Ailton Villanova

16 de dezembro de 2017

A origem da Bahia

      A História do Brasil é riquíssima em todos os sentidos. Belas passagens, intrigantes aventuras, heroicas sagas de desbravadores deste território-continente. Na História do Brasil intercalam-se também episódios que vão do dramático ao prosaico, ao hilário. Afinal, todos vividos por homens detentores do mais diversos caracteres.

      Cada pedaço deste imenso torrão verde-amarelo emerge como resultado de duros embates pela sua posse. Pedro Álvares Cabral não teria vivido a saga da Descoberta do Brasil não fosse sua madrinha, dona Herculana, cuja existência a história omite, como também não registra o diálogo entre ela e o famoso afilhado, que impulsionou este à aventura descobridora. Dom Manuel, o rei, entrou no embalo tempos depois.

       Numa manhã de janeiro, dona Herculana, grande observadora, chamou o afilhado e disse:

       – Mô m’nino, tendo notado que estás a andaire muito parado! Por que não vais à aventura marítima, já que acabas de sair da escola náutica? Pega um barco e vai descobrir o Brasil, ora pois!

      Cabral adorou a ideia. Tanto que correu a palácio e bateu uma caixa com o rei. O resultado desse papo todo mundo sabe.

      Descoberto o Brasil, vieram outros achados, enchendo páginas e mais páginas de manuscritos contando novas e empolgantes epopeias, como as que resultaram na constituição das Alagoas e da própria Bahia, estado rico, de gente promissora, alegre, brincalhona e gozadora, muitas vezes indolente, segundo o anedotário.

      Grandes e importantes detalhes escaparam das narrativas de escritores e pesquisadores anônimos, como é o caso do professor Eufrasino da Anunciação Flores, baiano e gozador da própria espécie.

      Conta esse ilustre colega que, chegando a Porto Seguro, o português Pedro Álvares Cabral procurou conversar com um índio que tirava um cochilo, escorado num coqueiro de sua bela praia:

       – Bons dias ó nativo desta terra ensolarada! Como te chamas?

       – Índio chamar Bah!

       – Preciso de um favor seu, senhoire Bah!

       E o silvícola:

       – Bigodudo falar, Bah escutar…

       – A vela do meu barco quebrou. Preciso que nades até aquele outro navio, atracado na praia do lado de lá, para avisar a meus companheiros que descobrimos uma nova terra, na banda de cá!

       – O que Bah ganha com isso?

       – Bom, como homenagem a Vossa Senhoria e para que todos  lembrem que Bah foi até o outro lado da praia para oficializar esta descoberta, esta terra se chamará BAH-FOI!

       –  Ah, não! Bah não querer ir. Bah ter muita preguiça… Melhor o senhor chamar a terra de BAH-IA!

       E assim ficou.

O incrível feiticeiro

      Desde garoto, o índio chamado Xumpetilho já sonhava em ser o líder de sua tribo, a dos Brocoiós, instalada nos cafundós da Amazônia. Os brocoiós eram indivíduos de difícil diálogo. Tanto que os sertanistas encontravam dificuldades imensas em contactá-los. Dizem até que eram meio canibais.

      Certo dia, Xumpetilho andava meio perdido na floresta quando foi abordado pelo missionário cristão Paschoal Orelhana e, desse contato, nasceu uma grande amizade entre os dois. Anos mais tarde, o jovem Xumpetilho falava fluentemente o português, lia corretamente livros de inglês e discursava que nem candidato a presidente. Quando o cacique Xororó esticou as canelas, ele era o único da tribo com condições de substituí-lo. De modo que foi eleito cacique por unanimidade e as coisas começaram a mudar na aldeia brocoió.

      Cheio de ideias modernistas, Xumpetilho resolveu, um dia, conhecer o Rio de Janeiro, a convite do próprio Orelhana. A primeira vontade que manifestou ao assentar os solados dos pés na Cidade Maravilhosa foi conhecer o Maracanã, que aprendera a admirar através de fotografias. Padre Orelhana levou-o ao “Maraca” justo no dia do prélio envolvendo Flamengo e Fluminense.

       Dias depois, ao voltar a tribo, Xumpetilho fez uma reunião com sua comunidade para passar a experiência que mais lhe impressionou no Rio: aquela tarde no maior estádio de futebol do mundo.

        Emocionado, ele contava:

        – Milhares de pessoas gritando, sentadas numas colinas cheias de barranquinhos em volta de um prado muito verde. Depois, entraram correndo onze guerreiros vestidos de vermelho e preto e outros onze  usando camisas pintadas de vermelho, verde e branco. Coisa emocionante! Naquilo que os guerreiros entraram no prado, o povo começou uma gritaria danada. Aí, eu pensei: “Pronto! Vai começar a guerra!”

        A tribo inteira muda, impressionada, acompanhava a narrativa do chefe. Até as moscas faziam silêncio.

      Xumpetilho fez uma pausa, respirou fundo e prosseguiu:

      – De repente, a gritaria diminuiu e entrou um feiticeiro vestido de preto, com um enorme ovo pintado de branco e preto, debaixo do braço. O povo ficou mais quieto, e os guerreiros, onze de cada lado, olhando o ovo redondo. Assim que o feiticeiro soprou um tubinho, aconteceu o milagre!

       – Que milagre, chefe? – indagou um dos índios.

       – Começou a chover!

Com Diego Villanova