Ailton Villanova

15 de dezembro de 2017

Orelhas estrangeiras

      Até os 35 anos de idade o Berenildo Carposo, também conhecido como Cavernoso, era analfabeto. Por conta disso, o melhor que conseguiu, até então, foi o emprego de carroceiro, com atuação mais efetiva no bairro da Levada, por um motivo justificável: seu ponto de apoio era o mercado municipal, de onde transportava mercadorias para os locais adjacentes. Entretanto, dada a sua força de vontade, tornou-se motorista profissional, depois de ter concluído o curso noturno de alfabetização no Grupo Escolar 7 de Setembro, localizado na Ponta Grossa.

      Cavernoso residia numa pequena casa, pendurada na barreira que fica por trás da rua Marquês do Herval, Alto da Conceição (limite Bom Parto/Farol). Permaneceu solteiro até os 42 anos, quando conheceu a balzaca Odelina, mais velha que ele uns 12 anos, mas que dava pro gasto. Amancebou-se com ela e ambos permaneceram residindo no endereço já referido.

      Um dia, Cavernoso chegou em casa todo eufórico e anunciou para a cara-metade:

      – Nega véia, vou viajar pra Paraíba, amanhã bem cedinho!

      – Vixe, meu nego! Tu vai pra tão longe assim?

      – Longe nada! É pertinho. Vou pegar um frete joia. Volto de noitinha…

      – Olha, nego, vá devagar, viu?

      – Pode deixar. Você sabe que eu não sou de correr muito.

      – Nem muito e nem pouco. Tem que ser devagar!

      E Cavernoso viajou pilotando um possante autocarga da marca Studbacker, sensação dos anos 50. Na viagem de ida, ele se deu bem. Entretanto na volta, quase morreu, porque se envolveu num acidente violento. Quebrou um braço e perdeu as duas orelhas. Após algumas semanas internado num hospital pernambucano, encontrou um doador que passou a ser o pioneiro na consagração dos transplantes de órgãos no país. Um mês depois, ele voltou à Maceió acompanhado dos cuidados da mulher. Antes de receber alta, Cavernoso ainda com a cabeça enfaixada, ficou curioso para saber a identidade do doador e recorreu ao cirurgião que lhe fizera o transplante:

      – Doutor Belaildo, o senhor sabe o nome do cara que me deu essas orelhas novas?

      E o médico, embromando, para não revelar a identidade do doador:

      – Hummmm… Deixe-me ver… Olha, o doador ficou registrado apenas como “Tony”. Nada mais!

      E o transplantado:

      – Me responda só outra coisinha, doutor… O doador era estrangeiro?

      – Sim. Como o senhor sabe?

      – Fácil! É que eu ouço tudo, mas não entendo nada! – explicou o Carvernoso.

Valeria a pena encontrá-la?

      O mulher do distinto José Claudio sumiu do mapa e dois dias depois ele resolveu dar queixa na polícia:

      – O senhor tem uma foto dela? – indagou o delegado.

      – Sim. Está aqui comigo!

      Depois de reparar no retrato, o delegado perguntou:

      – O senhor tem certeza que quer mesmo que a gente encontre sua mulher?

Recíproca verdadeira

      Pense num cabra folgado. Pois o Antípodas da Cruz, servidor público é um desses exemplares. Basta dizer que nunca vai à repartição, mas no final de cada mês seu contracheque vem recheado de números, sem desconto algum. Dizem que ele tem padrinhos importantes e poderosos, o que não resta nenhuma dúvida.

       Ainda garotão, tentou ser jogador de futebol, a sua grande paixão. Não deu porque as canelas não ajudaram. “Muito fracas”, segundo definiu o especialista em canelas atléticas, doutor Luís Fernando Silva de Barros.

      Frustrado no bate-bola, Antípodas conformou-se com a condição de simples torcedor do Clube de Regatas Brasil, o famoso Galo da Pajuçara, cujos atletas o sobredito doutor Luís Fernando cuidou com bastante carinho durante um bom tempo.

       Bem, voltemos ao Antípodas.

       Certo domingo, ele se achava assistindo, pela televisão, ao jogo Flamengo x Vasco, quando sua mulher Maria do Socorro interrompeu:

      – Amor, você pode trocar a lâmpada do corredor?

      Ele olhou para Maria do Socorro com desdém e respondeu:

      – Por acaso você está vendo a logomarca da Philips na minha testa? Acho que não. Se vire!

      Mas Maria do Socorro não se deu por vencida:

      – Então, você pode consertar a porta da geladeira? Não está fechando!

      – Putaquipariu! Ô mulher da porra, está vendo, por acaso a logomarca da Brastemp na minha testa? Qualé?

      Para não ser mais incomodado pela mulher, o malandrão optou por ver o resto do jogo no bar da esquina. Depois da transmissão, tomou algumas cervejas com amigos e, duas horas depois, sentindo-se culpado pela forma como tratara  a esposa, voltou pra casa. Em lá chegando, constatou que a lâmpada do corredor havia sido trocada e que a porta da geladeira estava fechando maravilhosamente bem.

        – Meu amor, como tudo foi consertado? – ele perguntou à Maria do Socorro.

        E ela, tranquila e calma:

        – Bem, quando você saiu batendo a porta, um jovem muito simpático aqui da vizinhança, se ofereceu para consertar tudo, e eu só teria de escolher entre ir pra cama com ele e fazer um bolo de laranja…

        – E você fez o bolo de laranja pra ele?

        E Socorro, pagando com a mesma moeda:

        – Ô meu querido, por acaso você está vendo a logomarca da Quaker na minha testa? Acho que não!

Com Diego Villanova