Ailton Villanova

1 de novembro de 2017

Problema seria o marido muito louco!

      A turma que viveu no Bom Parto na década de 50 – ou um pouquinho mais pra cá –, conheceu o “Lindo”. O nome verdadeiro dele era Luiz, mas ninguém o conhecia como tal, até porque no Bom Parto tinha Luizes pra mais da conta.

      Lindo era operário da finada Fábrica Alexandria. Sujeito educado, sorriso largo, apesar da ausência de um dos dentes da frente. Apesar dessa falha dentária, ele gostava de rir. Orgulhava-se de sua cabeleira tipo Elvis Presley e só um único barbeiro punha a mão nela. Esse era seu Manuel Pereira, o grande Manu. Vaidoso ao extremo, o Lindo apreciava vestir-se elegantemente, e abusava da roupa de linho, sempre costuradas pelo mestre Olivério Villanova. A gola de suas camisas ele as conservava sempre levantada na parte de trás… no cogote.

       Aos sábados, dia de “dança” no sindicato dos operários da Alexandria, Lindo arrancava aplausos quando cismava de traçar um bolero com sua parceira preferida, a Maria Cícera, prima-irmã da morena Maria José de Lima, hoje em dia viúva do ex-atleta do CRB, Zeca Torres. No metiê dancetífero Lindo reinava, mas só não superava dois dos mais populares bompartenses: Dérlis Correia e Benedito Vieira, o Biu Caçota.

       Nas noites de dança no sindicato, entre um traçado e outro, a turma  corria para o reservado que ficava nos fundos, onde havia um bar – que era administrado por seu Jason Ferreira, gente finíssima -, para respirar um pouco e o Lindo, especialista em boleros, era um dos seus fregueses mais assíduos. Num daqueles saudosos sábados, Lindo se achava saboreando uma cervejinha gelada quando bateu o olho numa jovem bonita, que bebia guaraná, sentada numa mesa de canto. Todo confiante, ele, que tinha fama de “Don Juan”, chegou junto da criatura, com aquele papo manjado:

      – E aí, minha deusa, tudo bem com a sua pessoa?

      – Tudo… – respondeu ela, timidamente.

      Não demorou muito, os dois já estavam de papo entrosado. Até que, se sentindo seguro, o conquistador, cheio de más intenções, propôs:

      – Olha, a gente bem que poderia ir para um lugar mais discreto. Que tal o escurinho do sapotizeiro que fica em frente à casa do seu Natalício?

      – Bem… pra mim, essa é uma decisão difícil, sabe? Mesmo assim alguns rapazes não entendem e me pressionam muito.

      E o Lindo, querendo impressionar a jovem, dando uma de compreensivo:

      – Pressionar você?! Mas isso é um absurdo! Eu saberia entender.

      – É… – retrucou a gostosura. – Mas o meu marido não entenderia, sabe? Ele ficaria muito louco, a ponto de sempre querer matar mais um. Já matou oito!

      O papo morreu aí.

 

Barbeiro incompetente

      Com a visão bastante comprometida, seu Odilon Oliveira, velho barbeiro ainda em atividade no Farol, tinha acabado de receber um freguês importante, o professor Ederaldo Fonsêca.

       – Como vai querer o corte? – perguntou, apertando os olhos.

       – Curto atrás, cheio nos lados e vários buracos em cima!

       E o barbeiro, confuso:

       – Ôxi! Que danado de corte é esse? Eu não sei fazer esse tipo de corte!

       – Sabe, sim! – respondeu o freguês. – Foi você mesmo quem o fez no mês passado!

 

Desvairada sexual???!!!

      Estudioso bastante do comportamento humano, doutor Aflaudízio Creolânio não tinha motivos para reclamar da vida, até que cismou de se pós-graduar, nos Estados Unidos, em “Psicoparasimpatologia Ampliada das Variações Humanas”. Em razão disso, seu consultório transformou-se num autêntico manicômio.

      Bem que, mais tarde, o doutor Aflaudízio pretendeu mudar de área de especialidade, mas estava deveras comprometido com a clientela e tão maluco quanto a própria.     

      Você, leitor, sabe muito bem que o comportamento humano é complicado. Se o cara é doido, pensa que é bom do juízo, e vice versa. Destrinchar o miolo cerebral de um psicopata era tudo que Aflaudízio mais queria. Quando, enfim, descobriu que esse tipo de gente vive no limite porque precisa de excitação, era tarde demais: estava envolvido com uma doida que adorava levar porrada no pau da venta. Suas economias foram gastas com sucessivas cirurgias reparadoras, mas a venta continuou torta.  O leitor já viu história mais sem pé e sem cabeça? Pois é, história de psicopata é daí pra pior.

      Certa tarde, quando tirava uma soneca em seu consultório, eis que doutor Aflaudízio foi despertado pelo telefone. Ele atendeu puto da vida:

      – Alôôôô ?

      Uma voz feminina, meio engrolada, falou do outro lado da linha:

       – Doutor, aqui é a Tugstênia! Estou apaixonadérrima pelo meu cachorro!

        E ele, fazendo a maior força para se manter calmo:

        – Ora, minha querida, isso não constitui problema nenhum. É muito comum as pessoas se afeiçoarem a animais, principalmente cachorros. Eu e minha mãe, por exemplo, adoramos nossa cachorrinha poodle…

        – O senhor mão entendeu, doutor. Eu me sinto fisicamente atraída por ele!

        – Hmmmm, vejamos. E se você o trocasse por uma cadela?

        – O quê?! O senhor está pensando que eu sou sapatão ou uma dessas desvairadas sexuais? Me respeite!