Ailton Villanova

7 de novembro de 2017

A dentadura assassina

      Filho de pais paupérrimos, o José Eutíquio da Silva começou a trabalhar cedo, capturando sururu na lagoa Mundaú. Acompanhando o pai, seu Ascânio, ele saía de casa, localizada no Flexal de Baixo (no Bebedouro), ainda no cantar dos sapos-bois e cururus, para pegar a canoa no cais próximo a estação ferroviária, da saudosa Great Western, lá mesmo no bairro.

      Pai e filho subiam na embarcação aí pelas 5 da manhã e saíam remando até o meio da lagoa. Voltavam no final da tarde com a canoa abarrotada de sururu, siris e caranguejos para comercializá-los na feira de Bebedouro. O infeliz trabalhava tanto que não tinha tempo para fazer outra coisa… Quando completou 14 anos de idade, seus pais já estavam mortos e ele foi morar na Levada, onde continuou a vidinha de sempre.

      Quando completou 18 anos, já não possuía nenhum dente inteiro na boca. Tempos depois, o jeito foi apelar para o dentista mais popular de Maceió, o doutor Antônio Milton Pessoa Falcão, o famoso Doutor Miltinho, enorme coração, que lhe deixou a boca nos trinques. Quem o indicou ao Doutor Miltinho foi, justo, o protético deste, o bonachão Paulo Auto, de quem Eutíquio ficou amigo, quando comercializava os seus pescados no mercado público municipal da Levada.

       Antes dessa amizade, Eutíquio só comia coisas leves – sopinhas, mingaus, canjas e um suquinho, pra variar.

        Mas, acontece que – eis aí o azar! – o Eutíquio perdeu a prótese dentária – no dia em que deu uma mergulhada mais incrementada na lagoa: a infeliz escapuliu da boca a foi esbarrar nas profundezas da água. Por mais tenha se empenhado na procura, jamais a encontrou.

         Novamente de boca murcha, Zé Eutíquio passou a andar triste, cabisbaixo, até que encontrou um candidato a vereador picareta que lhe propôs a feitura de outra chapa.

       Eutíquio animou-se e topou a proposta na hora:

        – Quando é que eu posso passar na sua casa?

        – Agora, se quiser. – disse o candidato a vereador.

      – Então, vamos lá!

        Foram. Das mais de cem pererecas que Eutíquio experimentou, uma delas encaixou “mais ou menos” na sua boca.

         – Fico com essa!

         E saiu Eutíquio felicíssimo da vida, rindo adoidado. De vez em quando, a prótese sacolejava na boca, mas ele a segurava firme com a ponta da língua. De sorriso novo, arrumou logo uma namorada, a Maria Edite de Jesus (Ditinha), empregada doméstica que trabalhava na casa do finado Chico Agra, na Levada.

      Logo na primeira noite de xumbrego com a garota, aconteceu a tragédia: um beijo mal encaixado na boca da Ditinha, a chapa escorregou pra dentro da goela da coitada e ficou lá, enganchada. Apesar dos esforços de curiosos e transeuntes a peça não pôde ser resgatada e Ditinha, coitadinha, morreu roxinha, asfixiada.

      Até esta data o Eutíquio está sumido do mapa.

 

Sexo em coma mortal

     Diariamente, o português Eustáquio Limeira visitava sua esposa que se achava em coma há vários meses no hospital. Em um desses dias, ele não resistiu e lhe apalpou os seios. Aí, a doente soltou aquele suspiro. Assustado, o português chamou o médico e contou o que aconteceu.

      – Mas isso é maravilhoso! É um sinal de que sua esposa está reagindo bem ao tratamento! – vibrou o doutor. – Volte lá e acaricie o outro seio.

      Eustáquio foi lá e repetiu a dose, conforme o esculápio recomendou. Em seguida, voltou ao gabinete do facultativo:

      – Ora, pois, doutoire a Amália deu um gemido e mais um suspiro!

      – Muito bem. Isso é indício de que ela está tendo uma reação ao prazer. Volte lá e experimente um sexo oral!

      Daí a instante, o Eustáquio voltou choramingando:

       – Doutoire! A Amália morreu!

       – Morreu? Como? De emoção, foi?

       – Não. Ela morreu afogada!

 

Paciente complicado

      O chefe da família Lado, doutor Sitônio, era fã incondicional do finado galã do cinema americano Errol Flynn, que era o fino na arte de representar. Na Hollywood dos anos 40 e 50 ele reinou e matou a pau. Filmes de caubói e de capa e espada eram com o Flynn mesmo. Doutor Sitônio não perdia um filme do saudoso astro. Ele era tão fã do artista que botou o nome do filho único de Errol. Mais tarde o batizou e registrou com prenome e nome misturado: Errol Lado.

      Doutor Sitônio, que era dentista, morreu feliz e certamente o galã hollywoodiano teria partido para o outro mundo felicíssimo houvesse sabido de tamanha homenagem.

       Errol Lado cresceu complicadíssimo, coisa para deixar qualquer psicólogo pirado. Provavelmente quando morrer, seu cérebro (algumas pessoas duvidam que ele tenha um) será doado a alguma instituição científica para estudos. Mas ele continua vivendo numa boa, com a graça de Deus.

      Dia desse ele manquitolava pela rua, com o pé enfaixado. Aí, topou com um amigo, o Asnildo Pereira, que lhe indagou, já prevendo uma resposta louca:

       – O que foi que houve com o seu pé, companheiro?

       E o Errol Lado:

        – Quebrei, não tá vendo?

        – Claro que estou! Mas você está indo pra onde, manquitolando desse jeito?

        – Vou procurar o pediatra!

        – Pediatra?! Pra quê você quer um pediatra?

        – Pra cuidar desse meu pé, seu burrão!

        – Burrão é você! Quem cuida de pé quebrado e ortopedista. Pediatra cuida de criança!

        – É por isso que todo médico é complicado! Outro dia, um deles retirou um caroço do peito da minha mãe e disse que ia mandá-lo pro patologista. Se fosse eu que tivesse dito uma bobagem desta todo mundo estaria me chamando de doido!

         – Mas o medico da sua mãe está certo, rapaz!

         Aí, o Errol Lado caiu na risada:

        – Rá, rá,ráááá… Patologista, ô imbecil, é o cara que cuida dos patos! Não falei que todo médico é complicado? E você ainda dá razão pra esses caras. Vá ser doutor também!