Ailton Villanova

29 de novembro de 2017

Natal (infeliz) em Miami

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      Achando pouco as suas aventuras na “Terra dos Marechais” o intrépido Marcos Florini, mais conhecido como “Marcão Magaiver”, inventou de curtir um barato internacional, está completando hoje 20 anos. Montado nessa ideia, ele chegou para os parceiros mais chegados “Vetinho Pelicano”, Nilson “Fura Pacote” e Zeca “Bagre” e sapecou:

      – Companheiros, que tal a gente dar uma esticada até Miami?

      – Que Miami, bicho? – espantou-se Zeca Bagre – Será que é a Miami que estou pensando?

      E ele:

      – Essa mesma. Por acaso existe outra Miami que não seja a dos Estados Unidos?

      – E que diabo a gente vai fazer lá? – interpelou Fura-Pacote.

      – Primeiramente, vamos tratar de adquirir um bom material de pescaria. Depois, a gente aproveita para capturar uns peixinhos naquele marzão verdão de lá. – esclareceu o dono da genial ideia.

      – Joia, mano velho! – alegrou-se Pelicano.

      – Depois da pescaria, virão as biritas, é obvio. – definiu Magaiver.

      Ideia aprovada sem restrições, o grupo caiu na estrada, montada num coletivo interestadual, rumo a Recife, de onde embarcariam num “asa dura” rumo a Miami.

       E lá foram eles, felizes da vida. Chegaram na linda e aprazível Miami, procuram o hotel mais popular do pedaço, deixaram lá as suas bagagens, ganharam a rua e começaram a gastar dinheiro em compras.

        Carregando mil pacotes contendo bugigangas, o quarteto voltou ao hotel, onde deixou as compras e, em seguida, ganhou a rua, novamente. Os caras ficaram tão entusiasmados com a birita norte-americana que esqueceram a pescaria. Eles estavam na véspera da viagem de retorno à Maceió quando Zeca Bagre lembrou:

         – E a pescaria, turma?

         – Caramba! E a pescaria? Esquecemos a pescaria! – completou Fura Pacote.

         – A estas alturas a pescaria já era! – definiu Magaiver. – Vamos tomar todas até amanhã, certo negrada?

         – Certo! – concordaram todos.

         No meio da manhã do embarque de volta, a turma acordou na maior ressaca. Despertaram de vez quando Vetinho Pelicano deu o brado:

         – Fomos roubados!

         Ousado larápio havia invadido os aposentos dos ilustres turistas e afanado tudo, inclusive as inseparáveis sandálias havaianas do Marcão. Isso o entristeceu bastante.

          Na condição de líder da patota, Marcão Magaiver tentou fazer-se entender perante o gerente do hotel, ao apresentar o seu mais veemente protesto contra o afano. Problema é que o gerente não manjou bulhufas do “inglês” do nosso amigo, que é mais enrolado do que língua de papagaio baraúna.

           Mas os insignes visitantes não ficaram no prejuízo total. O hotel resolveu recompensá-los com um CD natalino, já que a época era comemorativa do nascimento de Cristo.

Ladrão gozador

      Existiu em Maceió, na década de 50, um larápio conhecido como Guaxinim”. Além de ousado, o cabra era um tremendo gozador. Segundo os anais da crônica policial, ele tinha mais entrada na falecida Delegacia de roubos, Furtos, Investigações e Capturas (DRFIC) que os delegados que se sucederam ao longo de mais de vinte anos.

      Um dia, esse Guaxinim foi flagrado por agentes da saudosa Guarda Civil estadual, antecessora da Polícia Civil, num afano singular e imediatamente levado à presença do delegado da DRFIC, que, por sinal, estava estreando na função. Então, querendo mostrar que estava por dentro do babado, esse delegado apontou para o meliante e disparou:

      – Quer dizer que o senhor é o famoso Guaxinim, hein? É verdade que roubou pão na padaria?

      E o marginal, com um risinho cínico na cara:

      – E o senhor queria que eu fosse roubar pão aonde? Na farmácia?

Ladrão perdoado

      Autoridade policial recém-nomeada, a humaníssima Maria Salete Teixeira havia assumido as rédeas da distrital de polícia da cidade alagoana de Messias e, como primeira providência, resolveu abastecer a despensa da repartição policial, que nunca recebeu ao menos uma latinha de sardinha. É sempre assim: em canto nenhum, segurança pública nunca é levada a sério. Na delegacia de Messias o que abundavam mesmo eram teias de aranha e pucumãs.

      Doutora Salete abriu a bolsa, sacou o talão de cheques do finado Produban, destacou um deles, meteu lá um monte de cifras graúdas e entregou ao policial José Cícero, seu auxiliar imediato:

      – Compre tudo do bom e do melhor!

      A delegada não mandou? Então, o Zé Cícero chamou na grande. Quase esvaziou as prateleiras do mercadinho da cidade. Quando ele parou o carro na porta da delegacia e mandou descer a imensa feira, o povo fez fila para ver tanta fartura. O fato marcava pelo seu ineditismo.

      Dia seguinte, logo cedo, a notícia corria solta pela cidade:

      – Assaltaram a delegacia de polícia!

      Aproveitando o escurinho da madrugada, audacioso gatuno havia levado toda a feira e não teve a consideração de deixar ao menos meio quilo de farinha na despensa.

       Investiga daqui, investiga dali, e a delegada Salete Teixeira logo chegou ao autor do furto. Era um pobre citado que não tinha onde cair morto. À delegada, ele desabafou, entre lágrimas:

        – A sinhora me discurpe, dotôra. É qui lá im casa tava todo mundo cum fome. É duro a gente sabe onde tem tanta cumida do gunverno dando sopa e os fio da gente passando fome, é ô num é?

        Emocionada até às lágrimas, a delegada decidiu:

        – Tá perdoado!

        Enquanto Salete Teixeira permaneceu em Messias, na casa daquele infeliz pai de família jamais faltou comida.

Com Diego Villanova