali mesmo, marcou carreira e partiu firme para cair com a “flexa” no “alvo” da Rosalice. Acontece que no meio da corrida, ele deu uma topada violenta no pé da penteadeira e caiu embolando no chão, gritando de dor:

– Ai! Ui! Oooiiiuuu!

Reparando naquela cena inusitada, Rosalice protestou:

– Ô Geninho, que tipo de transa especial é essa que só você é quem goza?

É melhor biritar!  

De repente, Rosauro Aruba Filho, o Arubinha, começou a murchar que nem flor em grinalda de defunto. Bebedor incorrigível, esse distinto espécime da raça humana começou a ficar com as pernas bambas, a ponto de muito mal se sustentar nelas.

Preocupada com a saúde do marido, dona Delzuíta correu com Arubinha ao consultório do doutor Carlos Augusto Carvalho e o exibiu ao facultativo:

– Repare só no estado do meu marido, doutor! Salve o coitadinho pelo amor de Deus!

E Carlinhos, tranquilão:

– Deixe-o comigo!

Dito isto, doutor Carlos Augusto se virou o Arubinha e perguntou:

– O que é você está sentindo, meu amigo?

E ele, mal podendo falar:

– Eu sinto náuseas, dores no corpo, a vista encurtou, a boca secou, estou quase mouco…

– Danou-se!

– … sinto dores nas juntas, os cabelos estão caindo aos montes…

O médico ficou assustado:

– Pode parar por aí! Você fuma?

– Fumo, doutor!

– Muito ou pouco?

– Uns noventa cigarros por dia…

Carlos Augusto interrompeu:

– É aí onde reside o problema! Você vai parar de fumar imediatamente. Fazendo isso, garanto que voltará a ter uma saúde  de ferro.

Dito isto, o doutor lhe prescreveu uns fortificantes da pesada e recomendou repouso absoluto.

Fora do consultório, quando retornavam ao lar, dona Delzuíta interpelou o marido:

– Ô Arubinha, você nunca fumou na vida! Por que mentiu pro médico?

E ele:

     – Se eu dissesse que não fumava ele iria perguntar se eu bebia… e aí, adeus cachaças, cervejas, vinhos, uísques…

   Com Diego Villanova