Gerônimo Vicente

8 de dezembro de 2017

O “marketing forçado” que mascarou a origem do tráfico de drogas em Alagoas

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Maceió no início dos anos de 1980, um dos destinos mais procurado do país

Dois fatos policiais chamaram-me, nesta  semana, atenção para perceber o quanto o mundo do crime ganhou espaço em Alagoas nos últimos vinte anos, a ponto de dominar desde os becos das comunidades mais pobres aos mais luxuosos condomínios. Na quarta-feira, um vídeo postado nas redes sociais mostrou a execução de um homem por uma suposta facção rival. Semana antes, outro vídeo revelou um espancamento de  um jovem por um grupo rival. Os casos ocorreram em dois bairros populares de Maceió. Na sexta-feira (7), um homem que aparentava ser um empresário bem-sucedido de Maceió é morto e, pelo valioso patrimônio exposto pela Polícia Federal (carros e barcos de luxo, imóveis na área nobre e empreendimentos que atraiam jovens) jamais a chamada alta sociedade maceioense imaginasse  ter um como vizinho  um criminoso, procurado por tráfico de drogas em todo o país.

Esses dois casos leva-me a seguinte pergunta: como se enraizou o tráfico de drogas em Alagoas? Não sei se há resposta em algum estudo acadêmico ou em alguma investigação policial, porém por ser natural de Maceió, há cinco décadas, posso relembrar um episódio que talvez contribua para desvendar o nascedouro desse problema que se transformou em um caos social, a partir dos índices sociais que mostram Alagoas como o estado  que  mais mata jovens das comunidades pobres.

Em 1992, era editor da página de Polícia do Jornal de Alagoas, uma função que até então, com seis anos de casa,  não havia experimentado, depois de passar pelas áreas de Esporte profissional e amador, Economia, Geral e Município. Tinha como companheiros de editoria dois bons repórteres policiais que eram Claudelicio Santana e Antônio Pedrosa, daqueles que às 6h da manhã já estavam à porta das delegacias à procura de informação. Se havia uma página que enchia os olhos do diretor do jornal era a de Polícia. Para ele, um corpo estendido no chão e inundado a sangue,  era a certeza de esgotamento das edições das bancas. Foi assim no caso do assassinato de um comandante do 59 Batalhão de Infantaria Motorizado praticado por um soldado, chamado Leôncio, dentro do quartel, em 1988. O Jornal de Alagoas no dia seguinte circulou sozinho porque houve um problema na gráfica do jornal concorrente, A Gazeta de Alagoas, o que fez com que todos os cinco mil  exemplares do J.A fossem vendidos devido à curiosidade  que o caso atraiu.

Porém, recém-chegado da universidade e com uma visão mais político-acadêmica sobre esses episódios sanguinários estampados nas primeiras páginas dos jornais, por conta própria  resolvi enveredar por outro caminho da investigação sem focar apenas nas respostas sobre os crimes vindas da delegacias.

E, assim comecei uma série de entrevistas para a edição de final de semana. Uma delas remete ao questionamento do início desta postagem, ou seja a origem do tráfico de drogas no estado. A entrevista foi com o então superintendente da Polícia Federal em Alagoas, Jairo Kullman, considerado um dos mais experientes do país.

No final da década 1980 e início dos anos de 1990, Alagoas vivia um boom turismo, chegando a ocupar o posto de terceiro destino mais procurado do país, fruto de um trabalho de investimentos nos anos dourados de  1970, por ocasião da existência da Ematur (Empresa Alagoana de Turismo) cujo comando  era loteado pelo  trade turístico local. Devido ao apoio total do governo ao regime militar, bons ventos com suporte financeiro federal sopravam por essas bandas e resultaram na construção de estradas no litoral norte e da ponte Divaldo Suruagy que ligou Maceió ao litoral sul.

Os frutos somente começaram a ser colhidos dez anos depois,  quando as praias do Francês e Barra de São Miguel (litoral sul) e Paripueira (norte) passaram a ser explorada, primeiro pelos maceioenses e depois por turistas. Podia se falar mal de tudo no estado, menos do turismo alagoano e, foi neste ponto que minha entrevista com Kullman polemizou.

O chefão da PF disse-me que a maior preocupação do reduzido efetivo policial era com a alta temporada turística porque com o turismo chegavam também as drogas ao estado. Kullman apontou a praia do Francês como o ponto de maior atenção pelo fato de aglutinar bastante surfistas, boa parte de outros estados (à época o esporte era discriminado no estado e considerado por parte da população como alinhado à malandragem).Naquela ocasião, havia aumentado o número de apreensões de drogas no aeroporto Campus dos Palmares (nome da época).Era a cocaína botando as mangas de fora.

Antes de ser editor de Polícia, fui um dos pioneiros no jornalismo esportivo amador alagoano  junto com o jornalista Francisco José hoje na Gazeta Web, e notava que o preconceito em relação ao surf, notadamente na praia do Francês,  era evidente sem perceber o motivo das frequentes ações policiais.

A declaração de Kullman provocou reação do trade que avaliou ser aquele um ato intempestivo e que contribuia, somente,  para afastar os visitantes do estado. Até na redação do Jornal de Alagoas houve reação do colega e saudoso Aldo Ivo, editor da página de Turismo que alegou que eu não deveria ter entrevistado o superintendente em uma daquelas intromissões que somente quem conheceu o Aldo pode entender.

Vinte e quatro anos depois, a preocupação do titular da PF virou uma realidade inimaginável naquela época. O tráfico de drogas se instalou dos barracos da cidade à opulência dos condomínios fechados, resultado do  hábito da propaganda oficial  que, por longos anos, mascarou essa realidade.

Em meados dos anos de 1990, começou a escalada de jovens mortos na periferia de Maceió,  porém o número não entrava na estatística estadual. E, para completar, a versão policial, inclusive reproduzida pela imprensa local,  era de que os assassinatos eram resultados de “briga de galera”  (numa alusão  às torcidas organizadas locais de futebol).Era um eufemismo de mau-gosto para esconder um fato sério.A consequência  desse “marketing forçado” foi esse descalabro que colocou nosso estado na rota das organizações criminosas urbanas  e na formação de facções de periferias.