Ailton Villanova

26 de outubro de 2017

Dia de azar

      Da minha atuação como perito criminal da Segurança Pública de Alagoas em casos de vida e morte, tenho guardado inúmeros deles nos meus “implacáveis arquivos”. Episódios tristes, dramáticos, jocosos…

       Faz um bom tempo, eu me encontrava de prontidão pelo Instituto de Criminalística, aí por volta das 10 da noite, quando o delegado plantonista Manuel José de Lima, de saudosa memória, me ligou da Deplan:

        – Villa, tem um ‘boneco’ pra você no bairro da Levada!

        – Em que parte da Levada, companheiro Lima? – indaguei.

        O delegado me passou as coordenadas e eu me mandei pra lá com minha equipe, que era constituída dos colegas Osvanildo Adelino de Oliveira, Dely Ferreira e o fotógrafo Edvaldo José dos Santos, o proverbial Soró, esses dois últimos já finados.

         A vítima se achava de canelas esticadas e dentes pra cima na porta de uma birosca, cujo dono era um pederasta famoso chamado Farias. Fizemos o devido levantamento e voltamos ao IC, onde principiamos a feitura do respectivo laudo. À primeira vista, o caso era típico de suicídio, mas não era. Sem querer, e querendo, a vítima havia tomado um copo de refrigerante misturado com “Formicida Tatu”, tradicional veneno destinado a eliminar ratos e formigas.

          Aconteceu da seguinte maneira:

          Tido e havido como o maior arruaceiro das plagas levadianas, um certo João Anselmo, mais conhecido pelo vulgo de Tuíta, tinha entrado na já citada birosca, pisando firme e querendo briga. O mau elemento cuspia nas paredes, chutava mesas, cadeiras e berrava feito louco:

           – Aqui só tem corno e viado! Alguém achou ruim?

           Como Tuíta era musculoso e grandalhão, ninguém ousou manifestar-se em contrário. Enquanto ele alterava, o pessoal ia saindo de fininho. No final, só ficou mesmo um amarelinho, baixinho, segurando um copo de bebida.

            O valentão não deixou por menos. Aproximou-se do baixinho, olhou firme pra ele e, em seguida, aplicou um violento murro na mesa. Não satisfeito, apossou-se do copo do coitado e virou com bebida e tudo na boca, de um gole só.

            Quando o baixinho quis dizer alguma coisa, o valentão rosnou:

            – Achou ruim, seu corno? Se achou…

            – Eu só tô achando que hoje é o meu dia de azar, apenas isso! Imagine que acordei com uma dor de cabeça infeliz. Entrei no banheiro pra tomar banho, levei um tremendo choque no chuveiro. Na hora de comer, derramei café na camisa novinha. Aí, briguei com a mulher e saí de casa com fome. Na ida para o trabalho, peguei um ônibus lotado, roubaram minha carteira e me botaram pra baixo, porque reclamei que ali só tinha ladrão. Sem um tostão no bolso, tive que ir trabalhar a pé, cheguei atrasado e fui despedido. Triste e desiludido, quando tentava atravessar a rua fui atropelado por um taxi. Me levaram pro Pronto Socorro, onde fui medicado e uma ambulância me levou pra casa. O pior de tudo vou lhe contar agora: quando entrei em casa, flagrei minha mulher trepando com o vizinho, no sofá da sala. Então, vim pra esta birosca disposto a acabar com esta vida de merda e aí apareceu você e tomou todo o meu veneno!

 

Medida antifrio

      O garotão Asclípedes, boa pinta, tipo atlético, mas virgem zerado, arrumou uma namorada escoladíssima, numa festa de aniversário. Morena curvilínea, doze anos mais velha que ele, a dona possuía um carro novo, onde acomodou o donzelo e, cheia de más intenções, saiu desfilando, na noite fria de junho, pela marítima.

        E lá ia o casal na direção do coqueiral da praia de Cruz das Almas quando, no meio do caminho, um pneu do carro murchou e o atleta desceu para trocá-lo. Terminado o serviço, o donzelo estava com as mãos roxas e tremendo de frio. Com peninha do namorado, a morena se ofereceu para esquentá-las, colocando-as entre as coxas, por baixo do vestido.

        A certa altura, excitadíssima, ela sussurrou:

        – Amor… suas orelhas não estão geladas também?

        Estavam.

 

Questão de preço

      O atalaiense Jorásio Tavares juntou uma boa grana e, quando achou que dava para gastá-la na aquisição de suprimentos para a lojinha de propriedade da esposa, fez uma viagem a São Paulo, a bordo de um ônibus popular.

       Jorásio desembarcou no terminal rodoviário paulistano, montou num taxi e se mandou para a famosa Rua 25 de março, onde existe todo tipo de loja para os mais variados gostos de fregueses, a preços razoáveis. Como havia chegado alta hora da noite, comércio praticamente fechado, dirigiu-se a um daqueles hotéis “xerife” (hotel de uma estrela) do bairro da Luz.

        Jorásio chegou pro sonolento recepcionista e disse:

        – Quero um quarto!

        O cara explicou:

         – O senhor tem três opções: no quarto 300, o senhor tem direito à Tv, vídeo e banho quente e frio. O número 200 não tem nem Tv e nem vídeo. No quarto 100, o senhor terá que fazer a cama…

         Jorásio não trastejou:

         – Fico nesse! Eu sei fazer a cama!

         E o recepcionista:

         – Nesse caso, pode pegar a madeira, os pregos e martelo, ali nos fundos!