Gerônimo Vicente

19 de dezembro de 2017

A violência política que nos envergonha a cada dia

Quando o jornal O Globo completou 80 anos, em 2015, lançou seu acervo digital que contém grande parte das edições produzidas pelos jornalistas do periódico fundado por Irineu Marinho, em 1925 e que foram disponibilizadas no sistema Issu, aquele em que o leitor pode folhear de modo eletrônico, jornais, livros ou revistas. Como bom, apreciador de fatos memoráveis fiz uma consulta nesse arquivo sobre o que havia sido registrado em relação ao meu estado natal. Encontrei muitos anúncios publicitários do governo do Estado, principalmente à época da dobradinha Divaldo Suruagy e Guilherme Palmeira. Porém, o assunto que mais dominou o jornal dos Marinho nessas oito décadas, quando se refere a Alagoas foi a violência, principalmente o crime organizado político que ainda finca raízes no interior alagoano como mostram os recentes assassinatos de vereadores em Batalha e que bem refletem essa bicentenária realidade no território alagoano.

Reprodução do Arquivo digital  do jornal O Globo

No entanto, a referência ao histórico do crime em Alagoas não está apenas nos arquivos de O Globo, mas também no Estadão, Folha de São Paulo e outros quase centenários jornais brasileiros e até internacionais. No final dos anos 1990 quando a internet se popularizou no país, já que antes o acesso era limitado e pago, fiz uma consulta ao portal do jornal online, New York Times, depois de ter feito um cadastro sem custo financeiro. Ao consultar o nome “Alagoas”, surgiram reportagens sobre nosso estado ainda do tempo imperial e fiquei impressionado com a riqueza de detalhes contida nas informações. Por exemplo, a visita de Dom Pedro II pelo Rio São Francisco para discutir oportunidades energéticas na região teve a cobertura de um jornalista do jornal norte-americano, em pleno século 19. Talvez fosse aquela ocasião as primeiras discussões sobre projetos como os das hidrelétricas de Sobradinho e Xingó. Entretanto fiquei abismado como a variedade de fatos policiais ocorridos em terras alagoanas e que dominava o arquivo do NYT, como, por exemplo, o tiroteio na Assembleia Legislativa, em 1957 que resultou em mortes e ainda a reportagem sobre as seis cabeças humanas do bando de Lampião que foram enviadas ao governo do Estado como se fossem troféus conquistados na luta pelo fim do cangaço no sertão e que foi divulgada em 4 de agosto de 1938. Hoje serviço é pago em dólares, mas os títulos e um resumo dessas matérias antigas ainda podem ser consultados. O fato é que o histórico de pistolagem política alagoana ganhou o mundo e traz consequências danosas aos alagoanos, mas os assassinatos nesta categoria de crime não cessam.

Links  do New York Times: Tiroteio na Assembleia Legislativa em 1957

A violência política com mortes, em Alagoas parece ser motivo de orgulho daqueles que praticam e, por esse, tipo de comportamento, o estado, vez por outra é comparado, pelo país afora, a uma terra sem lei apelido recheado com doses de exageros, cuja depreciação pegou e os homicídios políticos mais recentes parecem confirmar esse sentido pejorativo.

Alagoanos que somos, sentimos na pele a discriminação resultante da violência política. Em 1993, por exemplo, eu era assessor de comunicação do Ministério da Educação em Alagoas e o colega jornalista Rosivan Wanderley exercia a mesma função na Universidade Federal de Alagoas. Viajamos junto para um Encontro de Comunicadores do MEC, em Belo Horizonte, terra do então ministro do governo Itamar Franco, Murilo Hingel. Mais de 300 profissionais que atuavam nas delegacias do MEC, nas universidades federais e nas escolas técnicas participavam do evento e Alagoas virou o centro das atenções do evento por dois motivos: na mesma semana, o MEC havia bloqueado recursos federais para o Estado por irregularidades na prestação de contas, entre esses desvios de recursos públicos; outro fato era a violência política, pois no domingo, um dia antes da abertura do evento, a principal reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo trouxe a primeira-dama do estado e sua coleção de armas, uma delas, uma pistola banhada a ouro e considerada por ela como objeto de estimação. Confesso que fiquei incomodado pelo número de questionamentos sobre atos desmedidos cometidos por autoridades e Rosivan ainda mais, pois tinha aproximação com integrantes do governo. As gozações não foram poucos durante o evento, até porque meses antes houve o impeachment do presidente Collor, dezembro de 1992. Incomodado, aproveitei para fazer uma entrevista com o ministro sobre as supostas irregularidades e, para minha surpresa, Hingel me ofereceu detalhes com números  que pareciam justificar a situação de bloqueio de verbas. Citou relatórios do TCU, inspeção do FNDE. Enquanto isso, o governo do Estado alegava retaliação depois de impeachment de Fernando Collor da presidência da República.

  Essa visibilidade negativa perdura até hoje e ainda não se sabe até quando vão nos  associar a essas mazelas políticas cometidas contra nosso estado.